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Entrevista de Marinho Pinto ao "Público" criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
09-Dez-2007

ImageBastonário não quer advogados a fazer leis na AR. O novo bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, pede aos seus críticos que respeitem os resultados eleitorais e lembra que nunca outro candidato recolheu tantos votos. Por isso promete trabalhar a tempo inteiro por projectos que incluem a incompatibilidade entre ser advogado e deputado, tudo em nome da transparência.
Quem faz leis não pode ter clientes privados. Não quer advogados no Parlamento, quer que o Estado realize concursos antes de celebrar grandes contratos, quer mais tribunais e não os litígios a passarem para as conservatórias.


É o bastonário dos pequenos contra as grandes sociedades?

Não sou contra as grandes sociedades, defendo é que estas se devem diferenciar pela qualidade dos seus serviços jurídicos e não porque têm relações privilegiadas com o poder político.

Mas como quer que, num país da nossa dimensão, uma grande sociedade de advogados não tenha contratos com o Estado?
O que quero é regras. Não quero que o Estado decida quem vai crescer. Não gosto de ver situações em que há advogados políticos que têm um pé no escritório, um pé na Assembleia e, às vezes, têm também as mãos no Governo, com poder para condicionar até designações de membros do executivo...

Está a referir-se a alguém?
Não, estou a referir-me a situações de promiscuidade entre o poder político e alguns escritórios. Quero mais transparência e quero concursos públicos para a contratação pelo Estado de serviços de advocacia. Uma coisa é um cidadão que se dirige a um escritório e estabelece com o advogado um contrato olhos nos olhos. Outra coisa é o Estado, que deve dizer em público o tipo de assessoria que deseja, em vez de escolher sem se saber como e originando suspeitas gravíssimas.

Devia ser incompatível ser advogado e deputado?
Claro. Quem participa na administração da justiça não pode participar na feitura das leis. É um princípio sagrado. Quem faz leis não pode ter clientes privados, pois já houve suspeitas de que se fizeram leis para clientes. Tivemos verdadeiros escândalos nas leis da amnistia, em que houve crimes que foram incluídos entre a aprovação em plenário e a publicação em Diário da República. Há que acabar com estas suspeitas.

Porquê?
Entre outras coisas, porque, em Portugal, não há ainda uma distinção clara entre lobbying, que é uma actividade legítima, e tráfico de influências, que é um crime.

José Miguel Júdice chamou-lhe justicialista e comparou-o a Hugo Chávez. Disse que representava os descamisados da advogacia. Revê-se nesse retrato?
Revejo-me na esmagadora maioria dos advogados. A nobreza desta profissão não está tanto nos grandes nomes, está na multidão de anónimos que todos os dias garantem algo essencial num estado democrático, pois é através dos advogados que, muitas vezes, os cidadãos defendem os seus direitos fundamentais. São milhares cujos nomes ninguém conhece e que devem também ter direito a uma parte do paraíso, já que suportam grande parte do peso do céu.

Vai dar-lhes protagonismo?
Ninguém anda à procura de protagonismo. Durante muitos anos, o lugar de bastonário foi ocupado por grandes nomes, pela aristocracia da classe, mas a verdade é que a situação chegou ao actual estado de degradação, de massificação, de desjudicialização, de falta de respeito nos tribunais. Esse é o diagnóstico de Júdice... Pois é, e por isso integrei uma lista que ele encabeçou. Depois zangaram-se. Porque ele quis que me calasse e eu não me calei. Não podia deixar de dizer que um dos lugares onde mais se violam os direitos humanos em Portugal são os tribunais. Basta verificar que temos a taxa de criminalidade mais baixa da Europa, a taxa de criminalidade violenta mais baixa e a taxa mais elevada de reclusão. Temos à volta de 137 reclusos por cem mil habitantes quando a própria Turquia só tem 90. Isto é terrível de dizer e todos se calavam, mas temos de confrontar os magistrados com esta realidade.

O que vai fazer para aumentar a transparência do sistema?
Muitos advogados, mesmo muitos que são deputados, querem acabar com o cambão de serem sempre os mesmos os escolhidos pelo Estado. Agora, isto não é por impulsos individuais que se mudam as coisas ou fazem as reformas. Vou dialogar, vou pedir audiências. Não é para pedir revoluções, mas para propor reformas. E reivindico para o bastonário a mesma possibilidade que têm o procurador-geral da República e o provedor de justiça de suscitar a fiscalização abstracta da constitucionalidade das normas legais que saem do Parlamento.

Não teme que os ex-bastonários se distanciem e o isolem?
A minha força está no seu estilo: verdade, frontalidade, lealdade. Não sou dos que dão abraços pela frente e fazem críticas pelas costas. É a minha filosofia de vida e nenhum juiz ou magistrado do MP pode dizer que lhe faltei ao respeito. Agora têm de se habituar a ouvir críticas. Conhecem-me, sabem o que nos separa e o que nos une, e o que nos une é mais do que o que nos separa. Não esperem é que ceda no domínio dos princípios, pelo que não poderemos cooperar se houver juízes que desafiem advogados para o confronto físico fora do tribunal, como já sucedeu. Uma falta de respeito a um advogado é uma falta de respeito ao seu bastonário. Aí, está o caldo entornado.

Como reunificar os advogados?
Os advogados não estão divididos, votaram neste bastonário como antes não tinham votado em nenhum. O apelo que faço é que se respeite o veredicto democrático da classe. O meu projecto é de inclusão e não vou responder a ataques. Vou aguentar estoicamente. Só digo, citando Albert Camus, que o rancor é secreção em recipiente fechado de prolongadas impotências.


Críticas à saída dos tribunais de muitos processos litigiosos:Justiça sem advogados é uma farsa, e vamos nesse caminh

Há três anos, em entrevista ao PÚBLICO, disse que o Conselho Superior da Magistratura é "um órgão totalitário, de matriz quase fascista". Mantém?
Essa tese não é minha. Resultou de um mestrado de um magistrado e o júri que aprovou a tese era, julgo, presidido pelo prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Sabem o que aconteceu a esse juiz? Primeiro foi expulso da função pública, depois aposentado. Citei então essa tese para provocar o debate.

Agora, que é bastonário, vai manter esse estilo provocatório?
Hoje, reconheço que a expressão é excessiva, as épocas são diferentes, e, como bastonário, não mantenho a afirmação. Como advogado, gosto de uma boa zaragata, de uma boa polémica. Como bastonário, não é essa a minha função.

A sua simpatia assumida pelo Bloco de Esquerda...
Já votei em praticamente todos os partidos.

... não o vai prejudicar na relação com os juízes e o Ministério Público?
De forma nenhuma. Ainda esta semana, num debate, troquei um forte abraço com o PGR. Sei é que há pessoas que não toleram a mais pequena crítica, mas têm de se habituar a viver em democracia.

Cometem-se assim tantas injustiças em tribunal?
Há decisões grandiosas dos nossos tribunais, há magistrados fabulosos, com uma grandeza de carácter face à qual me curvo até ao chão...

Então onde está o problema?
Na sensação de poder sem limites que alguns magistrados têm que coloca em causa o Estado de Direito, a República. Por outro lado, as custas são hoje uma forma de denegar justiça, só se destinam a descongestionar os tribunais.

Mas não acha que eles devem ser descongestionados? Porquê?
Devem é criar mais tribunais. O resto é tudo aquilo a que assistimos: descongestionamos tribunais, como descongestionamos hospitais, centros de saúde, maternidades, descongestionamos tudo em nome de um economicismo cego. Mas as poupanças na justiça saem muito caras ao povo, à cidadania, à democracia. O actual processo de desjudicialização é um retrocesso civilizacional.

Desjudicialização?
Sim, por nos esquecermos que a passagem da barbárie à civilização corresponde ao momento em que o Estado chamou a si o monopólio do exercício da justiça e deixou de entregar os criminosos à família das vítimas, que não faziam justiça, exerciam vingança. Agora o Estado está a recuar nesse monopólio quando, por exemplo, aceita que se continue a ir para tribunal discutir a dissolução de uma empresa para assegurar o direito dos mais fracos, mas remete para uma conservatória um divórcio, sem assegurar que aí existe a competência e a sensibilidade para garantir os direitos dos menores, por exemplo. Como se um divórcio fosse um acto meramente burocrático, como se a justiça sem advogados não fosse uma farsa, não fosse a justiça de Pilatos.

A tempo inteiro

Já deixou a actividade como advogado no activo para assumir o lugar de bastonário a tempo inteiro, como prometeu?
Estou a tratar disso. Como advogado, tenho clientes e considero que defender os seus interesses pode ser incompatível com a liberdade de criticar o que entender criticar. Cada um tem o seu estilo e entendo que tenho mais liberdade para criticar uma decisão judicial se não recear que isso afecte um cliente.

É a sua profissionalização como bastonário?
Quando um advogado vai para um Governo, ou para um cargo público, suspende a sua actividade. É o que devo fazer.

Vai receber ordenado?
Isso foi deliberado há anos, num congresso de advogados, porque se considerou que um bastonário não pode responder bem às solicitações do cargo se tiver de ir a tribunal ou de redigir peças processuais, tudo com prazos apertados.

PÚBLICO | 09.12.2007 

Comentarios (13)add
... : Zé Povinho
Aplausos!...
10.Dezembro.2007
... : Socrália
Finalmente temos Bastonário
10.Dezembro.2007
... : De Trás-os-Montes
Espero que faça um bom trabalho. A profissão/classe precisa de mexer. Cuidado com a linguagem (não defende ninguém ao dizer que o cliente é "assaltado" no escritório do advogado; que deviam acabar com as férias judiciais...). Não foi por isso que votei em si...
11.Dezembro.2007
... : NMA
Pela primeira vez na vida, as afirmações públicas do Dr. Marinho merecem elogios e um juízo, no essencial, de concordância da minha parte.
Saúdo que não mantenha a afirmação de que o CSM é orgão totalitário - não porque tenha especial apreço por tal orgão, mas porque o Dr. Marinho até agora criticava ferozmente e com raiva tudo o que respeitasse ao poder judicial.
Só lamento que continue com vaguidades a atacar os Tribunais.
PF, Dr. Marinho, concretize essas faltas de respeito aos advogados nos Tribunais, com situações factuais.
PF, Dr. Marinho, não confunda violação dos direitos humanos com (alegado) excesso de reclusão: é que, não só esses números em comparação com a Turquia estarão certamente errados (também se dizia que tínhamos a taxa mais alta de prisões preventivas da Europa e já se demonstrou o contrário, cfr. RMP), como também por ser evidente, sobretudo com os novos CP e CPP, que Portugal é o paraíso dos arguidos.
11.Dezembro.2007
... : Mendes de Bragança
"Não poderemos cooperar se houver juízes que desafiem advogados para o confronto físico fora do tribunal, como já sucedeu".
Perante esta afirmação do Dr. Marinho Pinto, pergunto-lhe se já fez, como devia, a respectiva participação disciplinar contra o juiz.
Olhe que, se for verdade, esse juiz pode sofrer uma pena disciplinar muito severa.
12.Dezembro.2007
... : Zé da Tasca
Caro De Trás-os-Montes,

O "entra-se num escritório de um advogado e é-se assaltado", foi uma declaração em que o nosso Bastonário se referia a advogados brasileiros, e a propósito dos perigos da massificação da advocacia, e foi publicada pelo JN fora de contexto, sendo que já houve o exercício do direito de resposta por parte do Dr. Marinho e Pinto. Veja em http://www.marinhopinto.com/.

12.Dezembro.2007
... : Miguel Almeida : http://Macau / Cascais
Estou plenamente de acordo com o teor da entrevista.
Não votei nele mas pouco faltou.
Tinha e tem muita razão, agora não entre em excessos de protagonismo, dialogue e proponha soluções a bem dos Tribunais, da dignidade do MP e dos Advogados que não estão em sociedades de Advogados em Lisboa ou no Porto.
13.Dezembro.2007
... : RPS
Parabéns, Senhor Bastonário!
Espero que continue com esta determinação no árduo caminho que o espera.
Tem o meu apoio.
14.Dezembro.2007
... : É d!iferente!
O Dr. Marinho, tem, neste momento, o que a muitos faltou, a coragem, a determinação e, acredite-se ou não, o carinho de uma classe que andava 1/2 perdida!
14.Dezembro.2007
... : Atento
Caro Mendes de Btragança.

Infelizmente essa situação aconteceu.

Houve participação. Abertura de Instrução. Pronúncia e desistência de queixa.

Mas, isso são situações pontuais e não põe de forma alguma em causa a educação, respeito e credibilidade da grande maioria dos nossos ´Magistrados que são pessoas de bem e exercem a sua profissão com empenho e dedicação sacerdotal, lutando com grandes dificuldades de ordem logistica e estrutural como é do conhecimento de todos os profissionais do foro mas que os governantes, infelizmente, e de forma lamentável parecem crer ignorar.
16.Dezembro.2007
... : Susana
Este Antonio Marinho é o meu idolo!!!!! Nao tem medo de ser verdadeiro, nem é hipócrita como os vários elementos do governo. Até parece que ele disse alguma novidade. Por favor! Ele abriu a boca e instalam-se logo processos para averiguar o que ele diz e nao sei que... Enquanto os nossos governantes nao deixarem de ser hipocritas este país nunca irá para a frente
30.Janeiro.2008
... : FM
Pretendia fazer uma denucia de corrupção em entidades do estado como fazer?
03.Março.2008
... : Sintrinha
Faça-a ao Marinho Pinto, o guardião-mor da moralidade ps, que ele se encarregará de com grandes generalidades a propalar por todos os cantos.
03.Março.2008
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