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"Há uma espécie de caça à oficiosa", assume. "Não há que ter vergonha de o assumir", diz um jovem advogado que também fez parte da escala. "Num dia bom, chegam a chamar três mas o sétimo dificilmente faz uma oficiosa."
No Tribunal de Instrução Criminal (TIC) de Lisboa, pouco antes da hora do almoço, a advogada Paula Morgado, de 36 anos, termina a escala dos advogados nomeados para fazer a defesa dos cidadãos detidos e que, por falta de meios, não indicaram defensor. São as chamadas defesas oficiosas, previstas no âmbito do acesso ao direito e do apoio judiciário. Os atrasos no pagamento desta tarefa, pelo Ministério da Justiça, têm motivado insatisfação e protestos e levaram a Ordem dos Advogados (OA) a anunciar, anteontem, que vai processar o Estado para exigir o pagamento de todas as dívidas aos advogados.
Paula Morgado chegou ontem por volta das 9h ao TIC, na esperança de ser chamada para defender qualquer arguido, mas acabou por ficar três horas e meia, numa sala com outros seis colegas, sem que a presença de nenhum deles fosse solicitada. Sai com direito a receber 76 euros e meio e uma "enorme frustração".
Às 14h, novo grupo de sete advogados se sentará na sala do TIC. Organizam-se por ordem de chegada. Quando o telefone branco colocado a um canto toca chamando um causídico, levanta-se o que chegou primeiro ao tribunal. Por isso, Paula Morgado diz que se esforça sempre por chegar o mais cedo possível.
"Há uma espécie de caça à oficiosa", assume. "Não há que ter vergonha de o assumir", diz Tiago Alves, jovem advogado que também fez parte desta escala. "Num dia bom, chegam a chamar três mas o sétimo dificilmente faz uma oficiosa."
"Tive de pôr dinheiro meu"
Paula Morgado dá um exemplo da situação em que se encontram milhares de advogados destacados para as defesas oficiosas em todo o país. Conta que recebeu um "pacote" de dez processos em 2008 referentes a acções diversas, desde criminais a de família e menores. "Já concluí sete e não recebi nada. Tive de pôr dinheiro meu."
Em finais de Outubro, a advogada pediu um adiantamento de 30 por cento da quantia a que tem direito à Ordem, que, por sua vez, fez seguir o pedido para o Ministério da Justiça. "Não recebi rigorosamente nada", diz, notando que assim não pode dar os processos como concluídos.
"Cumprir a lei e pagar a horas", diz o advogado Fernando Jorge Forte, que esperou também quatro horas na mesma sala, desta vez não como oficioso mas como mandatário de um detido. Forte critica a "falta de coordenação das várias entidades e intervenientes", apontando-a como um dos factores que prejudica o sistema de apoio judiciário.
Os responsáveis da OA calculam que, no âmbito do novo Sistema do Acesso ao Direito, em vigor desde 1 de Setembro, foram reclamados 8262 milhões de euros em honorários, tendo sido pagos pelo Instituto de Gestão Financeira e das Infra-Estruturas da Justiça um total de 401.197 euros.
No final de Abril tinha vencido, ainda segundo a Ordem, uma dívida de 6623 milhões de euros. Nos termos da lei, consideram os advogados, as quantias já vencidas deverão ser pagas no prazo de 30 dias. Uma nota divulgada ontem pelo Ministério da Justiça esclarece que, este ano, já foram pagos aos advogados nove milhões de euros no âmbito do apoio judiciário. E adianta que, "conforme previsto, é dada esta semana ordem de liquidação de mais quatro milhões".
Esclarecimentos que, para o bastonário da OA, Marinho Pinto, são "conversa de mau pagador", já que estes valores se referem a dívidas anteriores, do ano passado. "A verdade é que os serviços prestados pelos advogados em Janeiro ainda não foram pagos. Estamos no sexto mês de atraso", salienta o bastonário.
PAULA TORRES DE CARVALHO | PÚBLICO | 02.06.2009
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