|
Já em 5 de Fevereiro de 2005, o Correio da Manhã (link) fazia alusão a este caso - ainda que apenas na vertente da regulação do poder paternal. Na altura a criança tinha 3 anos de idade, escrevia-se em "adopção ilegal", enunciava-se que os pais biológicos (mãe incluída) procuravam ter consigo a criança, mas que o casal que a tinha em seu poder recusava a sua entrega. E era outra a versão da mãe biológica.
Transcrição do artigo publicado in Correio da Manhã, 05.Fevereiro.2005
(Por indicação da comentadora Luísa Novo, a este item)
«O destino da menor Esmeralda Porto, de três anos, vai continuar refém de uma longa batalha entre adultos nas instâncias judiciais, pois o Tribunal Constitucional acaba de decidir que o casal que acolheu a menina, ilegalmente, aos três meses, pode apelar para o Tribunal de Relação de Coimbra.
A decisão do Tribunal Constitucional surge mais de dois anos após o início do processo e permite ao casal recorrer da sentença de primeira instância, prolongando assim a incerteza quanto ao futuro da criança.
Recorde-se que, em Junho passado, o Tribunal de Torres Novas tinha atribuído a guarda e o exercício do poder paternal ao pai biológico, que a menina ainda não conhece.
A sentença, no entanto, continua por cumprir. O Instituto de Reinserção Social (IRS), encarregue em Dezembro de mediar a mudança, alega "muitas dificuldades" para localizar a menor devido à resistência do casal, que a mantém consigo.
Esmeralda Porto nasceu da relação ocasional entre uma cidadã brasileira, de 39 anos, e um carpinteiro de 25 anos, residente em Cernache do Bonjardim, Sertã.
Aos três meses, e à margem de qualquer mecanismo legal, a mãe deu-a, assinando uma declaração, a Luís Gomes (sargento do Exército) e Maria Adelina, actualmente residentes no Entroncamento.
Na sequência de uma acção do Ministério Público, o pai biológico sujeitou-se a testes que confirmaram a paternidade e perfilhou a criança, manifestando vontade de tê-la à sua guarda.
O Tribunal de Torres Novas veio a decidir nesse sentido, por entender que Esmeralda tem direito a ser criada pelo pai, que não a abandonou.
José Fernandes, director regional do IRS no Centro, manifestou-se ontem preocupado com a demora na definição do futuro de Esmeralda Porto.
"Está muito vulnerável, no processo de formação de personalidade e isto pode deixar marcas irreversíveis", afirmou ao Correio da Manhã.
Neste cenário, a recente decisão do Tribunal Constitucional abre caminho a uma maratona de recursos e incidentes processuais.
Luís Gomes afirma que a sua intenção e de Maria Adelina é "defender os interesses da criança até ao último fôlego", pois consideram que para a menina seria "muito complicado e doloroso" mudar de família.
Sentimento diferente vive Baltazar Nunes, o pai biológico. "Não sei se aguento mais, a paciência tem limites", declarou ao CM. "Uma pessoa começa a perder a esperança e a ficar desiludida."
Na opinião do jovem de Cernache de Bonjardim, que nunca pôde conviver com a filha, Luís Gomes e a mulher "não têm direito a ser ouvidos" no processo porque "o que fizeram é ilegal".
Para o Tribunal Constitucional, contudo, está em causa a defesa do princípio da igualdade, do direito de acesso à Justiça e do dever de protecção das crianças.
PROCESSO
VALOR JURÍDICO
O presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção, Luís Villas-Boas, considera que o acolhimento de Esmeralda pelo casal Luís Gomes e Maria Adelina não tem valor jurídico. "A adopção é um vínculo jurídico produzido apenas em Tribunal e por uma sentença de um juiz. Não havendo isso, não há nenhuma adopção. O acolhimento particular de uma criança não confere direitos sobre ela".
EVITAR TRAUMAS
A maior preocupação neste caso deve ser proteger o superior interesse da criança e evitar situações traumáticas, considera Luís Villas-Boas. O responsável pelo Refúgio Aboim Ascensão adianta que o facto de Esmeralda não conhecer o pai poderá ser minorado com vinculação progressiva. "Uma hipótese viável é o acolhimento temporário num centro com outras crianças e aí promover a aproximação ao pai biológico", sugere.
CELERIDADE
Segundo Luís Villas-Boas, "a Lei portuguesa tem de ajudar" Baltazar Nunes a assumir a paternidade. "O não cumprimento da ordem do Tribunal é uma desobediência qualificada." O psicólogo clínico apela a maior celeridade nos processos, seguindo o exemplo da nova Lei que encurta os prazos de adopção. "Os tribunais têm de ser mais ágeis quando os problemas envolvem crianças".
"QUIS REAVER A MINHA FILHA"
Aidida Porto, mãe biológica de Esmeralda, diz que não tinha condi-ções para criar a filha e por isso fez o que julgava ser o melhor para a menina. A imigrante brasileira, de 39 anos, afirma-se arrependida e revela que as recordações não a deixam dormir bem.
Correio da Manhã - Que motivos a levaram a entregar a Esmeralda, abdicando de ser mãe e colocando-a ao cuidado de desconhecidos?
Aidida Porto - Não estava trabalhando, não tinha dinheiro nem para comprar leite. Fiquei sozinha, clandestina e desempregada. Sei que fiz uma coisa ilegal, mas pensando que um dia pegava ela de volta.
- Recebeu dinheiro?
- Nunca me pagaram nada e não exigi nada. A minha filha não estava em venda, não é mercadoria. Não queria dinheiro, apenas que alguém me ajudasse a cuidar dela.
- Como é que lida com essa recordação? Está arrependida?
- Custou muito e custa até hoje. Não durmo direito à noite. A minha vontade é pegar a minha filha e sumir.
- Tem outros filhos?
- Não.
- Nunca procurou a menina, não tentou tê-la consigo depois de se legalizar e arranjar trabalho?
- Quis reaver a minha filha. Mas eles [o casal que acolheu Esmeralda] não me deixaram vê-la.
- Quantas vezes a viu desde a entrega, aos três meses?
- Uma vez, em Coimbra, quando fizeram o teste de paternidade.
- Inicialmente, a Aidida não disse ao Baltazar que estava grávida?
- Tinha a certeza que ele era o pai, mas não o procurei. Fiz isso tudo sozinha, sem ajuda de ninguém.
- Porquê?
- Não achei que ele seria bom pai.
- O juiz considerou que não esgotou todas as soluções antes de abdicar da Esmeralda.
- Agora tudo o mundo fala que tinha me ajudado, mas na realidade não era assim. Eu não tinha condições, achei que era o melhor para ela.
- Merece outra oportunidade? Quer a sua filha?
- Mereço outra oportunidade e quero recorrer.
- Preocupa-a que o processo judicial esteja por resolver?
- Quanto mais demora, mais ela sofre».
Comentarios () |
|
|
|
|
|