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O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, defendeu ontem no
Parlamento que a violência doméstica não deveria ser crime público.
Este modelo inviabiliza a desistência do processo ainda que a vítima
assim o pretenda, argumentou o bastonário, pedindo que se deixe às
vítimas o poder de acusar ou não.
Numa audição na comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais,
António Marinho Pinto invocou a sua experiência como advogado para
afirmar que já teve um caso em que um casal se reconciliou durante o
processo. Pelo que “teve de se fazer umas vigarices” para evitar que o
arguido fosse condenado, acrescentou. O advogado apontou ainda um
“feminismo entranhado” nas leis.
A ideia de Marinho Pinto teve a oposição generalizada dos partidos -
“discordo” foi a resposta unânime. Mas o bastonário ainda voltaria ao
tema. “Considero que há um certo fundamentalismo na violência doméstica
como crime público”, reiterou, voltando a defender a existência de um
mecanismo que “permita à vítima desistir, perante um juiz”. O
representante dos advogados ainda acrescentou que a “violência
doméstica é uma chaga nacional”, mas referiu também que aquela que é
exercida sobre as mulheres “não é hoje a pior violência doméstica” -
essa é praticada em relação às crianças e aos idosos.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 14.05.2008
APAV PERPLEXA COM DECLARAÇÕES DO BASTONÁRIO DA OA
A presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
(APAV) disse hoje ter ficado "perplexa" com as declarações
do bastonário da Ordem dos Advogados, que terça-feira defendeu que
a violência doméstica não devia ser crime público.
O bastonário
Marinho e Pinto disse terça-feira no parlamento que a violência doméstica
não deveria ser crime público, porque inviabiliza a desistência do
processo, caso a vítima o deseje, noticia hoje a imprensa.
"Lamento
que Marinho e Pinto, enquanto bastonário da Ordem dos Advogados, manifeste
esta opinião", disse hoje à Lusa a presidente da APAV, Joana
Marques Vidal, adiantando ter ficado "perplexa" com as declarações.
A presidente
da APAV referiu que o fenómeno da violência doméstica é "extremamente
grave e que o número de casos tem aumentado", acrescentando que
a categorização destes actos como crime público está "sedimentado
na sociedade" e que "quase de não vale a pena voltar a discutir
o assunto". "O crime
público (para os casos de violência doméstica) está interiorizado
na comunidade e é sem dúvida um instrumento muito importante para
que haja uma noção clara na comunidade de como aqueles comportamentos,
atitudes e agressões são inadmissíveis", frisou. Para a presidente
da APAV "é fundamental que (o crime nos casos de violência doméstica)
continue e que seja público".
Joana Marques
Vidal esclareceu também que o novo Código do Processo Penal - em vigor
desde Setembro último - permite a suspensão provisória do processo
a pedido da vítima. "No caso
de as vítimas se arrependerem há mecanismos (na lei) que permitem
alguma margem de manobra" para que o processo não chegue a julgamento,
explicou.
A responsável
pela APAV afirmou à Lusa, sem conseguir quantificar, existirem vários
casos de vítimas de agressões que evitam fazer queixa às autoridades
e outras que, em determinado momento, as querem retirar.
LUSA | 14.05.2008
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