|
O candidato a vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura (CSM),
juiz-conselheiro Orlando Afonso, afirmou ontem que a Lei da
Responsabilidade Civil contribui para instalar o “medo” entre os
juízes, pondo em causa a sua independência.
“Vai pôr em causa alguma independência. Mais: vai amedrontar. E a
pior coisa que pode acontecer para a população, não é para os juízes, é
que os juízes tenham medo”, afirmou.
Orlando Afonso, que falava à Lusa no Porto à margem de um almoço da sua
campanha com 110 magistrados da região, disse que a lei em questão
viola as próprias orientações do Conselho da Europa. O Conselho,
referiu, defende que a responsabilidade civil “deve ser exercida por
acção de regresso, mas só quando há dolo do magistrado”, enquanto que
em Portugal “é exercida quando há culpa grave e quando há erro
grosseiro”.
Para Orlando Afonso, outro factor indutor de “medo” nos juízes é a
eventual repetição de decisões do CSM como a que acabou anulada pelo
Supremo Tribunal de justiça e que penalizava, em termos de progressão
de carreira, o juiz de instrução do processo Casa Pia, Rui Teixeira
“Se continuarem a existir decisões iguais a esta, aí não tenho dúvidas
nenhumas de que os juízes terão medo”. O candidato ao CSM considerou,
de resto, que “todos os direitos e garantias da magistratura, que se
alcançaram após o 25 de Abril de 1974, hoje estão postos em causa”.
“Já não passa pela cabeça de qualquer juiz de primeira instância chegar
ao STJ, quando deve ser a expectativa legítima de qualquer juiz chegar
ao topo da sua carreira”.
As eleições para o CSM, órgão de Estado de gestão, disciplina e
administração dos juízes, estão marcadas para 25 de Março entre Orlando
Afonso e Bravo Serra.
“A pior coisa que pode acontecer para a população é que os juízes tenham medo”
Cavaco teve dúvidas e chegou a vetar a nova lei
Na abertura do ano judicial, o presidente da República também
manifestou dúvidas em relação a esta lei, defendendo “a necessidade de
se realizar uma ponderação profunda” sobre o seu equilíbrio interno,
“até pelas desigualdades que a mesma potencia entre os diversos agentes
do Estado”.
Cavaco chegou mesmo a vetar o diploma, mas acabou por promulgá-lo pelo
facto de a lei ter sido confirmada, no Parlamento, “por uma maioria
muito significativa, representando um vasto espectro
político-partidário”, justificou.
Nesse sentido, considerou não existirem “motivos para supor que a
Assembleia da República viesse a alterar a sua posição de fundo no caso
de uma nova devolução do diploma”, pelo que optou por “promulgar o
decreto da Assembleia da República que aprova o regime da
responsabilidade civil extracontratual do Estado e demais entidades
públicas”.
JORNAL DE NOTÍCIAS | 07.02.2010
Comentarios () |
|
|
|
|
|