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O dia-a-dia de Esmeralda, que vive em fuga à Justiça e tem o pai afectivo preso há dois meses, pode ser uma ameaça ao seu normal desenvolvimento. A opinião é do psiquiatra Daniel Sampaio, que aconselha a mãe afectiva, Adelina Lagarto, a levar a menina, de cinco anos, à presença de juízes e de técnicos sociais e de saúde.
Há uma situação de instabilidade que não é benéfica", disse ontem ao CM o psiquiatra, que se tem dedicado ao estudo dos problemas da infância, da adolescência e da família.
"Seguramente, a menina tem dados sobre esta situação, ouve falar", frisa Daniel Sampaio, demonstrando preocupação quanto à vivência de Esmeralda e aos efeitos que isso pode ter na sua evolução emocional e intelectual: "A maioria das crianças com cinco anos está em contacto com outras crianças, frequenta um jardim-de-infância. Isto faz parte do processo de socialização", recorda. Como se sabe, não é o caso da menina que o sargento Luís Gomes trata por Ana Filipa desde que a acolheu, à margem de qualquer processo de adopção, aos três meses de idade.
Para Daniel Sampaio, os tribunais "não podem decidir bem" sobre o futuro da menor sem conhecer "a situação objectiva em que ela está" com a mãe afectiva Adelina Lagarto. "Não há nenhuma informação sobre isso", sublinha.
O especialista considera que a detenção de Luís Gomes e a fuga de Adelina Lagarto são dados novos e relevantes. Por isso, terão perdido pertinência as avaliações da menina e do casal feitas até final do ano passado por técnicos da Segurança Social e do Instituto de Reinserção Social e por um psicólogo e um pediatra do sector privado. "É preciso uma avaliação actual, de Fevereiro de 2007", conclui Daniel Sampaio.
ADELINA RECUSA APRESENTAR-SE
Maria Adelina Lagarto não vai apresentar-se à Justiça enquanto existir o risco de ser detida, como sucede agora. Fonte próxima da mãe afectiva de Esmeralda, citada pela Agência Lusa, garante que, até haver decisões sobre os recursos pendentes, Adelina continuará em parte incerta: "Não faz sentido apresentar-se para ser logo detida." A vendedora de têxteis, de 41 anos, foi acusada pelo Ministério Público de sequestro e subtracção de menor, tal como o 1.º sargento Luís Gomes. Será julgada em processo separado. Pelo menos desde a prisão do marido, a 12 de Dezembro, é Adelina Lagarto que está a impedir o cumprimento da sentença que atribuiu o poder paternal de Esmeralda ao pai biológico, Baltazar Nunes. Em Junho do ano passado, dois meses depois de escrever ao Conselho Superior de Magistratura, Adelina dirigiu um requerimento ao Tribunal de Torres Novas alegando saber que era citada num processo e nunca tinha sido ouvida. Deu uma morada no Entroncamento. Mas, até hoje, PSP, GNR e Polícia Judiciária não lograram descobrir o paradeiro da mulher.
PROCURADA NOUTROS PAÍSES
O aviso de contumácia na casa do Entroncamento onde Adelina Lagarto residiu com Luís Gomes entra hoje em vigor. O bilhete de identidade e passaporte perdem validade e o nome da mãe afectiva entra na lista internacional de foragidos. Fica impedida de realizar actos notariais e de possuir conta bancária. É declarada contumaz porque não se apresentou à Justiça para responder por sequestro e sobre o paradeiro de Esmeralda. A notificação ocorre três dias úteis após o envio da carta pelo Tribunal.
BALTAZAR QUEIXA-SE AO PROCURADOR
José Luís Martins, advogado do pai biológico de Esmeralda, vai, nos próximos dias, formalizar uma queixa contra incertos na Procuradoria-Geral da República, pelo crime de co-autoria no sequestro de Esmeralda Porto. "Basta pensar um bocadinho para perceber que há gente a cometer crimes, por co-autoria ou cumplicidade, para ajudar a ocultar a criança", referiu ontem o defensor de Baltazar Nunes, que promete "utilizar todos os mecanismos legais para acabar" com o que considera ser "uma indecência". José Luís Martins diz não saber quem são as pessoas que, alegadamente, auxiliam Adelina Lagarto a manter-se escondida da Justiça. Mas considera que a Procuradoria-Geral da República está em condições de ordenar que os suspeitos, em qualquer parte, sejam responsabilizados por tais actos. O advogado vai mais longe, revelando-se preocupado com os efeitos que Esmeralda pode estar a sofrer por ter sido levada para parte incerta pela mãe afectiva, Maria Adelina Lagarto, sem possibilidade de ser contactada pelas autoridades nem pelo pai biológico, a quem o Tribunal de Torres Novas atribuiu o poder paternal. "No meu entendimento, uma criança que é retida desta forma vive em circunstâncias que configuram uma situação de maus tratos e quem está a reter a menina colabora nessa situação."
APONTAMENTOS
CRÓNICA PREOCUPADA. Daniel Sampaio referiu-se ao caso de Esmeralda há uma semana na sua crónica na revista ‘Xis': "Será que está mesmo bem cuidada? Gostaria de a ver nem que fosse por fotografia", escreveu.
AVALIA AMBIENTE. Relativamente ao dia-a-dia de Esmeralda divulgado na imprensa, por exemplo sobre a festa de aniversário com ‘família' e amigos, o psiquiatra considera que são dados que carecem de confirmação numa avaliação ao vivo por especialistas.
CORREIO DA MANHÃ | 20.02.2007
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