Com as alterações que propôs ao estatuto da ordem, os advogados vão deixar de poder ser deputados?
Pedimos ao Governo que alterasse algumas normas do estatuto da Ordem dos Advogados (OA). Uma dessas normas é a separação entre funções políticas soberanas e o exercício da advocacia Em Portugal, há uma promiscuidade muito grande entre o exercício de funções políticas e o exercício da advocacia
A que tipo de situações se refere?
Situações como escritórios de advogados com membros no Governo a patrocinar o Estado em acções, sem concursos públicos, sem transparência, sem regras. No último Governo PSD/CDS, só um escritório de Lisboa chegou ater quatro advogados no Governo.
Neste momento há situações dessas?
Neste momento há situações dessas no Parlamento. Há escritórios com advogados no Parlamento que continuam a exercer advocacia Estão no Parlamento a defender o interesse público, vão para tribunal defender interesses privados, e voltam para o Parlamento a propor leis.
Há “deputados/advogados” que neste momento defendem o Governo?
Há escritórios de “deputados/advogados” com acções do Estado.
Quais?
Não quero individualizar. Como bastonário não devo apontar o dedo a este advogado ou àquela sociedade de advogados. O que quero é acabar com situações que colocam em causa valores essenciais da advocacia
Que valores?
Da sã concorrência entre advogados e entre sociedades de advogados. Não deve permitir-se que sejam angariadas acções do Estado através de tráficos de influência subterrâneos, e da acção política Quero isto bem separado, muito embora possa doer a muita gente. Dói a muita gente e inclusivamente a alguns candidatos a bastonário. Ou pelo menos a um.
Está a referir-se a quem?
Não aponto o nome de ninguém. Mas há aí candidatos a bastonário derrotados, que estão permanentemente a atacar-me, precisamente porque ataco diversos interesses que estão escondidos, de tráfico entre o exercício da advocacia e o exercício da acção política Não fui eleito para andar a pavonear-me pelo País. Fui eleito para fazer reformas.
Não individualiza, mas lança uma suspeição sobre todos os advogados.
Não lanço suspeições sobre ninguém. São afirmações bem claras. Basta ver quem está no Parlamento e quem está nos escritórios.
A questão central é o exercício da advocacia acumulado como cargo de deputado?
Não é só isso. Os advogados suspendem a actividade quando vão para o Governo. Suspendem se forem para determinados cargos da administração pública e se forem para presidentes de Câmara. Porque não hão-de suspender os que querem ser deputados? Além disso, queremos estender a incompatibilidade também ao exercício de vereador nas câmaras municipais.
Para os vereadores que exerçam a tempo inteiro?
Não. Estende-se a qualquer vereador que tenha direito devoto no executivo camarário.
Mesmo sem funções executivas?
Sim. É preciso que as funções públicas, do Presidente da República aos membros dos órgãos locais, sejam pautadas pela transparência
Outra alteração prevista ao estatuto da OA passa pela redução das competências do Conselho Superior. Porquê?
O Conselho Superior deve ser o órgão máximo em matéria disciplinar. Não pode ser um órgão através do qual determinadas pessoas procurem fazer a gestão da OA
Esta medida parece feita à medida do actual presidente do Conselho Superior (José António Barreiros).
Não. É uma medida salutar de separação de funções. Os órgãos jurisdicionais não devem ter outras funções além das disciplinares e deontológicas. Trata-se de clarificar as regras de funcionamento em matéria disciplinar. O actual presidente do Conselho Superior já me instaurou quatro processos disciplinares. Sou um advogado. Vou fazer 25 anos de exercício da advocacia. Nunca tive um processo disciplinar em toda a minha vida
Quer evitar ser processado?
A medida que se propõe é que a decisão sobre os processos disciplinares ao bastonário e ao Conselho Superior seja tomada em reunião conjunta dos dois órgãos - Conselho Geral e Conselho Superior por maioria de dois terços. Isto, para que o poder disciplinar não seja usado para fazer oposição ao bastonário.
Há também alterações no acesso à profissão. O que vai mudar?
Vamos criar regras diferentes para a formação e para o estágio que antecede o acesso à profissão. Neste momento, para se inscrever na OA, um doutorado ou um magistrado que tenha cessado funções, basta-lhes vir aqui inscrever-se. Não pode ser assim. Ser advogado não é só saber Direito. A proposta é que a formação seja acompanhada por um patrono, e a inscrição dependerá de uma entrevista final, perante um júri, presidido pelo bastonário e integrado pelo patrono, pelo presidente da comissão nacional de estágio e pelo presidente da comissão nacional de avaliação.
E altera as funções agora desempenhadas pelos conselhos distritais?
Vamos descolar a formação do actual paradigma escolástico, tipo professor/aluno, e apostar no paradigma do patrono tradicional, que existia antes desta formação se ter iniciado, quando vieram os fundos europeus e todos foram dar aulas para receberem os fundos. O patrono terá de fazer-se acompanhar do seu estagiário para as práticas forenses.
Os patronos não alegarão falta de tempo?
Vão passar a ter tempo, porque também vamos moralizar essa parte. Conheço situações em que um advogado tinha 18 estagiários. Não poderá dar apoio a mais do que dois ou três.
E os conselhos distritais?
Vão ter o mesmo papel que têm agora Devem apostar sobretudo na formação permanente de todos os advogados, incluindo os estagiários.
É verdade que pretende reorganizar os conselhos distritais?
Não há alterações. Praticamente ficam incólumes.
Praticamente?
No final do ano irei propor, para 2010, uma profunda revisão da Ordem dos Advogados. Para adaptar a estrutura jurídica ao Estado de Direito e à democracia.
Isso ainda no âmbito dos estatutos?
Sim. Será separar o Estatuto do Advogado da Lei Orgânica da Ordem. Aí sim, vamos questionar a existência de alguns órgãos. A Ordem tem cerca de 300 órgãos, entre delegações, institutos, comissões, conselhos de deontologia, conselhos distritais, conselho geral. Tem quase 900 dirigentes. Para uma Ordem com 26 mil advogados serão necessários tantos dirigentes? Porcada 30 advogados, um é dirigente.
As mudanças serão debatidas pela classe?
A discussão será pública e aberta a todos os advogados. Relativamente às recentes alterações propostas, estas são pontuais. As referentes à adaptação a Bolonha e ao acesso à profissão já estavam na posse do Governo e foram propostas pelo anterior bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Rogério Alves.
“Há presidentes de conselhos distritais que se portam como senhores feudais”
Contestação às alterações ao estatuto, orçamento de 2009 e contas de 2008 reprovados… Temos uma situação de guerra aberta na OA?
Não há guerra aberta na OA.
Há quem o acuse de alta traição, por mudar o estatuto sem ouvir a classe.
O Dr. Carlos Pinto de Abreu disse que esta situação era ignóbil e de alta traição, mas o processo é muito transparente. Acha que o Governo para avançar com iniciativas tem de ouvir a Dra. Ferreira Leite?
E se promovesse o diálogo?
Diálogo com quem? Com quem está frequentemente contra? Tentei fazer uma reunião mensal com os presidentes dos conselhos distritais., não aceitaram. Queriam participar nas reuniões do Conselho Geral.
Tem afirmado que quem lhe faz oposição é um grupo minoritário.
São cinco presidentes de conselhos distritais, a honrosa excepção são os dos Açores e da Madeira
Cinco presidentes que representam um conjunto largo de advogados.
Sim, mas porque razão querem desempenharas funções do Conselho Geral?
Dizem que só querem diálogo.
Só tenho que os ouvir quando achar que o contributo deles é necessário. Isto não é um soviete em que estamos todos permanentemente a decidir tudo. Cada um responde pelas suas competências. Tenho ouvido alguns presidentes de conselhos distritais. Mas uma gestão de”arraial minhoto” comigo não pega
Tem dois anos difíceis pela frente.
Nunca fujo de dificuldades. Não me assustam. Tenho convicções, princípios e valores. Não ando aqui para arranjar clientes para o meu escritório. Suspendi a actividade. Não ando a arranjar serviços ou avenças do Estado. A minha família e eu vivemos com dificuldades.
Que consequências há para a OA por o orçamento não ter sido aprovado?
Há uma acção de boicote. O orçamento foi reprovado, mas ainda não apresentaram propostas. Não posso convocar a assembleia-geral enquanto não o fizerem. Querem paralisar a Ordem para depois deitarem as culpas ao bastonário.
E a falta de transferência de verbas para os conselhos distritais?
A asfixia financeira dos conselhos distritais é pura propaganda É mentira A 31 de Dezembro de 2008, tinham, em dinheiro, cerca de quatro milhões de euros. Só o de Lisboa tinha 1,7 milhões. O do Porto tinha maisde800mileuros,odeCoimbra mais de 300 mil- Todos tinham acima de 100 mil, excepto o de Évora que tinha cerca de 60 mil. Em que é que os conselhos distritais gastam quase nove milhões de euros?
Respondem pelas delegações…
Sim mas o que é que eles dão aos advogados? A Ordem tem estado a viver acima das suas possibilidades. Os advogados pagam 450 euros por ano, a maior contribuição de todos os profissionais liberais. O Conselho Geral paga aos os advogados um seguro que custa 1,7 milhões de euros. Porque não participam os conselhos distritais comas suas receitas no custo deste beneficio? A Ordem tem uma estrutura medieval e alguns presidentes dos conselhos distritais portam-se como senhores feudais.