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"Vou fazer as mudanças sem saltos bruscos, sem destruir nada do que existe na Ordem" garante Marinho Pinto. Mas a eleição do novo bastonário já provocou reacções: António Pires de Lima, ex-bastonário, garante que nunca mais entrará na Ordem.
Diálogo, diálogo e diálogo. Depois de ter sido o
mais crítico dos quatro candidatos ao lugar de Rogério Alves, Marinho
Pinto tornou-se num bastonário prudente, ponderado e apaziguador. Foi
duro a reclamar maior capacidade de intervenção da Ordem no processo
legislativo e encarnou as exigências dos advogados descontentes. Mas,
desenganem-se os que esperavam uma ruptura institucional: vencedor das
eleições mais votadas na história da instituição aposta "em rupturas
criadoras, mas sem traumatismos", deixa antever em declarações ao
Diário Económico.
Diálogo para melhor negociar com o Governo as
medidas para o descongestionamento dos tribunais. Diálogo para
restringir a entrada dos jovens na profissão, através de um exame
nacional de acesso ao estágio. E ainda diálogo para alcançar uma
posição na feitura e fiscalização da leis. São estes os vectores que
vão marcar o mandato de Marinho Pinto.
Como? "Tentando, por exemplo,
mostrar ao Governo que é um imenso desperdício não considerar os
contributos dos advogados", explica ao Diário Económico, acrescentando
que "um dos males deste país tem sido a má qualidade técnica das leis.
Se o Governo ouvir e atender às posições da Ordem dos Advogados verá
que vai haver uma melhoria qualificativa na produção legislativa".
António
Marinho Pinto, de 57 anos, filho de um alfaiate e de uma camponesa,
advogado em Coimbra a exercer em prática isolada, venceu com 7.265
votos dos quase 19 mil advogados que foram às urnas. Ao Diário
Económico, o advogado garante que vai cumprir o que prometeu: exercer o
cargo em regime de exclusividade e será remunerado. Vai mudar-se para
Lisboa e deixar de exercer a profissão no seu escritório de Coimbra Por
definir está ainda o salário que vai auferir, mas sublinha que
discutirá um valor semelhante ao que ganha o Provedor de Justiça.
Por
trás da alteração de discurso poderão estar as críticas das alas mais
conservadoras à sua postura "populista". A eleição de Marinho Pinto não
foi pacífica e já provocou reacções de protesto, nomeadamente de dois
anteriores bastonários: José Miguel Júdice e António Pires de Lima. O
último disse mesmo à TSF que não entrará mais na Ordem e que só não
entrega a cédula profissional porque continua a exercer a profissão.
Também José Miguel Júdice já tinha referido, num debate na Rádio
Renascença, que se Marinho Pinto viesse a ser o escolhido seria "uma
tragédia ao quadrado", referindo-se ao mandato de Rogério Alves.
As críticas, Marinho Pinto não responde "enquanto bastonário", embora o tenha feito na campanha.
As quatro ideias-chave de Marinho Pinto
1 - Restringir acesso à profissão
O bastonário
quer restringir o acesso à advocacia através de um exame nacional de
entrada no estágio. O objectivo é "que entrem os melhores e não segundo
escolhas que podem não ser as mais transparentes". Marinho Pinto diz
que existem "dezenas de faculdades quando bastariam quatro ou cinco".
2 - Bastonário em exclusividade
Firme na
convicção de que o bastonário deve exercer o cargo a tempo inteiro, o
advogado vai deixar o seu escritório em Coimbra e exigir à Ordem uma
remuneração semelhante à do Provedor de Justiça. "Como é que se exercem
funções tão absorventes a trabalhar a um ritmo tão intenso e ainda a
dar aulas?".
3 - Fiscalização da constitucionalidade
"O
Governo, o poder político e a Assembleia da República têm que
considerar rapidamente a possibilidade da Ordem, através do seu
bastonário, poder suscitar a fiscalização abstracta da
constitucionalidade das leis, nos mesmos termos em que é dada ao PGR".
Esta será uma das batalhas de Marinho Pinto.
4 - Participar na elaboração das leis
Uma das
maiores exigências da classe é ser ouvida no processo legislativo e
Marinho Pinto não esconde a importância dessa matéria no seu mandato.
"Através do diálogo com o Governo, vamos mostrar as vantagens dessa
medida para a democracia", explica o sucessor de Rogério Alves.
Bastonário preocupado com a unidade
Não querendo comentar a eleição de António Marinho
Pinto para seu sucessor, Rogério Alves manifestou ontem, em declarações
ao Diário Económico, a sua preocupação com aquele que considera ser o
principal desafio do vencedor: "Manter a unidade dos advogados em torno
da Ordem". Um desafio que está à altura do vencedor das eleições de 30
de Novembro? "O novo bastonário vai, com certeza, fazer tudo para
cumprir os objectivos a que se propôs", respondeu Rogério Alves, que
quis sublinhar que a sua inquietação não tem directamente a ver com a
eleição de António Marinho Pinto, "pois teria a mesma procuração se
tivesse ganho outro candidato". Ao Diário Económico, o actual
bastonário esclareceu que diz, sobretudo, respeito a uma proposta de
lei apresentada no Parlamento que, na sua opinião, constitui uma
"tentativa de tutelar as ordens". Apresentada pelo grupo parlamentar do
PS, a lei que regulará as ordens profissionais "poderá traduzir-se na
limitação da sua actividade reguladora", diz Rogério Alves.
Rogério Alves
Bastonário da Ordem dos advogados
Segundo bastonário que não é de Lisboa
Em 80 anos de existência, a Ordem dos Advogados
apenas, uma vez, elegeu um bastonário fora de Lisboa. Augusto Lopes
Cardoso, eleito em 1987, foi o primeiro a quebrar a regra, o que só
voltou a verificar-se nas eleições de sexta-feira passada. Com a maior
votação da história da instituição, um advogado de Coimbra - Marinho
Pinto - venceu as eleições.
CONSELHO superior consensual
Barreiros mais consensual que o bastonário
"Uma situação insólita". É assim que José António
Barreiros classifica a sua eleição para o Conselho Superior da Ordem
dos Advogados que, pela primeira vez, recolheu mais votos do que o
bastonário. O "tribunal" da instituição concorreu (também pela primeira
vez) através de uma candidatura independente, tendo obtido 7.413 votos
contra os 7.265 conseguidos por Marinho Pinto. Uma vantagem,
considera Barreiros, que sublinha a "legitimidade reforçada dos órgãos
agora eleitos". Vantagem também é a sua lista não estar dependente de
nenhum dos candidatos a bastonário. "Desta forma, o Conselho Superior
não vê limitada a sua independência e autonomia", explica o advogado de
Vale e Azevedo ao Diário Económico. E para a garantir, José António
Barreiros já avisou que a distribuição dos processos disciplinares,
passará a ser feita por sorteio.
Lisboa não escolhe lista de Marinho Pinto
Também
insólita e quase inédita foi a eleição de Carlos Pinto de Abreu para
presidente do Conselho Distrital de Lisboa. O advogado da família
McCann ganhou o distrito que habitualmente dá a vitória ao bastonário -
assim aconteceu com Rogério Alves -, mas pertence a uma lista distinta
de Marinho Pinto. Pinto de Abreu lembra que, nos 80 anos de vida da
Ordem, esta situação só acontecera uma vez, com a eleição de Alfredo
Gaspar. Ainda assim, o advogado considera ser "uma vitória simpática".
Atribuindo os "louros" à equipa de 21 pessoas que lidera. Carlos Pinto
de Abreu tem já na manga vários projectos para o Conselho Distrital que
passará a presidir no início de 2008. "A descentralização da formação,
que não pode acontecer apenas no centro da cidade" e "a partilha de
serviços entre as várias delegações, como por exemplo, os solicitadores
de execução" são algumas das prioridades do advogado.
JORNAL DE NEGÓCIOS | 05.12.2007
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