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A juíza-desembargadora Joana Salinas, da Relação do Porto, pediu hoje
a formação prévia dos magistrados que julgam abusos sexuais sobre
menores porque alguns "nem os filhos suportam" e falta-lhe "aptidão"
para lidar com estes casos.
Falando no Porto, num congresso sobre direitos da criança,
organizado pela Universidade Católica do Porto, a magistrada contestou
mesmo o princípio do juiz natural, nos processos de agressões sexuais a
menores, tendo em conta que há "tantos e tantos juízes que naturalmente
nem os filhos deles suportam"."Muito menos têm qualquer aptidão para conduzir este tipo de processos", acrescentou.
Joana
Salinas rotulou de "ignorantes" os magistrados que fazem confrontação
cara a cara entre crianças vítimas de abusos sexuais e os seus
agressores."Só em casos de julgamentos presididos por juízes
ignorantes ou negligentes é que há confrontação cara a cara da criança
com o arguido e suposto agressor", afirmou.
A desembargadora
disse concordar "em absoluto" que se recolham das crianças declarações
para memória futura, mas não concebe que em sede de julgamento o juiz
não oiça as vítimas.
Na sua comunicação, a desembargadora
criticou a alteração do Código Penal que reduz uma sucessão de crimes
sexuais sobre um menor a um único crime, na forma continuada.
No
congresso, a psicoterapeuta Catarina Ribeiro afirmou que apenas três a
cinco por cento das alegações de abuso sexual, feitas por crianças, são
falsas.Ainda assim, o número de casos deste tipo levados a julgamento é "muito reduzido" face às denúncias, disse. A
"falta de agilização de processos" é a principal razão que determina a
diferença entre as denúncias e os casos tratados na Justiça, explicou
depois, em declarações aos jornalistas."Os indicadores de
veracidade de testemunho são diferentes em cada idade", advertiu também
a psicoterapeuta, declarando "a inutilidade de alguns critérios
apontados na literatura".
Catarina Ribeiro é mestre em psicologia
do comportamento desviante e docente no Instituto Abel Salazar e na
Universidade Católica, tendo falando no congresso sobre "o impacto dos
sistemas de justiça nas crianças".A perita disse que os abusos
sexuais sobre crianças praticados por familiares, uns 35 por cento do
total, "são os mais difíceis de provar".Nestas circunstâncias, a
criança evidencia mais dificuldade em revelar quem a molestou, receando
que não acreditem na sua palavra ou temendo pelo seu futuro. A
credibilidade do testemunho "tem que ser avaliada considerando o
contexto", afirmou também a psicoterapeuta, referindo ainda que as
crianças "fazem pequenos flashes", mas muito raramente procedem a "uma
descrição sequencial" dos factos.
A procuradora-adjunta do
DIAP/Porto Maria João Taborda, outra das oradoras do congresso, disse
que o departamento onde trabalha registou em 2007 a entrada de 38
queixas por crimes sexuais contra menores e 11 entre 01 de Janeiro e 10
de Abril.Aos jornalistas, a procuradora garantiu que os números
são equivalentes aos nacionais, ao contrário dos referentes aos crimes
de violência sexual que triplicaram no Porto desde 2006.
Já a
directora do Instituto de Medicina Legal do Porto, Teresa Magalhães,
que admitiu que em Portugal a perícia médico-legal a menores vítimas de
abusos sexuais "ainda não é feita nas condições ideias"."A maior parte das vezes, faz-se primeiro o trabalho médico-legal e só depois a avaliação psicológica", lamentou.A
directora do IML/Porto sublinhou os cuidados a ter nas perícias para
"preservação das evidências", ou seja das provas do crime, e a
necessidade de evitar maiores danos psicológicos às vítimas. "Importa fazer perceber que se está ali numa atitude de ajuda e não de julgamento", advertiu.
RTP | 18.04.2008
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