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POR RICARDO G. BARROSO | PSICÓLOGO E DOCENTE UNIVERSITÁRIO
«No passado dia 1 de Outubro assisti com
revolta e espanto ao programa Prós e Contras da RTPI. onde foi debatido
o denominado "caso Esmeralda". Presenciei aquilo que considero ter sido
o cúmulo da completa descredibilização da prática psicológica em
Portugal.
Apesar de existirem outros episódios anteriores menos felizes
(como em muitas áreas profissionais), os princípios de apoio e ajuda
profissional posterior aos acontecimentos vão, felizmente, imperando.
Mas julgo que, dado o carácter da situação, nesse programa e nesse
momento se foi demasiado longe.
Independentemente dos pontos de vista
que os cidadãos possam ter sobre o assunto em questão, é inadmissível
que profissionais de psicologia tenham o desplante de assumir a postura
de comentadores públicos sem aparentemente terem lido sequer o Acórdão
do Tribunal da Relação (bttp://www.trc.pt/esmeralda.pdf).
Mais: um dos
psicólogos ali presentes, a coberto de uma suposta autoridade moral e
técnica, não teve o comportamento ético exigível de explicitar aos
telespectadores a existência de eventuais conflitos de interesse, na
medida em quetinha emitido um parecer e que até foi ouvido como
testemunha, arrolado pelo casal que tem tido a guarda de facto da
criança.
O resultado foi o que se viu: uma lição do juiz ali presente
sobre o que é a ética e deontologia da prática profissional, realçando
o chorrilho de enganos e de confusões que os psicólogos ali iam
desbobinando. Comportamento bastante diferente tiveram outras classes
profissionais presentes no referido programa de televisão, na fonna e
no género de apresentação das suas diferentes opiniões técnicas.
Aliás,
foram muito interessantes os dados técnicos e teóricos formulados pela
pedopsiquiatria e, igualmente, a chamada de atenção da médica pediatra
do Hospital Garcia de Orta em relação ao reduzido período de transição
estabelecido pelo tribunal. Porque é mais do que óbvio para todos,
profissionais de saúde mental ou não, que o mais importante é o
equilíbrio emocional desta criança.
Mas quem lida ou lidou de perto
com casos semelhantes a este (porque este não é o único) sabe
perfeitamente do ambiente de manipulação que pode envolver uma criança
nestas condições. Principalmente sabe que, nestas situações,
não existem "lobos maus" nem "lobos bons". E sabe, infelizmente, que
qualquer decisão numa situação desta natureza tenderá a não ser branca
nem preta e terá, com grande probabilidade, de ser cinzenta.
Na
minha modesta opinião, entre outras ponderações, o caso em discussão
(como o também designado caso McCann) merece uma reflexão muito séria
em relação à prática psicológica em Portugal e em relação à
responsabilidade social que os profissionais de psicologia assumem
publicamente. Isso também é Humanismo.
Embora pense que depois da
leitura integral do acórdão judicial talvez algumas opiniões se alterem
ou atenuem, gostaria de voltar a frisar que as críticas presentes neste
texto não se prendem com os diferentes pontos de vista que as pessoas
possam ter sobre o assunto em questão como profissionais de psicologia
ou como comuns cidadãos. Muito menos com a legitimidade de alguns
pareceres técnicos. Eventualmente todos farão sentido.
A questão
final parece ser a do costume: para quando uma associação profissional
da área da psicologia que adicione rigor a todo este processo?»
IN PÚBLICO | 18.10.2007 | PÁGINA 49
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