|
Na última entrevista do Bastonário Rogério Alves, antes de abandonar o cargo, fala sobre os incidentes do seu Bastonato, os horizontes e problemas que enfrentam os advogados e sobre o estado da justiça, reclama que devia ser investido mais dinheiro para a Justiça e que a acção executiva devia ser reformulada, atribuindo-se ao ao advogado
poderes de agente de execução para desembaraçar «esse coágulo».
Agora que se vai embora da Ordem, a casa está a arder...
A casa não está a arder. O que existe são manifestações esporádicas
sobre previsões de incêndio. A Ordem dos Advogados nunca esteve tão
próxima dos advogados e não digo isto como um cliché. Há 15 anos, há
oito anos, a Ordem estava afastada dos advogados. Porque intervinha
menos na sua vida e fornecia-lhes menos utilidades. Nestes últimos
anos, houve um aumento de acções de formação ímpar. Herdei o Conselho
Distrital de Lisboa com 15 acções por ano; deixei-o com mais de 200
neste triénio.
Para além das acções de formação...
Espere. Temos que falar do que acontece e não do que algumas pessoas
dizem. Ou estamos nas imagens ou estamos na Alegoria da Caverna. Não
tem comparação o que a Ordem diz hoje aos advogados, seja com a
intervenção mediática ou com as actividades que dispõem. A Ordem não
está a arder, sente é alguma perplexidade face a alguns acontecimentos
recentes, acontecimentos epidérmicos e que não abalam o prestígio da
Ordem.
Tem-se ouvido comentários pejorativos sobre o recém eleito bastonário, Marinho Pinto.
Esses comentários foram feitos por uma pessoa.
Uma pessoa que é o ex-bastonário José Miguel Júdice, e outro advogado que foi também bastonário, António Pires de Lima..
É impressionante a associação de Pires de Lima a esses comentários. Se
calhar seria mais importante interrogar porque é que quanto menos eles
gostam de uma pessoa, mais ela ganha e mais votos tem nas candidaturas
a bastonário.
Já houve mais respeito nas estruturas da OA.
Com certeza. E foi esse respeito que se perdeu. Mas não fui eu que abri
essas hostilidades. Na minha campanha adverti que se estava a usar um
tipo de linguagem que não devia ser utilizada. Este tipo de linguagem
não era habitual na advocacia, também não havia o hábito de um anterior
bastonário fazer o balanço do bastonário cessante. São hábitos
adquiridos do marketing político.
É uma postura a que a Ordem dos Advogados não estava habituada e que
pelos vistos implantou-se de armas e bagagens na casa. Nunca ofendi
nenhum colega nem insultei ninguém. Saio com o currículo livre.
É um facto que são críticas de dois ex-bastonários. Qual é o objectivo deles?
Era só o que faltava eu agora fazer uma interpretação de bastonários passados.
Na OA existia um acordo de cavalheiros de não fazer comentários sobre ex e actuais bastonários. Como vai ser a sua postura?
Não era uma acordo de cavalheiros, era mais um hábito. E os hábitos podem vir a ser alterados.
Está mais próximo de Marinho Pinto agora...
Não estou próximo dos seus pontos de vista. O Marinho Pinto, e os
demais candidatos, tinham ideias mestras. Os programas com muito papel
acabaram. Os tempos estão a mudar. Temos de ter consideração
institucional pelo novo bastonário e pelos colegas que me trataram bem
ao longo destes três anos.
José Miguel Júdice acusou-o de mentir, de conspirar, de o levar a tribunal...
Eu não vou a tribunal. Quem é que vai?
Júdice disse que gostaria de o levar a tribunal.
Então vá. Já foi punido uma vez e não foi a tribunal. Não percebo agora
este gosto superveniente de ir a tribunal. Mas isso é um problema dele.
Eu já disse o que tinha a dizer. Fui alvo de acusações traiçoeiras e
serôdias que terão nascido de um processo disciplinar com mais de dois
anos. Mas que têm uma vantagem: deixa bem patente o carácter da pessoa.
Daí o segundo processo disciplinar, por causa dessas declarações e de o
advogado em questão ter chamado ao Conselho Superior de "um bando".
É um medir de forças?
Claro que não. A menos que me diga que esta participação não tem
sentido. Esta acusação é traiçoeira porque não tem conteúdo, porque não
tem fundamento, é um sound bite que fica a pairar. O assunto está entregue nas mãos de quem deve estar e não regressarei a essa polémica.
A imagem dos advogados fica manchada com estes acontecimentos?
Não. Isto é um fenómeno localizado e que não penetra na relação dos advogados com a sua Ordem.
O bastonário deve ser remunerado?
Acho que sim.
Com quanto?
Não vou entrar em discussões dessas. Remeto essa questão para a
proposta que Marinho Pinto fez para ele próprio, o equivalente ao
ordenado do procurador-geral da República [cerca de 5 500 euros
ilíquidos].
Como compatibilizou a função de bastonário com a de advogado?
Trabalhando muitas horas por dia. E com muita ajuda dos meus colegas do escritório e da Ordem.
O que ganhou com esta função?
Não vim para bastonário para ganhar ou para perder. Quando terminei o
mandato no CDL já era uma pessoa muito conhecida. Poderia não ter
aceite o convite que me foi feito pelos advogados. As coisas surgiram
casualmente, como muitas surgem na minha vida. Mas entenderam algumas
pessoas que eu era a melhor solução. E atingi um lugar que é uma honra
para todos os advogados. Fica para toda a nossa vida.
Ganhou prestígio...
Claro que sim. Houve uma contracção muito grande durante estes três
anos da minha vida profissional. Agora vou ter mais disponibilidade.
A OA é uma das ordens profissionais que mais cobra de quotas [37,50 euros mensais]. Como deixa as finanças da Ordem?
Pujantes e musculadas. Relativamente às quotas, eu votei contra o
último aumento. Ao longo de todo o meu mandato não houve aumento. Mas o
valor é justificado, desde logo, pelo seguro de responsabilidade civil
profissional.
Quanto vale o património da Ordem?
Não sei... Vivemos das quotas e das receitas que derivam da taxa de
justiça cível, que corresponde à contrapartida que a Ordem dos
Advogados desempenha em termos de serviço público.
O procurador-geral da República tem vindo a criar equipas especiais
para investigar certo tipo de crimes. O que acha desta opção?
Como conceito concordo com estas decisões do PGR.
Não considera que desautoriza o Ministério Público local?
Não... Poderá haver pessoas mais especializadas. Não podemos
sobrevalorizar o critério geográfico. Há determinados tipos de
criminalidade que exigem mais especialização.
Se um dia fosse ministro da Justiça, qual seria a sua primeira medida?
Em primeiro lugar quero fazer a ressalva que isso não está nos meus
horizontes, mas falando no plano hipotético, exigiria ao ministro das
Finanças mais dinheiro para a Justiça. Depois, pegava no regime da
acção executiva e dava-lhe uma grande volta de forma a atribuir ao
advogado poderes de agente de execução para desembaraçar este coágulo.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 18.12.2007
Comentarios () |
|
|
|
|
|