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“Ser juiz
não é ter um emprego, mas ter um sentido de responsabilidade. Do bom
desempenho de um juiz depende a vida das pessoas”, defende o presidente
da Associação Sindical dos Juízes Portugueses. Para António Martins,
que não desmente a lentidão do sistema judicial, mas recorda as leis
processuais com “alçapões, labirintos e quedas de água” que em muito
contribuem para o actual estado das coisas, a isenção de um juiz podia
ficar em causa se fosse equiparado a um funcionário público.
Qual o diagnóstico do actual estado da justiça em Portugal?
É relativamente fácil. Basta falar com qualquer cidadão que tenha um
processo em tribunal e ele de certeza que vai responder «o meu processo
já devia ter sido decidido». Portanto, o diagnóstico real que temos é
de que a justiça neste momento ainda não está a responder como devia no
que respeita à celeridade, tanto dos cidadãos como das empresas.
E qual a terapêutica para resolver esta questão?
Efectivamente, têm sido tomadas algumas medidas para introduzir uma
melhor capacidade de resposta do sistema, nomeadamente através da
introdução de algumas leis. Mas, há que ter a percepção de duas coisas
fundamentais: uma é que a lei não consegue alterar a realidade; e a lei
para ser posta em prática tem de de dar meios à legislação. Depois,
acima de tudo, há que perspectivar que os tribunais, como unidades
orgânicas vocacionadas para um determinado fim, a realização da
justiça, têm de estar estruturados de uma forma diferente daquela que é
a realidade actual. Portanto, desde logo, é necessário alterar a
filosofia de organização, administração e gestão dos tribunais. Tudo
para se criar uma unidade suficientemente vasta para ter dimensão de
escala e ganhar efeitos de eficácia e produtividade. Mas não
suficientemente vasta para não ser ingerível ou afastar as pessoas dos
tribunais. Portanto, essa unidade orgânica tem de responder às
necessidades, nomeadamente através de pessoas, meios e condições
adequadas de funcionamento.
Neste contexto, existe a Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP). O que faz e a que se destina?
A ASJP tem nos seus estatutos, reconhecidos pelo Estado, diversas
atribuições. Por vezes, tenta-se denegrir e dar uma conotação negativa
e perjorativa ao facto de ser um sindicato. Mas, só perjorativamente ou
por ignorância é que se pode fazer esse tipo de ataque. A associação,
nos seus estatutos e na sua prática, tem uma vocação efectiva de
responder aos interesses sócio-profissionais dos juízes enquanto classe
profissional, mas, e prioritariamente até, tem uma vocação de se
preocupar com a realização da justiça e os valores que lhe são
inerentes. Ou seja, assegurar a independência, imparcialidade e
integridade dos juízes. Perspectiva de realizar a justiça tendo sempre
presentes os valores dos direitos humanos e de uma justiça equitativa
para todos. Tudo isto são aspectos que constam dos nossos estatutos.
Aliás, esta tem sido, nos últimos tempos, a função primacial da
associação. Se o sistema de justiça estiver a responder melhor aos
cidadãos e às empresas, se estiver mais credibilizado e reconhecido
pelos cidadãos a quem é dirigido, certamente que está mais prestigiado
e os próprios juízes também são mais prestigiados, enquanto componente
desse mesmo sistema.
E tem funcionado bem?
A ASJP já tem uma história contínua e regular de 32 anos e todas as
pessoas que fazem parte da direcção também trabalham nos tribunais. Não
temos a pretensão de ter uma capacidade de influência nas soluções.
Temos é o propósito de ser a voz dos juízes. E de ser a voz de quem, no
dia-a-dia, por força da experiência concreta de lidar com os problemas
e a realidade, transmite ao poder político e legislativo essa
experiência.
A ASJP está a organizar um congresso dos juízes que vai ter lugar em
Novembro. E uma das questões que vai debatida é a importância que o
poder judicial está a assumir nas sociedades contemporâneas,
sobrepondo-se mesmo aos outros poderes. Qual o seu comentário?
Essa pergunta deve ser enquadrada para não se passar a ideia de que é
isso que pretendemos. Queremos é discutir o que deve ser o papel da
justiça numa democracia do século XXI, também chamadas as democracias
descontentes. O século XIX ficou marcado pelo peso que os parlamentos
tinham nas sociedades, enquanto o século XX foi caracterizado pelo peso
dos governos. Actualmente, os cidadãos reclamam cada vez mais direitos
e querem-nos ver reconhecidos. Onde? Nos sítios próprios, os tribunais.
Cada vez mais, os juízes e o poder judicial são chamados a intervir em
áreas onde no passado eram ignorados, nomeadamente quanto ao ambiente,
ao urbanismo ou até mesmo ao facto do próprio Estado ser colocado em
tribunal pelos cidadãos.
Então o que pretendem os cidadãos e a sociedade do século XXI do poder judicial?
É precisamente isso que vamos debater no congresso. O papel do poder
judicial visto pelos cidadãos, com capacidade efectiva de ser um
terceiro poder e um fiscalizador dos outros poderes e de realizar a
justiça, já que esta é algo muito mais que a lei. São este conjunto de
questões que achamos importante debater hoje, já que constatamos a cada
vez maior insatisfação dos cidadãos com a capacidade de resposta da
sociedade politicamente organizada. Transferir isto tudo para o
judicial pode criar a expectativa de que é a solução, mas não é
necessariamente essa mesma solução. Isto porque o judicial pode não ter
resposta para questões que também não foram encontradas no poder
político organizado. Há que ter a percepção de quando recorremos ao
judicial não podemos estar à espera de soluções mágicas ou milagrosas.
O poder judicial dá as soluções possíveis face ao modo como está
organizado e compete aos cidadãos dizerem como querem esse mesmo poder
judicial organizado.
Mas o poder judicial não está ele próprio a exercer um controlo cada vez maior dos outros poderes?
Não digo que seja o poder judicial a controlar o que quer que seja.
Numa sociedade democrática madura e devidamente estruturada a relação
entre os poderes não é de dependência nem de controlo de um sobre o
outro. É uma relação de interdependência e controlos recíprocos. O que
é importante equacionar é que haverá melhor democracia e mais
democracia quanto mais facilmente os cidadãos poderem recorrer a
tribunais e verem aí apreciadas as suas pretensões por juízes
independentes e imparciais capazes de julgarem independentemente de
todos os outros poderes – político, económico e religioso.
E os juízes e os tribunais estão preparados para essa nova realidade?
Não sei se estão, mas esse é um desafio também importante. Os juízes,
nesta reunião magna, têm de ter consciência dos novos desafios que lhe
são feitos. E que há novos domínios em que os desafios são cada vez
maiores. Por exemplo, a área do direito administrativo e até do direito
fiscal levantam e vão levantar cada vez mais no futuro o desafio da
capacidade dos juízes para intervirem nessa área, exercendo plena e
totalmente as suas atribuições. Como exemplos, cito as ligações do
direito à questão do exercício político de funções ligadas com o fecho
das maternidades, a co-incineração ou a apreciação dos contratos que o
Estado celebra com empresas. Por outro lado, nos tribunais tributários
cada vez mais se colocam questões ligadas ao reconhecimento do
contribuinte como uma pessoa com direitos e sem estar em situação de
inferioridade.
A preparação dos juízes neste momento é adequada às novas realidades?
Há necessidade de melhorar, e muito, a formação permanente dos juízes.
O juiz é uma pessoa que todos os dias tem de estar aberto à necessidade
de aprender, percepcionar que há coisas novas a surgir e que o direito
vai evoluindo. O direito de hoje tem uma realidade, uma dimensão e uma
complexidade que não tinha há alguns anos...
Mesmo por causa da própria União Europeia e da quantidade crescente de directivas comunitárias, não será assim?
Também isso. Por causa da dimensão do espaço europeu em que nos
integramos e da complexidade das matérias, já que vivemos numa
sociedade hiper-regulada. Tudo isto obriga a uma maior especialização e
há fenómenos que caem na área do direito ao contrário do que acontecia
anteriormente. Por tudo isto, tem de haver disponibilidade dos juízes
para estarem em constante formação. É necessário que o Conselho
Superior de Magistratura e o Centro de Estudos Judiciários tenham
abertura, disponibilidade e preparação para organizarem a formação
permanente dos juízes. Estes devem frequentar anual e regularmente
acções de formação na perspectiva de se actualizarem e desenvolverem
novas capacidades e conhecimentos em face das novas realidades.
Mas isso acontece?
Acontece de uma forma que talvez não seja totalmente adequada. Está
previsto que o CEJ organize anualmente cursos de formação permanente
dirigidos aos magistrados. A ASJP pensa haver um caminho em que há a
necessidade de todos nós procurarmos soluções. Nesta matéria, a ASJP
procurou fazer esse caminho. Por isso mesmo, fizemos uma parceria com o
Observatório Permanente de Justiça, em Coimbra, para a organização de
cinco cursos denominados Justiça XXI. Procuramos prever do universo dos
possíveis destinatários as matérias que fossem mais aliciantes. Claro
que a formação nunca se tem na totalidade e nunca é definitiva porque
as sociedades estão sempre a evoluir e a formação é algo que passa por
um processo de disponibilidade mental das pessoas, de abertura para
isso e depois de capacidade de resposta das instituições.
Pensa que o CEJ precisava de ser reformado?
Às vezes tem-se uma atitude muito crítica em relação ao CEJ. Penso que
muita dessa perspectiva resulta de algum desconhecimento da realidade
do CEJ. Em termos de reformulação da lei orgânica do CEJ, isso foi
feito recentemente. Mais do que a reformulação do CEJ em si, o que
devia ser feito e demorou bastante a acontecer, devia ser alterada a
formação das pessoas que entram no CEJ em função dos destinos que
tinham. Tal como aconteceu durante anos só trouxe resultados negativos.
É preciso não esquecer que ser juiz não é ter um emprego, mas ter um
sentido de responsabilidade desde logo e de conseguir percepcionar que
a sua actividade é fundamental para a sociedade e para a comunidade. Do
bom desempenho de um juiz depende a vida das pessoas.
O Governo queria equiparar os magistrados judiciais aos funcionários
públicos e o Tribunal Constitucional chumbou essa norma. Chegou mesmo a
falar numa «vitória da justiça». Quer explicar porquê?
Quando digo que um juiz não pode encarar a sua função com um emprego,
da mesma forma o Estado não pode ter um juiz qualificado como um
funcionário público. A integração numa estrutura de funcionalismo
público seria tudo o que é contrário à independência de um juiz. Assim
como à sua possibilidade de poder decidir em função do que é a
aplicação da lei e da Constituição e do que a sua consciência lhe diz
em termos da realização da justiça na interpretação da lei e da
Constituição. Por isso, esse projecto legislativo seria um grave
atentado à independência dos tribunais e do poder judicial e, acima de
tudo, seria extremamente negativo para uma sociedade democrática e para
a possibilidade de os cidadãos verem os seus direitos acautelados
através de um juiz. Foi uma tentativa muito sibilina de procurar fazer
de uma forma aparentemente inócua a integração dos juízes num regime
geral de função pública, para depois, numa segunda fase, alterar todo o
estatuto dos magistrados judiciais conformando-o com os princípios
gerais da administração pública. Felizmente, desde logo, o Presidente
da República solicitou a apreciação preventiva do diploma e depois o
Tribunal Constitucional assumiu as suas responsabilidades e declarou
que essa matéria era inconstitucional.
Porque é que os Tribunais da Relação têm de funcionar como um colectivo?
É uma opção política e administrativa que foi feita e procura defender
a ideia de que a matéria em causa é apreciada por um conjunto igual ou
mais vasto que a 1ª instância. Conjuga-se aqui o aspecto de uma
pluralidade de pessoas a apreciarem as decisões de 1ª instância e, por
outro lado, uma garantia de qualidade que é fornecida pela experiência
de quem já trabalhou em tribunais de 1ª instância e da nota que lhe foi
atribuída pelo Conselho Superior de Magistratura.
Não pode ser negado que a lentidão da justiça é uma realidade e muitas
vezes passa-se a imagem que isso acontece por causa dos juízes. Isto é
verdade?
É uma realidade a pouca celeridade da justiça...
Tirando a justiça fiscal, não é verdade?
Essa ainda é mais lenta, quando o cidadão recorre aos tribunais para
ver reconhecidos os seus direitos. Quando é o Estado na máquina fiscal
antes de chegar aos tribunais é rápida. Quando o caso chega ao tribunal
porque o cidadão impugnou, a resposta do Estado está a ser péssima.
Aliás, neste momento está a decorrer um curso especial para recrutar
juízes para os tribunais tributários porque a justiça fiscal está a
responder mal e o Estado o ano passado deixou prescrever vários
processos com milhões de euros em causa.
Mas, voltando à lentidão da justiça...
Inquestionavelmente a justiça é lenta e temos de arranjar soluções para
que seja mais rápida. Até porque o tempo da própria vida é cada vez
mais acelerado. Não podemos ter a pretensão que a justiça seja tão
acelerada como o tempo da vida, até porque para realizar a justiça deve
haver ponderação. E esta implica tempo e análise das provas. Juízes
apressados nunca são bons juízes. A justiça não pode fazer juízes
apressados, mas também não pode fazer juízes demasiado lentos. Porque
neste último caso, quando um juiz chega a uma conclusão já não
interessa às pessoas devido ao tempo da vida ser cada vez mais
acelerado.
Será por culpa dos juízes que a justiça é muito lenta?
Aquilo que posso dizer, do que é minha convicção e ouço de outros
profissionais do foro, inclusivamente advogados, a culpa não é dos
juízes, na globalidade, por serem mandriões. É seguro que em todas as
classes profissionais há bons e maus profissionais. E é seguro que na
justiça também há juízes que não respondem com o devido empenho ao que
deles se espera. Mas, globalmente, não é por causa dos juízes, da sua
falta de empenho ou das muitas horas que dedicam à sua função.
Então porque é a justiça lenta?
Acho que por duas razões fundamentais. Primeiro porque não está
devidamente organizada e gerida e há necessidade de encontrar uma
melhor organização dos meios judiciais para responderem ao que deles é
esperado. Por exemplo, tribunais especializados nas matérias e com
juízes preparados e vocacionados para responderem nessas áreas. Depois,
há o problema das leis processuais. As actuais são demasiado
burocratizadas, formais e podem permitir que os processos sejam
emperrados, desde que as partes o queiram. As leis processuais têm
alçapões, labirintos e quedas de água que podem ser accionados conforme
as partes queiram de maneira sistemática e contínua. Portanto, devia
haver forma que os processos possam ser alvo de manobras dilatórias.
Juízes e advogados estão do mesmo lado da barricada?
Ambos têm no sistema de justiça, tal como os procuradores do Ministério
Público, um relevante papel. E cada um desempenhado o seu papel com
ética e deontologia estão seguramente do mesmo lado da realização da
justiça. Se assim não for, com maus desempenhos práticos de qualquer um
destes profissionais, não estão a contribuir positivamente para a
nobreza da sua missão.
Entende que o actual bastonário da Ordem dos Advogados tem tido a postura mais correcta?
O doutor Marinho e Pinto tomou posse em Janeiro e logo no seu discurso
teve uma atitude incorrecta para com os juízes. A ASJP, na altura,
achou por bem não responder. E até 23 de Maio procurámos ter toda a
contenção possível, apesar de tantos ataques infundados e desnecessário
aos juízes. E isto aconteceu porque, em primeiro lugar, os advogados
devem merecer e merecem dos juízes o maior respeito e consideração pelo
seu elevado papel na administração da justiça. Depois, tivemos a
preocupação de não andarmos num pingue-pongue que desse lugar nos
tribunais a um clima negativo entre juízes e advogados que certamente
iria prejudicar os cidadãos. Houve uma determinada altura em que
achámos que efectivamente era demais. Há um ditado persa que tem uma
sabedoria muito grande e diz que uma pessoa tanto mostra fraqueza
quando se cala devendo falar, assim como também mostra fraqueza quando
fala demais devendo estar calado. Os juízes entenderam que deviam dar
um grito mostrando a sua indignação, já que continuarem calados era
mostrarem uma fraqueza que efectivamente não têm.
E houve o choque entre os juízes e o bastonário dos advogados!
Chegámos a escrever uma carta ao doutor Marinho e Pinto – com
conhecimento de todos os presidentes dos conselhos distritais da Ordem
– na qual considerávamos que a sua atitude não estava a ser a mais
correcta e pedíamos-lhe ponderação nas palavras e nos actos quando
tivesse de lidar com os tribunais e com os juízes, já que estes últimos
não estavam mais disponíveis para ataques gratuitos e infundados desta
natureza. Também lhe dizíamos que se tivesse queixas de algum juiz em
concreto ou de alguma situação de pior desempenho, o que devia fazer
era, em vez de tentar enlamear toda a gente, dirigir-se ao órgão
próprio de gestão e disciplina da magistratura e identificar a pessoa e
a situação concretas para que esse órgão intervenha, averigue o que se
passou e sancione a pessoa em concreto se for caso disso. Até hoje
ainda não recebemos nenhuma resposta oficial do doutor Marinho e Pinto.
As únicas respostas foram as que apareceram na Comunicação Social e no
mesmo tom que existia anteriormente. Mas, desta vez, não direccionadas
apenas para os juízes, mas também a atacar a ASJP, enquanto estrutura
representativa da classe. Nesse sentido, a ASJP decidiu suspender as
suas relações com o doutor Marinho e Pinto.
Ainda voltando à questão da lentidão da justiça, acha que os campus de
justiça ou o programa Citius contribuem para inverter essa tendência?
A nova dimensão que se pretende de concentrar tribunais através de
campus de justiça nas grandes áreas metropolitanas é uma filosofia
correcta e importada de outros países europeus, onde funciona bem. Nas
áreas metropolitanas a concentração dos vários serviços da justiça num
único espaço restrito tem vantagens para os cidadãos e para os próprios
profissionais da justiça, nomeadamente os advogados. Agora, se isso vai
ajudar a resolver o problema da lentidão, acredito que não é aí que se
vão introduzir factores especiais de solução.
E quanto ao programa Citius?
A sua filosofia é correcta. Mas é preciso percepcionar que não é uma
bola mágica nem algo que vá funcionar por simples consagração de um
qualquer diploma legislativo. As novas tecnologias ajudam-nos
seguramente em termos de capacidade de resposta às necessidades do
dia-a-dia. Desde logo, implicam um forte investimento do Estado e é
preciso que haja equipamentos informáticos com capacidade de
processamento para acolher o programa e permitir trabalhar com ele.
Depois, as pessoas que vão operar com esse sistema também têm de ter a
necessária formação. O Estado tem vindo a fazer nessa matéria um
trabalho que é positivo, mas que precisa de ser mais intenso, ou seja,
todos os juízes que têm de trabalhar com este programa necessitam de
computador e formação para trabalhar com ele. Mas o programa também as
suas limitações decorrentes das especificidades próprias de um processo
judicial. Só quem não anda nos tribunais e não conhece os processos é
que pode pensar o contrário. É importante que da parte do poder
político e legislativo haja a percepção que a desmaterialização total
dos processos é um erro e um engano.
A frase é sua: «a justiça é hoje um condomínio fechado sem administrador e sem regras». Mantém essa opinião?
Mantenho essa afirmação no contexto actual. Efectivamente, os tribunais
são um condomínio onde não há um administrador ou um regulamento de
condomínio. Os tribunais funcionam da seguinte maneira: há juízes,
funcionários, advogados, magistrados do Ministério Público e vão lá os
cidadãos. Este espaço, que devia estar organizado como unidade orgânica
dirigida para realizar a justiça, não funciona assim. Portanto, devia
haver regras e o tribunal devia funcionar como um condomínio com alguém
que se responsabiliza por ele.
E quanto ao Mapa Judiciário?
A filosofia para a qual se direcciona a questão da gestão dos tribunais
é correcta. Esta diz que as novas comarcas e os novos espaços de
justiça têm um presidente e tem determinados poderes e em função deles
tem determinados deveres. É a única forma de podermos encontrar
soluções adequadas para melhorar esse aspecto da capacidade de resposta.
Portanto, concorda com a implementação do novo Mapa Judiciário?
A ASJP concorda com a filosofia quanto ao modelo de gestão. Já não
concordamos quanto ao modelo de matriz territorial. Fez-se a opção de
ter por base e por matriz territorial da justiça as NUT III e achamos
que não foi a mais correcta. Era preferível partir da realidade dos
actuais círculos judiciais e encontrar aí o tal ganho de escala para o
novo modelo de gestão. De qualquer forma, os juízes tudo farão para
ainda assim estarem disponíveis para dar uma resposta que contribua
para que a reforma dê resultados positivos.
O que espera a nossa democracia e os cidadãos da justiça em Portugal?
Os juízes estão aptos para dar resposta a essas expectativas?
O que os cidadãos esperam dos juízes é que eles se mantenham com
aquelas características que são próprias da classe. Desde logo,
independentes. Isentos e imparciais em relação aos casos que tenham de
decidir. Uma atitude de integridade e de honorabilidade. Que sejam
diligentes e se esforcem. Devem actuar por gosto e vocação e não por
obrigação. Que tenham em conta sempre os valores dos direitos humanos.
E que saibam cultivar e manter uma atitude de reserva prudente e saibam
assumir as suas obrigações cívicas na sociedade de que fazem parte.
Estou convencido que é isto que os cidadãos esperam dos juízes. E estou
convencido de que os juízes são capazes de responder aos novos desafios.
JUSTIÇA E CIDADANIA | 01.07.2008
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