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Formação de Juízes e cultura urbana
11-Abr-2008

O presidente do Conselho Superior da Magistratura questionou hoje, em Guimarães, o modelo de formação do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), dizendo que se corre o risco de a Justiça estar marcada pela cultura urbana, esquecendo outras realidades, como a rural. «Será que o discurso judiciário corre o risco de estar cada vez mais enredado pela cultura ideológica da civilização urbana e sem preocupação de olhar para o mundo rural?», questionou Noronha Nascimento, perguntando, também, qual o papel do CEJ neste contexto. O Presidente do CSM falava durante o V Encontro do Conselho Superior da Magistratura, subordinado ao tema «O Discurso Judiciário, a Comunicação e a Justiça» e que está a decorrer no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães.


Na iniciativa participam 250 pessoas, maioritariamente magistrados judiciais. 

O juiz conselheiro considerou que, «com jovens juízes vindos maioritariamente do litoral urbano, oriundos necessariamente de zonas próximas do mar, e formados numa escola, o CEJ, por juízes de Lisboa, o discurso judiciário iniciático de um juiz colocado no país rural ou pouco urbanizado terá uma escala de valores aferida em função de outro diapasão». 

Lembrando que Portugal tem uma zona litoral urbanizada, mas extensas zonas rurais, no Norte, no Centro e no Sul, Noronha do Nascimento manifestou-se «preocupado» com a falta de experiência dos novos juízes, face às realidades dessas zonas. 

Lembrou o seu caso pessoal, com uma passagem pela comarca de Barrancos, no Alentejo interior, para sublinhar que foi essa vivência que lhe permitiu compreender as tradições e costumes das gentes raianas, e, por exemplo, o seu amor e apego à tourada. 

Trata-se - sublinhou - de uma questão cultural, com raízes profundas na cultura de um povo e que só conseguiu entender por ter trabalhado na zona e vivido com os seus habitantes. 

Para acentuar a possibilidade de não haver entendimento entre um cidadão do interior rural e um «juiz/urbano», Noronha do Nascimento contou a história de um soldado que acaba de entrar num quartel. 

«Tinha havido uma incorporação de soldados das aldeias deste país. No dia seguinte um soldado queria trocar a farda que lhe saíra em sorte, porque ela não lhe servia. Na parada do quartel deu de caras com um oficial, por acaso o comandante que ele não conhecia. 'Vossemecê sabe onde posso trocar de farda?', perguntou. Puxando dos galões, o comandante fez uma alocução de três a quatro minutos», referiu. 

Lembrou ao soldado - acrescentou Noronha do Nascimento - que ele «estava ali para servir a pátria, tinha de saber o que o espera, aprender o que era a hierarquia, diagnosticar a quem se dirigia e interiorizar as regras da disciplina militar».  

No fim do monólogo, disse o comandante: «Percebeste ou não?». Respondeu o soldado: «Percebo, sim senhor. Mas, já agora, pode-me dizer onde posso trocar a farda?» 

Em jeito de moral da história, e para acentuar a necessidade de o tema ser alvo da formação do CEJ, o presidente do Conselho Superior da Magistratura salientou: «É precisamente para que isto não volte a acontecer que nós estamos aqui»  

O CSM é o órgão a quem estão constitucionalmente atribuídas as competências de nomeação, colocação, transferência e promoção dos juízes dos tribunais judiciais e o exercício da acção disciplinar. 
 
SOL | 11.04.2008 
 

 
Discurso do Presidente do STJ no V encontro do Conselho Superior da Magistratura

Uma vez mais, ano após ano, encontramo-nos - desta vez em Guimarães - para celebrar o acto da Primavera do Conselho Superior da Magistratura (C.S.M.): o seu encontro anual, subordinado a um tema nuclear, a cuja discussão são chamados sem distinção todos os juízes.

Guimarães é uma escolha óbvia que dispensa apresentações porque aqui conflui toda a nossa memória identitária do parto inicial.

Daí que, a todos os que contribuíram para esta realização, os nossos mais sinceros agradecimentos.

O Conselho escolheu, para este Encontro, um tema quase com a idade da nossa democracia: o discurso judiciário e a comunicação da justiça.

Tema recorrente, de conclusões recorrentemente provisórias e que nos instigam a fazer renascer, como em Lerna, as nossas duvidas, as nossas possíveis certezas e o nosso debate.

Permitam-me, por isso, compartilhar convosco, por pouco que seja, o menu das minhas indecisões.

O discurso judiciário pode ter destinatários internos ou externos ao sistema: ou seja, destinatários que dominam (os internos) ou não dominam (os externos) o código cifrado da linguagem jurídica e que não precisam ou precisam, respectivamente, de quem a decifre.

E esta diferença estrutural de patamares confere ópticas dissemelhantes para compreender o discurso judiciário a partir de um emissor-juiz, já que esta é uma das várias placas giratórias que nos interessam neste colóquio; aquela que - se me permitem - escolherei para esta pequena nota de abertura.

Comecemos, pois, pelo discurso interno que acaba por se relacionar com a formação profissional do juiz.

E a pergunta que provocatoriamente começaria por fazer é esta: será que o discurso judiciário corre o risco de estar cada vez mais enredado pela cultura ideológica da civilização urbana canibalizando sem preocupações de maior a civilização rural?

Que o mesmo é perguntar qual o papel que, na formação dos juízes, e a este nível tem tido o modelo actual encimado pelo CEJ.

Expliquemo-nos.

Temos um país que paulatinamente se vem litoralizando cada vez mais desde os sécs. XVI/XVII (primeiro à medida das áreas que permitiam o cultivo do milho americano, depois à medida da força centrifuga dos centros metropolitanos) e que vai construindo uma cultura urbana quase ininterrupta de norte a sul ao longo da linha costeira.

É daí que sai hoje a maioria dos jovens que frequentam as faculdades de direito de referência do nosso país e, por extensão, a maioria dos jovens que ingressam na judicatura.

Com jovens juízes, vindos maioritariamente do litoral urbano, oriundos necessariamente de cidades próximas do mar, formados profissionalmente numa escola (o CEJ) onde leccionam docentes quase só da área de Lisboa, como irá ser o discurso judiciário do juiz iniciático colocado no país rural, ou pouco urbanizado, com uma escala de valores aferida em função de um outro diapasão?

Não me refiro obviamente àqueles casos que contendem com direitos estruturantes de personalidade que valem para o país inteiro sem distinção de zonas ou de feudos: o crime da aldeia velha ocorrido no Marco de Canaveses nos anos 30 do século passado (e que B. Santareno imortalizou) é o exemplo paradigmático daquilo que nenhuma cultura local pode legitimar porque é sempre crime seja qual for a aparência que o acoberta.

Mas refiro-me, sim, a muitos outros: a todos aqueles que - não estando em causa valores estruturantes universais - contendem com visões culturais específicas de certa geografia provincial ou regional.

O caso das touradas de Barrancos trouxe à luz do dia esse conflito latente entre as visões diferenciadas de mundos diferentes e que o juiz é chamado tantas vezes a arbitrar; e quantos de nós, juízes, nos demos conta disso na nossa vida de andarilho, nomeadamente no tempo do sexénio, pelas sete partidas do país.

As expressões insultuosas de certas regiões e que não têm noutras significado difamatório nenhum, as chegas de bois do Barroso (que fizeram as delícias de cineastas amadores franceses na década de 60) a regra civilística do escoamento natural das águas para os prédios inferiores que o mundo rural de zonas profundamente declivosas não cumpre porque não pode cumprir sob pena de desabamento de terras, são pequenos exemplos de um leque imenso que pode trazer para os destinatários da justiça um discurso incompreensível se for proferido por um juiz verdadeiramente de fora.

A formação profissional é, aqui, essencial para que o juiz, vindo de fora, seja de dentro.

Foi provavelmente em Trancoso (primeira comarca onde judiquei há trinta e cinco anos) que me dei conta desta problemática com o fenómeno feérico do sincelo.

O sincelo (que ocorre em áreas restritas da Beira Alta e que Aquilino refere constantemente) introduz, a partir de costumes e usos ancestrais, uma modificação na perda e na aquisição da propriedade que distorce as regras clássicas da matéria.

Apreciar juridicamente em tribunal um crime de furto por actos justificados pelo sincelo ou uma perda e uma nova aquisição de propriedade derivadas do abandono e ocupação que o sincelo legitima, tudo à luz de estritos conceitos legais sedimentados classicamente, pode corresponder a um discurso judiciário incompreendido para os destinatários e para o meio social onde se inscrevem.

Mas à pergunta inicial uma outra se pode aditar.

O regime de formação intraprofissional que decorria do sistema de acesso à magistratura implantado pela 1.ª República desapareceu entre 1978/80, com o advento do CEJ que introduziu parâmetros diferentes.

Será que o CEJ, ao longo da sua existência, foi fazendo cada vez mais uma triagem de docentes que se traduziu numa auto-reprodução cultural quase contínua com efeitos unidimensionais na linguagem judiciária dos nossos dias?

Pergunta que agrego à primeira para memória futura.

Mas a publicitação social do discurso judiciário só existe se este for comunicado externamente.

E a comunicação faz-se em áreas restritas da vida dos tribunais: reduz-se, em regra, ao direito constitucional, às questões de menores e família e ao direito criminal (e, por extensão, à investigação respectiva).

Estas são, na verdade, as temáticas nucleares mediatizadas pela comunicação social: o constitucional porque contende com as opções políticas directas da nossa vida comum, a família e menores porque subjazem a problemas hoje recorrentes na nossa sociedade e o crime porque - além da dimensão teatral da tragédia grega - constitui a nova especiaria capaz de manter em níveis elevados a atenção da opinião pública até porque a linguagem jurídica é socialmente apreensível por contender com noções éticas do gregarismo humano.

Temos nós, juízes, a nossa quota-parte de culpa na frequência com que o nosso discurso é deficientemente transmitido; o atraso em criar estruturas orgânicas capazes de o simplificar é a prova disso.

 Mas não seremos os únicos responsáveis.

Surpreende-me a resistência surda a que, quem transmite as notícias, tenha um mínimo de conhecimento especializado sobre a matéria e que, tantas vezes, leva a resultados inesperados na transmissão da mensagem.

Mas surpreendem-me bem mais os casos em que a comunicação externa é dolosamente curto-circuitada como sucedeu, há pouco mais de um ano, com este Conselho no tempo da vice-presidência do Conselheiro Santos Bernardino.

A um espantoso comentário-notícia de uma jornalista de um diário numa sua edição de certo dia de Janeiro de 2007, acerca da intervenção deste Conselho na 1.ª comissão parlamentar aquando da recente alteração do Código Penal, contrapôs aquele juiz (que liderava a delegação do C.S.M.) o seu direito de resposta, rápida e imediatamente recusado pelo então director do periódico.

Porque a resposta do Conselho era irrespondível, optou-se, pelos vistos, por apagar da memória do tempo, e num passe de mágica, o incómodo que ela gerava, como se a mágica fosse a dissimulação ideal para os problemas que nos apoquentam.

Quando isto acontece não há comunicação possível porque ela está falsificada; o que nos reconduz à ideia (sustentada pela experiência brasileira) de que a solução do futuro passa pelo aproveitamento eficaz das tecnologias emergentes para inutilizar casos deste jaez.

Minhas senhoras e meus senhores,

A temática da comunicação sempre me fez transportar aos primórdios da minha profissão, à época da guerra colonial, com um episódio verídico a que quase assisti.

Tinha havido uma incorporação de soldados das aldeias deste país num certo quartel.

No dia seguinte, um soldado tentou trocar a farda que lhe saíra em sorte e que não lhe servia; na parada do quartel deu de frente com um oficial (que, sem saber, era o comandante da unidade) e perguntou-lhe: "vossemecê pode-me dizer onde posso trocar a farda?"

Puxando dos galões, o comandante fez-lhe uma alocução de três/quatro minutos: que ele estava ali para servir a pátria, que tinha que saber o que o esperava, que devia aprender o que era a hierarquia, que devia diagnosticar a quem se dirigia, que tinha que interiorizar a disciplina militar, etc, etc...

E no fim do monólogo, rematou, perguntando ao soldado: percebeste ou não?

Ao que o soldado respondeu: "percebi sim senhor; mas já agora pode-me dizer onde posso trocar a farda?"

É precisamente para que isto não volte a acontecer que, afinal, estamos aqui.

Luís António Noronha Nascimento

 
Comentarios (16)add
... : BD
É curioso que antes deste texto ser publicado na Revista eu tinha comentado hoje pela segunda vez a entrevista do Presidente do Supremo e falado então precisamente dos juízes novos que, a avaliar pelo discurso de alguns que por aqui têm e se dizem juízes - coisa que, dada a vociferação e o vincar de posições que se adivinha, eu por vezes chego a duvidar, ou então fintaram alguém no acesso -, não parecem saber qual é o verdadeiro significado do papel institucional de extrema importância que representam na comunidade. É pois com agrado que vejo agora o Sr. Juiz Conselheiro, com bem mais urbanidade e com grande sentido humor, abordar o mesmo assunto como se também sentisse o problema. Fala em juízes urbanos oriundos do Litoral, formados no CEJ por juízes de Lisboa, que desconhecem o mundo rural, o interior, suas tradições e costumes. O Sr. Conselheiro quis alertar, estou certo, para alguma falta de compreensão da realidade socio-cultural do outro (diferente) por parte dos jovens magistrados judiciais portugueses (não todos, felizmente), que por vezes demonstram falta de sensibilidade e ausência de compaixão por quem não pertence ao círculo citadino ou é demasiado humilde.
11.Abril.2008
... : festa brava
Com todo o respeito pelo Sr. Conselheiro, não vejo que seja a formação do CEJ o meio para introduzir ?ruralidade? nos juízes.
Os juízes serão sempre mais citadinos ou rurais em função da sua experiência pessoal. Se, num dado período, as estatísticas do CEJ revelarem que os recrutas provêm da aldeia, pode estar o Conselho Superior da Magistratura descansado que eles saberão reconhecer o mundo onde nasceram e cresceram. Quando provierem das cidades, não será um ano de CEJ que lhes abrirá os horizontes rurais portugueses.
O que o CEJ pode fazer é contribuir para uma cultura de humildade e tolerância. Mas esta tanto serve para ajudar o juiz citadino a compreender o mundo rural, como serve para ajudar o juiz aldeão a compreender o mundo urbano, como serve, ainda, para tudo o mais que envolve o exercício da função.
Se o Conselho Superior da Magistratura sente que os juízes estão mais citadinos, talvez não devesse apontar o dedo ao CEJ, mas sim à sociedade portuguesa. Se está ela cada vez mais citadina e se os juizes são pessoas que dela participam, reflectindo esse tecido social...
O indirecto apontar do dedo ao CEJ só faz sentido para um Conselho Superior da Magistratura que não se conforma que seja o Ministério da Justiça, e não o CSM, a tutelar aquele centro de estudos.

Finalmente, se o Sr. Conselheiro conseguiu compreender o mundo rural (só) depois de ter exercido funções no interior (e não em resultado de uma qualquer formação profissionalizante, como é hoje a do CEJ), não lhe ficava mal humildemente admitir que talvez, só talvez, essa capacidade não será só sua e que os jovens juízes também comungam, bastante menos, é certo, da mesma.

11.Abril.2008
... : Alberto Ruço
«com jovens juízes vindos maioritariamente do litoral urbano, oriundos necessariamente de zonas próximas do mar, e formados numa escola, o CEJ, por juízes de Lisboa, o discurso judiciário iniciático de um juiz colocado no país rural ou pouco urbanizado terá uma escala de valores aferida em função de outro diapasão».

O problema do «juiz urbano» colocado no interior e, pode nem ser muito no interior, porventura às portas de Lisboa, pode enfrentar um problema sério que consiste em não compreender a realidade «não urbana» que constitui o objecto do processo.

Quando cumpria o serviço militar, durante um almoço, acidentalmente, um camarada meu, totalmente citadino, revelou que pensava que os tomates cresciam em árvores, como as laranjas.

Na altura, com os anos que tinha, achei imensa piada, ri e ainda hoje sorrio.

Porém, pensando bem, o meu camarada raciocinou bem.
Não conhecia a planta que gerava o tomate, mas conhecia as laranjeiras. Enfim, comparando um tomate a uma laranja, a analogia era aceitável e, portanto, era provável que o tomate crescesse numa árvore.
Afinal, o tomate até tem alguma semelhanças exteriores com um dióspiro.

Não foi Marco Polo que ficou deveras surpreendido com a fealdade do unicórnio, quando nas suas viagens viu pela primeira vez um rinoceronte ?

E um chefe tribal africano não ameaçou castigar severamente um viajante do norte da Europa quando este ( depois de lhe ter contar histórias fantásticas, nas quais acreditou piamente) lhe disse que na sua terra, em certa época do ano, a água ficava tão dura ( gelo) que até os cavalos andavam em cima dela?

Há realidades que o «juiz urbano» terá dificuldade em perceber, pela simples razão de que não está equipado para perceber, por lhe faltarem conhecimentos básicos oriundos da experiência.
Olha para o mesmo que os rurais olham, mas não vê o mesmo que eles vêem.
Olha, mas não vê, quero dizer, não interpreta o que vê.

Isto é um problema sério, porque para decidir sobre os factos é necessários compreender a realidade subjacente.

Mas se o juiz tiver consciência disto e humildade para perguntar o que não sabe, certamente haverá quem lhe explique e perceberá.

Se for de boa índole, as pessoas compreenderão a ignorância e passarão até a apreciar a sagacidade do juiz que conseguiu perceber a realidade a que não estava habituado.

12.Abril.2008
... : metalúrgico
que a inexperiência de alguns juízes é real e que nalguns a sua inexperi~encia de vida brada aos céus é verdade. numa comarca de provìncia (distante) decorria um julgamento colectivo. tinha o arguido desferido vários golpes com uma calagouça. findo o dia de julgameto perguntava um dos aasas ao então corregedor: "o que é uma calagouça?".
não era Eça que dizia que o país era Lisboa, o resto era paisagem?
14.Abril.2008
... : Fernando Silva
Nesta linha o melhor era os juizes voltarem a ser os presidentes da câmara que, em princípio, entendem muito bem as suas regiões, nomeadamente as questões relacionadas com a administração. Assim tudo seria resolvido em casa sem intrusos. Seria tudo mais fácil e mais barato. Haveria muitas touradas muitas matanças de porco e que é sempre desejável, desde que seja acompanhado tudo de muita bededeira.
Quanto ao Cej que seja novamente transformado em cadeia para aquelas que se manifestam contra as touradas e matanças de porco.
Adeus meus amigos não quero pertencer a um país assim.
14.Abril.2008
... : Tony
metalúrgico, o que diz não tem nada a ver com cultura. Um juiz nascido numa aldeia de Vila Real (província) se for destacado para Castelo Branco não conhecerá a gíria linguística local. A caruma em Caminha é o mesmo que o mato de Vila Real de Santo António, tal como urbano do Porto desconhecerá alguma gíria linguística de Lisboa e vice-versa. Até as bicas de Lisboa podem ser iguais ao café curto do Porto ou um pão de Aveiro ser igual à carcaça de Lisboa, mas os termos são diferentes face à riqueza da língua.
Se perguntar aos 230 deputados da Assembleia da República o que é uma calagouça, veja quantos deles sabem do que se trata. Sendo os deputados eleitos de todas as regiões do país será de esperar que algum saiba, mas não é exigível que os 230 saibam. Aqueles que não sabem, devem ter a humildade de aprender, consultar o dicionário ou perguntar. Aliás, se esse juiz "asa" perguntou ao corregedor o que era uma calagouça, só demonstra que teve a humildade de reconhecer que não sabia tudo e que queria aprender. Não tem nada a ver com inexperiência dos juízes, mas sim com o adquirir de novos conhecimentos, o que deve ser feito ao longo de toda a vida e não pretender que com 30 anos se saiba tudo de tudo. A vida é assim mesmo.
De qualquer modo, não deixa de ter total razão o que foi dito pelo Senhor Juiz Conselheiro Noronha Nascimento. A verdade e a honestidade de reconhecer que estamos sempre a aprender só fica bem.
14.Abril.2008
... : Helder Domingues
É preciso é dizer coisas. Chamar a atenção. Ser espirituoso. Tem de se dar nas vistas. Vender banha da cobra foi sempre rendoso nas nossas feiras. Espero que os juizes do meu país não caiam nessa tentação. No entanto é preciso cuidado com os exemplos.
14.Abril.2008
... : Aquilino
Conheci o Senhor Conselheiro Noronha do Nascimento quando era Juiz no Cível do Porto. Homem de grande afabilidade e sensatez.
O que ele, provavelmente, quis dizer é que um Juiz deve entender da "poda", saber o que está em jogo, antes de decidir. Pôr um jovem de vinte e tal anos (ai que saudades!) a julgar, por exemplo, alguém que cometeu homicídio por causa do desvio da água dos seus campos, sem saber as noites e dias a fio que esse alguém a "tocou" para que se não perdesse, sem conhecer do tipo de "honra" que para essas pessoas representa o desvio da água, é desconhecer atenuantes que, logicamente, não podem conduzir à absolvição, mas contribuem, decerto, para uma severa atenuação da pena.
Evidentemente que um jovem Juiz, que não tem experiência de trabalho nem de vida, que passou o tempo a estudar e a viver em casa dos pais, não pode ser culpabilizado por ser julgador. A culpa, como diria um ex-presidente do Sporting, é do "sistema".
14.Abril.2008
... : 666
Aquilino
O que diz é certo, mas para esses males o sistema também dispõe de recursos.
O pior estará na instrução criminal (prisão preventiva), pois quando a decisão do recurso chega já é tarde.
Mas, mesmo aí, temos visto juízes mais velhos, do TIC, a praticarem os actos mais... mais... "duvidosos".
15.Abril.2008
... : Calvin
A vaca é talvez o animal mais representativo da quinta. É também aquele que, por norma, mais interesse desperta.

Utilização
Os agricultores que criam vacas fazem-no com duas intenções, produzir leite e, posteriormente, aproveitar os animais para a produção de carne.

Raças
Os melhores machos são aproveitados para reprodutores, os restantes são enviados para abate.
Em Portugal, há raças de vacas quase estritamente leiteiras, casos da Turina e da Frísia, e outras que são criadas fundamentalmente para abate e produção de carne, como as raças Mertolenga, Alentejana, Charolesa, Barrosã, entre outras, já que a qualidade da carne e os níveis de segurança destas raças em relação a doenças graves são elevados.

Existem ainda algumas raças autóctones que se encontram em perigo de extinção, por isso o governo Português tem dado subsídios para tentar manter essas raças com exemplares suficientes para evitar esse risco.

Como vivem
As vacas vivem geralmente num local que se chama vacaria, aqui dormem e comem o feno e as rações.
Na hora da ordenha, também é neste espaço, ou noutro imediatamente contíguo, que esta operação é realizada.

A vaca é um mamífero com úbere, que tem quatro tetas, por aí é extraído o leite. Actualmente, quase toda a ordenha é feita mecanicamente, embora algumas pessoas, as que têm poucas cabeças de gado, o façam geralmente da forma tradicional, à mão.

Durante o dia, se estiver bom tempo, as vacas vão até ao pasto, para tranquilamente pastarem alguma erva e fazerem um pouco de exercício.

Estômago
As vacas são ruminantes, o que significa que têm um estômago com quatro cavidades. Numa primeira fase, a vaca come sem mastigar e toda essa comida é enviada para uma cavidade própria. Passadas algumas horas, essa comida é regurgitada para a boca da vaca, onde é então lentamente mastigada e novamente engolida, para então, sim, ser feita a digestão.

Gestação
O tempo de gestação das vacas é de nove meses. Ao fim desse tempo nasce uma cria, a que se chama vitelo ou bezerro.
À semelhança do que acontece com os humanos, podem acontecer nascimentos múltiplos, mas não é o mais comum.

O estrume produzido pelas vacas é um bom fertilizante e pode ainda vir a ser utilizado como fonte de combustível, no futuro, estudos recentes apontam nesse sentido!

Produção
Uma vaca produz, em média, 20 L de leite por dia, havendo animais de raças de grande qualidade, que podem dar até 30 L.

Longevidade
Uma vaca pode viver cerca de 15 anos e pesar 600 kg.

Prontes, a minha aula por hoje tá dada!



16.Abril.2008
... : Calvin
PS (salvo seja): Em Portugal há muita gente a mamar na «teta» do Estado!
Agora já posso ir jogar ao berlinde...
16.Abril.2008
... : Calvin
NOVA AULA, VAMOS LÁ TODOS SOSSEGADINHOS TOMAR ATENÇÃO:

O BURRO:
O burro tem vindo a ser, cada vez mais, afastado da quinta. A sua utilização para trabalho deixou de fazer sentido, já que as máquinas agrícolas são bastante mais eficientes e, acima de tudo, não fazem tantas birras!

No entanto, para nós, o gado asinino continua a ser de extrema importância, e por esse motivo continuamos a classificá-lo como animal de quinta.

As tarefas dadas aos burros nas quintas eram, por norma, as mais duras, já que não era possível retirar deste animal qualquer outro proveito económico.
Serviam para lavrar os terrenos e como animal locomotor de carroças e das noras de tirar água dos poços, nas horas de rega.

Teimosos
Trabalhavam sempre individualmente, já que não é possível fazer uma parelha de burros.
Normalmente, se o tentar fazer, vai ter um problema de teimosia, um quererá ir para um lado, o outro quererá ir para outro; um anda, o outro fica parado...
Puxando as carroças, serviam como meio de transporte individual dos agricultores com menos posses.

Tradição mediterrânica
Por toda a Península Ibérica, o burro serviu para fazer a venda porta a porta de legumes, frutas e queijos. Em Portugal esta situação era muito frequente até aos anos setenta, principalmente nas regiões do Algarve e na zona Saloia em volta de Lisboa, embora acontecesse por todo o país. Agora a tradição continua a ser mantida, mas como atracção turística.

Algumas raças de burro estão à beira da extinção, com poucos exemplares reprodutores.
Felizmente, esta situação começa a ser resolvida, principalmente com empresas privadas que apostam nas viagens de burro por zonas rurais, sendo estes pequenos «safaris» muito apreciados pelos visitantes externos.
Também começa a haver alguns incentivos financeiros, por parte do governo, para a preservação desta espécie, começando agora a ser colhidos os primeiros frutos desta acção, já que alguns criadores de cavalos abraçaram esta missão com espírito empreendedor.

Esperança de vida
Os asininos podem viver entre 30 e 40 anos.


16.Abril.2008
... : Calvin
PS (salvo seja): E quem não aprender a lição. vai ficar de castigo na sala de audiências, em exposição, com «orelhas de burro»!!!!
Prontes, já posso ir jogar ao pião...
16.Abril.2008
... : metalúrgico
camarada Calvin, você podia ser juiz em qualquer comarca, porque percebe de ruralidade, como o demosntra a sua aula sobre vacas.
16.Abril.2008
... : BD
O Calvin é um zoólogo quiçá iminente com veia de formador de magistrados (e não só, todos os citadinos peraltas serão concerteza bem vindos) mas, sabe caro amigo e senhor, nós, os alunos do Litoral, temos de ir ao terreno ver as vacas e os burros ao vivo, precisamos pois de aulas práticas - até aqui foi só surf...-, senão ficamos com uma ideia muito académica ou muito livresca das matérias (bem, a não que o Calvin tenha uma assistente para as práticas, desconheço o programa...), e na hora da verdade (no julgamento, etc.) até podemos pensar, como disse atrás e bem o Alberto Ruço, que os tomates nascem nas árvores como as laranjas.
16.Abril.2008
... : ADV
Ah... então existe algo para além do país rural... O país rural é muito saudável; as vacas, os asininos, os tomates. E os cheiros e os aromas são uma das melhores terapias. O país é pleno de pessoas com muita qualidade. Veja-se uma barragem; de volta e meia há que abrir as comportas
16.Abril.2008
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