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Os Juízes que residam nas Ilhas e sejam promovidos a Desembargadores, além de perderem o subsídio de insularidade, passam a gastar um terço do ordenado com as deslocações semanais entre as Regiões Autónomas e o Continente. Enquanto viaja, no mesmo avião, os 11 deputados que se deslocam semanalmente ao Continente, têm subsídio para uma viagem semanal de ida e volta em avião...
Sílvio Sousa tem 57 anos de idade e 32 de serviço. Há dez anos que podia ter sido promovido a juiz desembargador. Por opção recusou. Em Setembro passado o magistrado madeirense, que julgou e condenou o padre Frederico por homicídio e tentativa de actos homossexuais com menores, acabou por ser colocado no Tribunal da Relação de Évora. Com a progressão, perdeu o subsídio de insularidade e passou a gastar um terço do ordenado com as deslocações semanais entre a Madeira e o Continente .
Esta situação é vista por alguns juízes como uma "violação do princípio da igualdade entre juízes desembargadores" e a questão está agora nas mãos do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República.
Os juízes desembargadores residentes nas regiões autónomas têm de pagar as deslocações para o tribunal da Relação onde exercem funções, enquanto que os desembargadores residentes em Portugal continental têm direito à utilização gratuita de transportes entre a residência e o respectivo tribunal da Relação onde trabalham.
Ou seja, um juiz residente em Bragança que trabalhe na Relação de Évora não gasta qualquer verba com as deslocações em transportes públicos, mas um juiz residente nas regiões autónomas da Madeira ou dos Açores, acessíveis por avião, tem de suportar do seu próprio bolso as viagens.
Em causa está o facto de o Estatuto dos Magistrados judiciais apenas prever a utilização gratuita de transportes públicos terrestres e fluviais, ao mesmo tempo que só em território continental existem tribunais superiores, obrigando os magistrados oriundos das ilhas que progridem na carreira a pagar a sua promoção.
GOVERNO PEDE PARECER
Para o desembargador Sílvio Sousa, que lembra a ainda a situação diferenciada dos deputados (ver caixa) esta norma é uma autêntica "aberração".
O magistrado que condenou o padre Frederico escreveu ao ministro da justiça que, entretanto, conforme confirmou ao CM o Ministério, solicitou, a 13 de Março um parecer ao Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República, não tendo ainda obtido resposta. O Ministério explica que se trata de uma "situação nova, não havendo uma clara solução legal".
Actualmente existem dois juízes desembargadores oriundos das regiões autónomas. Além de Sílvio Sousa, também Gilberto Jorge está na mesma situação. Tem residência na Região Autónoma dos Açores e está colocado no Tribunal da Relação de Lisboa.
2 Juízes desembargadores oriundos das ilhas estão colocados em tribunais da Relação, que só existem em Portugal continental, e são obrigados a pagar as deslocações ao contrário dos colegas residentes no continente.
11 Deputados ã Assembleia da República com residência nas regiões autónomas têm um subsídio para unta viagem aérea semanal.
Há 5 tribunais da Relação, todos no continente: Lisboa, Coimbra, Évora, Guimarães e Porto. Discute-se a hipótese da criação de outro em Faro.
CSM rejeitou proposta.
A situação dos juízes das ilhas foi levada ao Conselho Superior da Magistratura pelo vogal Edgar Lopes. "Uma vez que não existe transporte terrestre ou fluvial para as Regiões Autónomas, os juízes que aí residam e tenham o seu centro de vida e que ingressem num tribunal da Relação encontrar-se-ão numa clara situação de desigualdade perante qualquer juiz residente no território continental português, atentos, desde logo, aos elevados custos das deslocações por via aérea", considerou o juiz. Edgar Lopes chegou a elaborar uma proposta de alteração do Estatuto dos Magistrados Judiciais, por considerar que "as situações serão pontuais e ocorrerão poucas vezes, mas são claramente excepcionais e merecem tratamento adequado". No entanto, e após uma primeira aprovação da deliberação, a proposta foi chumbada com apenas dois votos a favor.
Deputados com viagens pagas
Algumas das companhias de viagem de Sílvio Sousa, à quinta-feira, quando regressa à Região Autónoma da Madeira, são deputados que, tal como o juiz, se deslocam semanalmente ao continente. A única diferença é que os políticos com residência nos Açores ou na Madeira têm subsídio para uma viagem semanal de ida e volta em avião. A Assembleia da República tem 11 deputados eleitos pelas regiões autónomas. Pela Madeira há seis e pelos Açores cinco. Entre eles destacam-se Ricardo Rodrigues, Mota Amaral e Guilherme Silva.
ANA LUÍSA NASCIMENTO | CORREIO DA MANHÃ | 13.05.2007
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