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António Cluny, Magalhães e Silva e Fisher Sá Nogueira comentam. Há, em Portugal, um aproveitamento do poder político de alguns
processos judiciais? São muitos os que acham que sim. Recentemente
também o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento, pôs novamente o dedo na ferida sobre este assunto.
Considerou, por exemplo, que os juízes devem ter «muito cuidado na
interpretação» da nova lei do divórcio. A redacção da lei, referiu,
apresenta várias «cláusulas abertas, que permitem uma interpretação
actualista do direito em função da própria evolução social».
Desse modo, um mesmo artigo poderá ter várias interpretações. Sobre os
processos mediáticos, o juiz disse que há investigações criminais que
«são aproveitadas politicamente», admitindo que em Portugal tal possa
acontecer, mas escusando-se a dar exemplos.
António Cluny, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério
Público (SMMP), Magalhães e Silva, advogado e Fisher Sá Nogueira, juiz
conselheiro jubilado, falam a «O DIABO» sobre o assunto.
António Cluny, presidente do SMMP, considera que «a sociedade não é
feita de compartimentos estanques» e que «muitos dos assuntos que
dizem, por fim, respeito à Justiça são, antes dejudicializados,
assuntos de que procedem da responsabilidade política». «É por isso
inevitável que, em certas circunstâncias, ambos os planos se
sobreponham e que haja quem os queira confundir», afirma, sublinhando
que «o problema principal reside, contudo, no facto de, hoje em dia, ao
contrário do que se quer fazer crer, se tentar apagar a
responsabilidade política de alguns casos, reconduzindo os apenas à sua
dimensão judicial e procurando, assim, esbater aquela outra
responsabilidade - a política - que lhes esteve na origem».
«Mecanismos democráticos acabam por não funcionar plenamente»
Questionado sobre o perigo de política e Justiça andarem, muitas
vezes, de mãos dadas, Cluny refere que «o perigo reside no esbatimento
da fronteira entre as responsabilidades políticas e judiciais». «Nem
todas as malfeitorias políticas são necessariamente crime, mas como os
mecanismos democráticos de controlo e sanção estão condicionados pela
gestão das consciências cívicas que é feita pelo estado-maior
político-mediático do “bloco central de interesses ” que nos tem
governado, esses mecanismos democráticos acabam por não funcionar
plenamente», sustenta.
A tendência, realça, «é, depois, o recurso à jurisdição, que, todavia,
não foi pensada nem está apetrechada para esse fim e que, por isso,
assim, se revela ineficaz e finalmente se deslegitima». «Ora essa
deslegitimação é ela própria um objectivo político estratégico que tem
sido seguido sem hesitações e com rara frieza e eficácia. Só assim os
“interesses” podem escamotear o mal que têm produzido ao nosso país e
aos cidadãos portugueses», garante.
A Justiça tem conseguido impedir que política e Justiça se misturem? À
pergunta, o presidente do SMMP responde: «como disse, isso não é
totalmente possível no nosso sistema. Recordemos que o órgão superior
do Ministério Público (o Procurador-Geral da República), que é a
magistratura que detém a possibilidade de accionar os tribunais
criminais, é nomeado pelo poder político e só perante ele responde. A
configuração dessa escolha, embora pudesse ser melhorada com o recurso
à confiança maioritária do Parlamento, não merece, todavia, crítica.
Deve acontecer assim em regimes democráticos».
Porém, diz que «se, além disso, criarmos condições para se poder dizer
que foi politizada a escolha de todos os lugares de responsabilidade e
de hierarquia do MP, como hoje acontece depois da revisão do seu
Estatuto revisão inspirada, de resto, pela sua cúpula actual -
tornar-se-á definitivamente impossível impedir a confusão entre Justiça
e opções políticas e partidárias». «Falece, por isso, a possibilidade
de credibilizar a ideia de que a Justiça e designadamente a Justiça
Penal é isenta e imparcial. No fundo, vivemos já e com graves prejuízos
institucionais, o reflexo, embora ainda ténue, dessa opção», frisa.
Para António Cluny, «a total deslegitimação do sistema judicial e com
ela e com a grave crise económica e política que o País atravessa, a
possibilidade crescente de se poder vir a assistir ao recurso a meios
não democráticos de resolução dos conflitos sociais, económicos e
institucionais» são as consequências dos aproveitamentos políticos dos
casos judiciais.
Perigos
O juiz conselheiro jubilado, Fisher Sá Nogueira, ressalva que
estatutariamente não pode comentar afirmações do Presidente do Supremo
Tribunal de Justiça.
No entanto, afirma que sabe que, «quando surgem casos criminais que
podem envolver figuras partidárias, os meus amigos do PS se queixam de
perseguição política da parte de outros partidos, e que o mesmo fazem
os meus amigos do PSD quando o visado é um dos seus partidários, pelo
que julgo que todos esses meus amigos sofrem de “delírios persecutórios
“, ou estão infectados por uma doença tipicamente americana, designada
“teoria da conspiração “».
«Nunca dei por que, em casos mediáticos ou não, se tenha verificado que
a Justiça e a Política tenham andado de mãos dadas, não obstante os
esforços de certas imprensas sensacionalistas para que assim pareça.
Note-se que, como relator, ou como adjunto, tive intervenção em, pelo
menos, os seguintes casos considerados mediáticos: “FP25 “, FP-27 “,
caso `DOPA’; caso do “Deputado BATMAN”, caso do “Eng. Melancia”, caso
do “Padre Frederico”, extradição de Labade, caso de “Azinhais Nabeiro”,
caso do “Hospital de S. Francisco Xavier”, o crime do “Cais do
Seixalinho”, e em nenhum deles se verificou qualquer aproximação ou
tentativa naquele sentido», exemplifica.
Todavia, sustenta que «os perigos de uma situação dessa natureza
seriam, pelo menos, dois: a abertura de uma guerra institucional muito
séria entre dois elementos essenciais do Estado - o poder judicial e o
poder político, e a qualificação internacional de Portugal como Estado
não democrático, com todas as consequências que se possam imaginar e
com aquelas com que nem sequer se sonha».
Fisher Sá Nogueira realça que «a nossa Justiça tem conseguido evitar
que a Política se imiscua directamente com ela, mas não tem condições
para evitar a tentativa, aparente ou real, de imiscuição na Justiça
através da feitura de leis demagógicas, de leis ininteligíveis, de leis
sem espírito de unidade de sistema, de leis contraditórias, de leis
injustas que diminuam os direitos e garantias dos cidadãos, ou que
violem o sentimento profundo destes últimos sobre o que é ou deve ser a
Justiça»:
Salienta que «os aproveitamentos políticos dos actos judiciais podem
ter duas espécies de consequências: a guerra entre diversos meios de
comunicação social à procura da obtenção de maiores universos de
leitores, ouvintes ou espectadores, ou a preparação do terreno para a
criação do confronto institucional acima referido, o qual,
historicamente, tem sido a causa remota de muitas guerras civis.
Magalhães e Silva, advogado
«A judicialização da política desloca-a do seu lugar próprio»
Magalhães e Silva, advogado, considera que «a democracia é o lugar
próprio do respeito pela diferença, que, no plano estritamente
político, se dinamiza em associações, portadoras de projectos políticos
distintos - os partidos».
«Daqui nasce o conflito político, que é saudável, e é insubstituível,
constituindo o momento mais dinâmico da democracia. A pobreza dos
projectos político-partidários e a qualidade medíocre de grande parte
dos actores políticos tem levado à substituição continuada do conflito
político em campo programático, pelo aproveitamento mediático de fugas
de informação com origem em investigações criminais. É um indicador da
péssima qualidade da nossa democracia», justifica.
Refere que «o que está em causa é a substituição do político pelo
judiciário». «Ora a judicialização da política, que é disso que se
trata, desloca a política do seu lugar próprio - o Parlamento, o
diálogo e/ou a confrontação partidária, os espaços onde se exprime a
opinião pública - para as salas de audiência ou para os gabinetes de
investigação criminal, passando o combate político a realizar-se por
interpostos actores judiciais ou policiais. Lamentável!».
Ressalva que «a generalização não faz qualquer sentido». «Certo é
apenas que, antes de os processos judiciais se tornarem público, são os
agentes da justiça-juízes, magistrados do MP, advogados, funcionários
judiciais, polícias - quem municia os actores políticos e os meios de
comunicação social com a informação que permite levar o combate
político para o campo da Justiça», salienta.
Quais as consequências dos aproveitamentos políticos dos casos
judiciais? «Uma enorme desfocagem, porque passa a discutir-se o mais
insignificante “tric-tric” que alimente o circo mediático que sempre se
instala nesta ocasiões, em vez de se cuidar dos temas que nos
interessam - a justiça, a saúde, a habitação, a fiscalidade, o
desenvolvimento - temas que, nestes `hapenings” de casos judiciais, se
transformam nos enteados da família», responde.
Por fim, no caso Freeport, Magalhães e Silva diz que o «aproveitamento
político é manifesto». «Não por haver uma investigação criminal que,
directa ou indirectamente, envolve o primeiro-ministro, aí onde não
pode haver privilégios, ouse existirem devem ser ao contrário - maiores
responsabilidades, maior exigência. O que tem acontecido é que o
alarido que a comunicação social instalou à volta do caso dá lugar a
que todos os ‘opinion makers , grande parte dos quais politicamente
alinhados, comentam o caso até à exaustão, com o óbvio impacto político
que daí advém», finaliza.
O DIABO | 26.02.2009
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