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Se a proposta avançada por Marinho e Pinto, o recém-eleito bastonário
da Ordem dos Advogados, vingar, há 40 deputados no Parlamento português
que terão de optar entre a sua profissão e a sua condição de
legisladores. «Quem participa na administração da justiça não pode
participar na feitura das leis. É um princípio sagrado. Quem faz as
leis não pode ter clientes privados, pois já houve suspeitas de que se
fizeram leis para clientes», avançou o novo líder da OA, ao Público.
Olhando para as bancadas de São Bento, os dois
maiores partidos, PS e PSD, seriam os mais atingidos por este estreito
regime de incompatibilidade. Nomes fortes do PSD, como Luís Pais
Antunes, José Luís Arnaut, José Eduardo Martins, José Pedro Aguiar
Branco, Rui Gomes da Silva, Pedro Santana Lopes e Miguel Macedo dividem
as suas actividades entre o escritório e o Parlamento. Paes Antunes,
por exemplo, integra o maior escritório do País, a sociedade liderada
pelo ex-bastonário José Miguel Júdice. A PLMJ, tal como outras grandes
sociedades, intervém em negócios com o Estado, ao serviço de privados
(como privatizações). Pais Antunes escusou-se a falar sobre o assunto.
Pedro
Mota Soares, deputado do CDS-PP, advogado na Mota Soares, Oliveira
& Associados e membro do grupo de trabalho que analisa os registos
de interesse, na Assembleia da República, entende que o regime de
incompatibilidades é suficiente para evitar que alguém legisle em causa
própria. «Qualquer pessoa, antes de um debate legislativo, se entender
que há uma incompatibilidade pessoal relativamente ao tema que se vai
discutir, pode e deve fazer um registo de interesses.»
Além da
consciência de cada um, Pedro Mota Soares esclarece que a lei em vigor
já estipula uma série de incompatibilidades gerais para a função de
deputado.
«Acho que faz sentido, por exemplo, um deputado não
poder litigar contra o Estado, mas isso já está no nosso regime de
incompatibilidades», assume à VISÃO. «Também há quem defenda que a
função parlamentar deve ser exercida em exclusividade. Discordo. Ter no
Parlamento pessoas que desconhecem a vida real do País não é bom para
ninguém.»
‘Deputado e advogado, não!’
Foi essa a razão principal para a renúncia ao mandato de deputado do socialista António Vitorino,
alvo das críticas da oposição, que considerou existir incompatibilidade
entre o seu cargo político e o estatuto de sócio da sociedade de
advogados Gonçalves Pereira, que representava a Galp nas negociações
com o grupo italiano ENI. Na altura, o PCP pediu à Comissão de Ética
que analisasse o caso, mas Vitorino suspendeu o mandato, antes de haver
uma decisão.
No entanto, sentam-se na bancada da maioria socialista
vários outros ilustres causídicos em funções, como José Lamego, Umberto
Pacheco, António Ramos Preto e Vitalino Canas.O porta-voz do PS e
sócio da Vitalino Canas & Associados é taxativo: «Se houvesse um
projecto-lei que envolvesse um cliente meu, declararia, de imediato, o
meu impedimento de votar.»
Sobre a afirmação de Marinho e Pinto,
Canas passa ao ataque: «Fiquei muito surpreendido com as declarações do
novo bastonário, que são de um populismo excessivo. Acho estranho que
alguém que acaba de abraçar este cargo tenha como principal desígnio
excluir 20 ou 30 colegas da profissão.» E acrescenta que a própria
ideia de aumentar as incompatibilidades é «completamente absurda»,
porque, num parlamento com 230 deputados «de vários partidos», torna-se
«impensável» que um parlamentar pudesse «fazer passar uma lei para
beneficiar um cliente».
Os advogados representam, tradicionalmente,
a principal profissão em que são recrutados os deputados portugueses.
No total dos 230 parlamentares, há 77% licenciados em Direito. E
regista-se uma clara clivagem entre os que acumulam funções (40) e os
que optam por assumir o mandato político (34), suspendendo a inscrição
na Ordem, como é o caso de Regina Bastos (PSD), Jorge Machado (PCP) ou
Nuno Magalhães (PP).
‘Fiquei muito surpreendido. São declarações de um populismo excessivo’ (Vitalino Canas, advogado e porta-vos do PS)
A intenção de António Marinho e Pinto não passa, por
enquanto, de um anúncio genérico. «Estarei em blackout até 8 de
Janeiro», data da posse, diz o bastonário à VISÃO. Mas esta medida
consta do seu manifesto de candidatura à Ordem dos Advogados. Sob o
pictórico título Deputado e advogado, não obrigado!, Marinho e Pinto
escreve que «deverá proceder-se o mais rapidamente possível às
pertinentes alterações do Estatuto do Deputado e do Estatuto da Ordem
dos Advogados, com vista a tornar incompatível o exercício em
simultâneo», destas duas funções. Neste contexto, Marinho e Pinto
pretende, em breve, expor os seus motivos aos líderes parlamentares,
com vista à introdução de uma proposta de lei que leve a Assembleia da
República a alterar o Estatuto do Deputado. Essa será, de resto, a
única maneira de consagrar esta medida, com efeitos práticos.
Além
do Parlamento, também os advogados nos Conselhos Superiores da
Magistratura e do Ministério Público estão sob a mira do bastonário.
VISÃO | 13.12.2007
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