|
Ao contrário das comarcas de primeira instância, onde o juiz dispõe do seu espaço de trabalho e de apoio de secretariado, na segunda instância a regra é o teletrabalho. «A falta de condições é tal, que é preciso pôr a imaginação a trabalhar.» «Há sempre uma tensão e ter um grande cuidado», quando se leva processos para casa. O pior mesmo, é que «se progride na carreira, perdendo condições de trabalho». E dinheiro: são vários os desembargadores que, sem espaço em casa, tiveram de arrendar escritórios para trabalhar.
Na Relação, não há gabinetes para todos.
Os casos são apreciados no comboio, no autocarro ou na sala lá de casa
Fomos nós que tornámos o trólei uma instituição nacional! E o que vale é que a Câmara tem o pavimento arranjado, senão isto, com buracos, seria complicado...» O sarcasmo de Mário Varges Gomes, juiz do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL), ajuda a compreender o insólito da situação: a Praça do Município transformada num terminal de aeroporto ao ar livre, tal o número de desembargadores que saem do tribunal carregados com malas e malas de processos. Uma juíza, de aspecto franzino, não esconde o esforço, ao arrastar uma daquelas malas com rodas, que lhe dá pela cintura. Estará, tal como muitos dos colegas que vivem longe de Lisboa, a dirigir-se para o carro ou para a estação de comboio. Rumo a casa, onde trabalhará, durante a semana que se segue. A razão é simples: no TRL existem apenas 28 gabinetes para 120 desembargadores, uma realidade semelhante à das outras quatro Relações do País (Porto, Guimarães, Coimbra e Évora).
Ao contrário das comarcas de primeira instância, onde o juiz dispõe do seu espaço de trabalho e de apoio de secretariado, na segunda instância a regra é o teletrabalho. «A falta de condições é tal», diz Vaz das Neves, presidente do TRL, «que é preciso pôr a imaginação a trabalhar.» Quatro vezes por semana, três viaturas vão entregar processos a casa de 36 desembargadores, residentes num raio de 100 km da capital. Naquele dia, previa-se que a distribuição envolvesse 13 localidades, desde o Montijo às Caldas da Rainha.
A azáfama é grande e a cordilheira de volumes também. Há ali de tudo para os juízes apreciarem, desde recursos de condenações de homicidas, traficantes e burlões a divórcios e falências. Na véspera, por exemplo, o motorista Rui Serrano enchera a bagageira e todos os bancos do BMW que conduz, para ir levar a um juiz os 400 volumes do processo de corrupção da Brigada de Trânsito da GNR. O aspecto descaracterizado dos carros e o facto de a mercadoria ser facilmente confundida com resmas de papelada velha vão servindo de efeito dissuasor de situações de perigo, como roubos. Mas quando se trata de processos melindrosos, como o da Casa Pia, o caso muda de figura. «Telefonavam-me, a toda a hora, para saber se eu estava bem», conta Rui Serrano, a propósito daquela vez em que foi, excepcionalmente, ao Algarve, levar ao juiz o recurso da não pronúncia do socialista Paulo Pedroso. O que o motorista não sabia, assegura Vaz das Neves, é que estava montado um dispositivo policial para assegurar uma viagem sem sobressaltos. «Quanto mais discreta for esta operação, mais segura se torna», atesta o presidente do TRL; ciente, porém, «dos riscos que se correm sempre que se levam processos para fora do tribunal». Que o diga um desembargador que, à chegada à Relação, viu o seu computador portátil ser roubado, enquanto tirava a mala de processos do táxi.
Varges Gomes nunca foi assaltado, mas afirma «haver sempre uma tensão e ter um grande cuidado», quando leva processos para casa, no Algarve. O pior mesmo, acrescenta, é que «se progride na carreira, perdendo condições de trabalho». E dinheiro: são vários os desembargadores que, sem espaço em casa, tiveram de arrendar escritórios para trabalhar - o actual Procurador-geral da República, Pinto Monteiro, foi um deles, quando estava na Relação.
Varges Gomes perdeu o seu gabinete, no tribunal de Portimão, e passou a ter de levantar-se às cinco da manhã para estar em Lisboa às nove e meia. Normalmente, com «15 a ao quilos» de bagagem. Todas as quartas-feiras volta para casa, com os novos processos que lhe são distribuídos. E uma semana depois, apresenta os projectos de acórdão aos dois adjuntos, reunindo-se, de novo, com eles, sete dias mais tarde, para elaborarem o acórdão final. Duas semanas em que o trio de juízes só se vê duas vezes. «Por mais telefonemas e e-mails que troquemos uns com os outros, seria muito melhor podermos trabalhar todos juntos, no tribunal. Assim, a nossa missão acaba por tornar-se muito solitária.» Vaz das Neves concorda: «A cultura de tribunal e a proximidade dos juízes é fundamental, ainda por cima quando todas as decisões são colectivas, ao passo que, na primeira instância, 80% dos julgamentos são singulares.»
‘Processo Esmeralda' em viagem
«Não tenho dúvidas de que as decisões seriam mais amadurecidas, se não vivessem um no Porto, outro em Castelo Branco e outro em Lisboa», anui Joaquim Piçarra, presidente da Relação de Coimbra, cidade onde residem apenas menos de um quinto dos 6o desembargadores colocados naquele tribunal, onde só existem 17 gabinetes. Ao contrário do que acontece no TRL, não há uma escala de distribuição de processos ao domicílio, mas Joaquim Piçarra disponibiliza, frequentemente, o seu carro - «bem como um velhinho Renault 19» - para ir levar os autos mais volumosos a casa dos juízes, nomeadamente a Foz Côa e a Lisboa. Para a maioria, o único remédio é, porém, fazer como o juiz-relator do recurso que manteve a prisão preventiva do pai adoptivo da pequena Esmeralda: transportou sozinho o processo, desde a Guarda até Coimbra. Há quem se desloque de camioneta, de Vila Real ou de Chaves, e há até uma desembargadora que, mesmo com artrite reumatóide, não escapa à provação do arrastamento do trólei.
Em Évora, a situação é ainda mais dantesca: só o presidente tem gabinete, o que inclui muitos dos 42 desembargadores entre os melhores clientes da Brisa, na A6. Armários só há dois, um deles no vão de uma escada. Ao passo que até «os soldados dispõem de um armário para o seu equipamento», os juízes «nem isso têm para guardarem a beca», queixa-se Manuel Nabais, presidente daquela Relação. Em 1973, quando o tribunal foi criado, trabalhavam, ali, 16 pessoas. Hoje, são 94. «A gente acotovela-se e o trabalho vai sendo feito com boa vontade, mas isto não é digno de um tribunal superior.» A situação é atenuada com a vinda de duas carrinhas, por semana, a Lisboa, para entregar e carregar processos. Felizmente, para Manuel Nabais, «o pesadelo está a terminar». Em Abril, dar-se-á a mudança para um novo edifício, com todas as condições. Já em Coimbra, a promessa de um novo Palácio de Justiça «dura há 20 anos», lembra Joaquim Piçarra.
À VISÃO, o secretário de Estado-adjunto da Justiça afiançou que «essa obra arrancará ainda nesta legislatura», o mesmo devendo acontecer com os novos campus judiciais de Lisboa e do Porto. Conde Rodrigues reconhece que «é grave a ausência de gabinetes para todos os juízes», mas adianta ser intenção do Governo apostar na «desmaterialização dos processos, de modo a que estes sejam enviados aos desembargadores, pelo tribunal, em formato electrónico».
Alziro Cardoso, juiz na Relação do Porto (TRP), esboça uma sugestão mais simples: «Seria bom que tivéssemos um gabinete no tribunal da nossa residência, para trabalhar.» Não que a sua moradia, na zona de Sintra, e o seu bem apetrechado escritório não sejam aprazíveis locais de trabalho. «Parece que não, mas é necessária uma disciplina brutal para trabalhar em casa. Temos de nos obrigar a um horário laboral, coisa que, num tribunal, para nós, é mais fácil de gerir.» Talvez por isso aproveite algumas das viagens de comboio para ir adiantando serviço. Quatro anos de deslocações (carregadas) entre Sintra e o TRP - onde só há 17 gabinetes para 84 juízes - «começam a causar um grande desgaste» e Alziro Cardoso já pondera pedir a mudança para o TRL. De somenos também não serão as despesas que suporta por trabalhar em casa, desde a electricidade ao computador e à impressora que teve de adquirir. O Estado fornece um portátil e paga 30 euros mensais de Internet, mas cortou a assinatura do Diário da República.
Um terço do ordenado
Trocos, dir-se-ia, face aos 825 euros mensais que o juiz Sílvio Sousa gasta, do seu bolso, sempre que voa da Madeira, onde vive, para a Relação de Évora, onde está colocado desde Setembro. Mas o desembargador considera «claramente inconstitucional» o preceito legal ao abrigo do qual os magistrados só têm direito a deslocações pagas, desde que em transporte público terrestre ou fluvial. «Gasto quase um terço do ordenado em viagens. E, ainda por cima, perdi o subsídio de fixação de Soo euros/mês que tinha na primeira instância, por trabalhar na Madeira.» Afirma-se «desamparado» pelo Conselho Superior de Magistratura, pelo sindicato do sector e pelo ministro da Justiça, a quem enviou uma carta, em Outubro, denunciando a situação, e para a qual ainda não obteve resposta. Sílvio Sousa diz não compreender «porque é que os deputados eleitos pela Madeira podem viajar em executiva» e ele, também representante de um órgão de soberania, tem de pagar as viagens do seu bolso - e em classe turística. Uma questão de separação de poderes ?
REVISTA VISÃO | 01.03.2007
Comentarios () |
|
|
|
|
|