
O presidente do conselho distrital de Lisboa (CDL) da Ordem dos
Advogados (OA) ameaçou ontem mover um processo disciplinar contra o
bastonário Marinho Pinto caso este persista em comentar publicamente
acções judiciais em curso, tal como fez relativamente ao processo Casa
Pia. "Que fique bem claro: a Justiça não é, não pode ser e não será nunca um
circo. E, por isso, pede-se bom senso, serenidade, contenção e
ponderação, para não ter que se impor a dureza da lei, a frieza da
regra e a rudeza do processo", disse Carlos Pinto de Abreu, em
declarações ao Diário de Notícias
Para o presidente do Conselho Distrital de Lisboa, "não é admissível
que qualquer advogado e, sobretudo, os mais altos responsáveis da Ordem
incumpram os seus deveres, designadamente os deveres de zelar pela
dignidade da OA, os deveres de reserva e a obrigação de não se
discutir, em praça pública, processos pendentes, que não só não se
conhecem como não se podem comentar por falta de legitimidade e
autorização legal".
Em entrevista na RTP na quinta-feira, Marinho Pinto classificou o
processo Casa Pia como uma arma de arremesso contra o Partido
Socialista. Carlos Pinto de Abreu, recorde-se, assumiu recentemente a
presidência do CDL, onde estão inscritos mais de metade dos advogados
portugueses, cabendo-lhe pugnar pelo rigor ético e deontológico da
actividade no seu conselho distrital.
"A continuar, este tipo de comportamentos gerará processos internos,
dissensões externas e fracturas permanentes que só potenciarão os
graves problemas já existentes e não resolverão quaisquer questões
essenciais da justiça, da advocacia e dos cidadãos", avisou. Em seu
entender, "os profissionais da justiça e os responsáveis por
instituições ou associações públicas, têm o dever de cumprir, e de
fazer cumprir, escrupulosamente, as regras legais e as normas
estatutárias, independentemente das posições e dos destinatários, custe
o que custar, doa a quem doer."
O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) também se
insurgiu contra tais declarações, considerando-as "pouco
responsáveis".Também o SMMP veio ontem a terreiro "repudiar vivamente"
as referências que, "de forma pouco responsável", Marinho Pinto
produziu acerca do processo Casa Pia na RTP
(ver entrevista integral em video, neste link ).
"O senhor bastonário é, antes do mais, advogado. Nenhuma norma do
estatuto a que, enquanto tal, está sujeito, lhe concede o privilégio
de, enquanto bastonário, o violar. Ao invés, particularmente se lhe
poderá exigir que o acate e que contribua para que o mesmo seja
acatado. Recordemos que o processo a que o senhor bastonário se referiu
se encontra em fase de julgamento", disse o sindicato em nota enviada
às redacções.
Contactado pela Lusa, Vitalino Canas referiu que o PS não iria fazer
comentários sobre o assunto, referindo apenas "serem coisas do passado
e que estão a ser apreciadas nos tribunais". O advogado da Casa Pia,
Miguel Matias, acusou o bastonário de "violar a independência do poder
judicial" ao falar de um processo ainda em julgamento.