header image
Início seta Direito e Sociedade seta Voltar a confiar na justiça
Voltar a confiar na justiça criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
04-Jun-2008
Comunicado da Comissão Nacional Justiça e Paz (link), datado de 27 de Maio de 2008, que pretende "realçar a importância da credibilização do sistema de justiça".


«Uma panorâmica das notícias da actualidade, e das reacções de muitas pessoas perante essas notícias, transmite-nos a evidência de uma crise de confiança no sistema de justiça, por parte de muitos cidadãos e cidadãs. Há processos que se vão eternizando e cujo desfecho parece incerto, a ponto de muitas pessoas duvidarem se neles alguma vez será “feita justiça”. O acesso à justiça é oneroso e não está ao alcance das pessoas de menores recursos económicos. Cria-se a suspeita de que a capacidade económica, com a possibilidade de recurso a advogados mais combativos, possa frustrar as exigências da verdade e da justiça. Questões complexas são publicamente debatidas, muitas vezes sem o necessário conhecimento de causa, e há decisões judiciais que não são compreendidas por aparentemente contrariarem o comum sentimento de justiça.

A Comissão Nacional Justiça e Paz pretende, neste contexto e com esta nota, realçar a importância da credibilização do sistema de justiça. Um poder judicial independente e socialmente legitimado é um imprescindível pilar de um Estado de direito democrático. A tutela dos direitos fundamentais da pessoa humana exige o acesso à justiça sem discriminações. Os mais pobres, porque mais vulneráveis face à prepotência dos vários poderes, são particularmente afectados pelas disfunções do sistema judicial. Este deve desempenhar um relevante papel pedagógico de afirmação dos valores éticos que servem de alicerce à harmonia da convivência social. Uma justiça tardia com frequência deixa de ser uma verdadeira justiça, só por ser tardia.

Para readquirir a confiança no sistema judicial, todos os que nele intervêm, os decisores políticos e todos os cidadãos e cidadãs, em geral, têm um papel importante a desempenhar. Sem pretendermos ser exaustivos, aqui deixamos algumas indicações a este respeito.

Os responsáveis políticos, legisladores e governantes, deveriam evitar reformas precipitadas que não tenham na devida consideração os alertas de quem lida quotidianamente com as situações, nem deveriam tardar em emendar o que se esteja a revelar ineficaz ou contraproducente, sem esperar que os danos dessas reformas precipitadas se tornem dificilmente remediáveis. A legislação é, com demasiada frequência, pouco clara, dando azo a evitáveis divergências de interpretação, que atrasam o andamento dos processos. Deveria, também, ser mais frutuoso o diálogo institucional entre o poder político e o poder judicial, com base nas experiências de aplicação da lei e o conhecimento prático das eventuais deficiências da sua formulação.

Os magistrados não deveriam (como muitas vezes sucede) atribuir sistematicamente as culpas das disfunções do sistema à falta de recursos ou aos erros do legislador, sem atenderem ao que, mesmo em contextos que objectivamente dificultam a sua acção, cada um deles pode fazer para melhorar o funcionamento do sistema. Há quem justamente aponte, por exemplo, a tendência para retardar injustificadamente decisões difíceis, ou se escudar atrás de formalismos não essenciais para evitar tais decisões. Ou, também, a desatenção em relação à necessidade de minimizar os inconvenientes, na perspectiva do cidadão, de adiamentos, mesmo quando estes possam ser inevitáveis. Por outro lado, a actividade sindical dos magistrados, que se não rejeita, terá de respeitar o facto de se tratar de pessoas que, no exercício da sua profissão, são titulares de um órgão de soberania.

Ao respeito escrupuloso da independência dos tribunais por parte dos outros órgãos de soberania deve corresponder o respeito, por parte dos magistrados nas suas intervenções, da legitimidade própria desses outros órgãos.

Essencial ao funcionamento do sistema judicial é, num Estado de direito, o exercício correcto da advocacia. Por diversos factores, entre os quais o sacrifício de princípios deontológicos motivado pela concorrência feroz entre profissionais, assiste-se com frequência ao recurso, por parte de advogados, a expedientes processuais que se revelam meramente dilatórios e que, muitas vezes, até acabam por não se traduzir em qualquer benefício para o cliente, mas apenas em avultados custos acrescidos. A celeridade da justiça não deve ser alcançada à custa das garantias de defesa ou das exigências do princípio do contraditório, mas o recurso abusivo e injustificado a todo o tipo de expedientes processuais está, muitas vezes, na origem de atrasos perfeitamente evitáveis.

Numa democracia e numa sociedade aberta, a justiça deve ser exercida com transparência e publicidade. Não pode, por isso, negar-se a relevância do papel da comunicação social no escrutínio público da justiça. Mas à comunicação social será de exigir rigor e conhecimento de causa na abordagem das questões jurídicas. Assim como o respeito pelas regras do segredo de justiça, regras que se circunscrevem a fases processuais determinadas, não impedem a investigação jornalística por outras vias e se justificam pela garantia da eficácia da investigação processual e pelo respeito do bom nome de quem se presume inocente. Não é aceitável que se transfira para a comunicação social a sede do julgamento e condenação, como se fosse ela própria a condenar, provocando manchas indeléveis na reputação dos visados, sem as garantias de defesa de que as instituições judiciais são expressão.

Aos cidadãos e cidadãs, em geral, deverá ser pedido que não se banalize o acesso à justiça através do recurso aos tribunais. Há meios alternativos de resolução dos conflitos (como a mediação penal, entre outros) cujas virtualidades estão ainda, em grande parte, por explorar. Para aproveitar de tais virtualidades, importa superar uma mentalidade excessivamente propensa ao conflito e intransigente, centrada na visão exclusiva dos interesses próprios e cega aos interesses dos outros. A justiça pode ser alcançada sem exacerbar os conflitos, através de soluções de consenso e, sobretudo, quando, para além da reparação dos danos pessoais e sociais, se recompõem as relações quebradas pela prática de actos ilícitos. A solução dos atrasos processuais não pode depender de um aumento contínuo das despesas (pública e privada) com a justiça, mas, sobretudo, do recurso menos frequente aos tribunais, o qual deve ser reservado para situações em que, pela sua complexidade ou gravidade, o recurso a formas alternativas de resolução dos conflitos não se mostre adequado.

O nosso apelo é, pois, a que todos, e cada um, demos o nosso contributo para restabelecer a confiança na justiça. Temos plena consciência da gravidade da situação. Mas o nosso apelo é movido pela esperança, porque conhecemos o empenho e dedicação de muitos dos que trabalham nesta área e porque sabemos como os cidadãos e as cidadãs são sensíveis ao valor da justiça como alicerce da democracia.

Lisboa, 07 de Maio de 2007»

Comentarios (13)add
... : Viva o Rei!
Peço desculpa pelo que vou dizer, mas de palavras (por vezes banais, por vezes acertadas) estamos todos fartos.

A justiça não avança, porque o poder político não quer. O resto é conversa.
04.Junho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Bom texto mas (infelizmente) ainda muito longe de se concretizar e por isso mesmo utópico. Quando é que os advogados deixam de recorrer a expedientes dilatórios em busca da prescrição e para ganharem mais umas massas? Só se for quando as galinhas não tiverem dentes... Mas a culpa não é deles. É do legislador... que por vezes é... advogado.
04.Junho.2008
... : Viva o Rei!
É profundamente redutora da realidade a tese do HHHavai segundo a qual o estado da justiça se deve aos expedientes dilatórios dos advogados, na mesma medida em que o seria a afirmação segundo a qual o estado da justiça se deve aos despachos dilatórios dos magistrados e à pouca vontade de trabalhar de alguns deles.
04.Junho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Concordo, Viva o Rei, fui redutor, o resto está no texto e também subscrevo - magistrados tementes, cidadãos desinformados, jornalistas juridicamente incultos, etc., -, e desde já fica a rectificação, mas o que eu temia era que o meu amigo, e outros meus amigos que por aqui pela revista andam, reparasse na expressão "quando as galinhas não tiverem dentes", pois tratou-se de um manifesto lapso - "quando as galinhas tiverem dentes", assim é que é. Cumprimentos
04.Junho.2008
... : Lis Filipe Vieira
Eu acredito na Justiça, como hoje se viu na UEFA! Viva o SLB!!!! Dragão à segunda divisão!!
04.Junho.2008
... : Hannibal Lecter
Imaginem um carro blindado construído no século passado, já velhinho, que lá vai andando devagar, largando peças e vertendo óleo, mas mesmo assim tentando cumprir a sua missão.
Representa o poder judicial.
Agora imaginem que esse carro blindado está debaixo de fogo cerrado permanente por parte do inimigo. E o inimigo, por incrível que possa parecer, inclui exclusivamente forças do mesmo exército, como algum poder político, o governo, a imprensa, o fantástico Dr. Marinho, e inclusive até já alguns dos soldados que vão lá dentro se atrevem a dar uns pontapés na chapa, esquecendo que estão do lado de dentro.
Quase nenhum tripulante se atreve a pôr a cabeça de fora para olhar em redor, com medo de ser logo baleado.
Pergunta: como é que se pode voltar a ter confiança neste blindado ?
O primeiro passo será talvez parar de disparar contra ele. Talvez assim os mecânicos se possam aproximar para analisar os estragos e encomendar peças novas.
Ninguém vai consertar um blindado no calor da batalha.
E não parando de disparar, sem apoio logístico, não falta muito para o blindado avariar de vez...
04.Junho.2008
... : JUIZES.SEM.VOZ.PRÓPRIA
A Justiça funciona mal, porque o poder legislativo assim o quer!
É EVIDENTE!
Os Tribunais, o MP e as políicias não fazem leis, nem mandam nos Ministérios das Finanças e da Justiça.
04.Junho.2008
... : zeR0
é por leituras desassobradas como a do "... : JUIZES.SEM.VOZ.PRÓPRIA " que sigo a revista. espero que mais "alguém" a leia
cumprimentos ao dr. JTimóteo
04.Junho.2008
... : paulohipo
A metáfora do carro blindado está muito bem apanhada !!!

Parabéns Hannibal !

Cá por mim, ao cabo de quase vinte anos na profissão, tenho de me resignar a uma ideia que nunca quis aceitar, mas que cada vez mais se torna - infelizmente - evidente: pura e simplesmente não interessa ao poder económico/político (que é uma e a mesma coisa) que a Justiça funcione !

Em primeiro lugar, a justiça criminal, pois nunca se sabe quando nós (políticos/poder económico) seremos apanhados em algum escândalo sexo-financeiro-mediático.

A justiça cível (em sentido amplo) é irrelevante que funcione: o poder económico/financeiro/mediático tem meios extra-judiciais para resolver os litígios que verdadeiramente interessam, pelo que o que sobra para ir a tribunal é residual.
Só assim se compreende que não se ouçam quaisquer vozes do grande poder económico/financeiro contra esta fantochada que é a acção executiva.

Quem é verdadeiramente prejudicado com a inoperância do sistema - para além das magistraturas, a judicial em especial, face à constante e permanente mediatização daquilo que funciona mal no sistema de Justiça - são os particulares, os pequenos empresários e comerciantes que - na posição de credores - se defrontam com o pantanal que, por via legislativa, se transformou a nossa máquina judicial.

Volto ao início: não interessa que a Justiça funcione, meus senhores !
Importa descredibilizá-la, miná-la por dentro, privá-la dos mecanismos legais, financeiros e humanos, de modo a que quando algum político, financeiro, barão da comunicação social, socialite e quejandos se veja em apuros se consiga safar, se possível com ampla cobertura nos meios de comunicação (anti-)social.

É uma tarefa inglória, neste País, se magistrado, juiz em especial.
Mas também como tenho afirmado frequentemente, a culpa também é nossa, que não nos sabemos defender e, como dizia o Hannibal Lecter, alguns dos soldados que vão dentro do blindado dão pontapés na chapa do mesmo ...
06.Junho.2008
... : horacio
Exmo. Senhor Administrador
Verifico que o meu comentário de ontem foi cortado pela censura.
Eu até gostava desta revista, por me parecer bastante aberta. Concluo porém que afinal é apenas mais um blog de juízes para magistrados do M.P. e vice-versa, a dizer amen uns aos outros.
Fiquem pois então auto-elogiar-se. Eu por mim não voltarei cá (já sei que não faço falta nenhuma) .
Despeço-me citando Alexadre O´Neill, adaptado aos juízes e aos seus "colegas" do MP:

Quem nos lê a nós?
São vocês (e nós...)
Quem vos lê a vocês?.
Somos nós (e vocês...)
Tudo fica, pois,
entre nós, entre nós...

É evidente que este comentário também vai ser vítima do lápis azul; mas sempre fica "entre nós"...

07.Junho.2008
... : Administrador In Verbis
Sr. Horácio:
O seu comentário que redigiu a este item no dia 06.06 não foi cortado por qualquer censura, porque ela não existe nesta revista, mas sim porque uma parte do seu conteúdo, violava as regras estabelecidas e que já por diversas vezes foram consignadas.
Ao contrário do que afirma no seu comentário anterior (que como vê, foi publicado), aqui não há auto-elogios, bem pelo contrário, pode constatar que existem correntes de opinião bem díspares e de proveniências também muito diversas, convivendo todas elas entre si. O que não pode é ultrapassar o limite do bom senso, passando para injúria, ofensa ou afirmações gratuitas atentatórias da dignidade.
Esses comentários não são publicados, lamento, não por censura, mas para salvaguarda da dignidade, honra e bom nome, que são princípios que não podem ser violados pelo também muito importante direito à liberdade de opinião e de expressão.
Afinal, até reconheceu que "até gostava desta revista, por me parecer bastante aberta".
Continua aberta, mas com limites.
Os leitores farão cada um seu juízo face ao que escreveu.
Se aqui não quiser voltar, embora lamentando, é um direito que lhe assiste.
Se aqui quiser voltar, ainda que ninguém saiba se volte ou não, é sempre bem-vindo.
Se me permite dirigir-lhe uma sugestão, não quererá reformular o seu comentário, mantendo as críticas que ali formulou, mas retirando as palavras passíveis de ferir a honra e dignidade ? Pode crer que será imediatamente publicado, por muito crítico que seja. Pois, críticas, sobretudo se construtivas, são o motor do espírito democrático.
Independentemente do mais, resta-me agradecer pelo período que consultou esta revista, certamente com algum interesse, assim como pela colaboração pelos comentários que submeteu.
Os meus cumprimentos.

07.Junho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Ó Horácio, amigo de Hamlet, deixe-se lá de tretas e continue a comentar. Se há por aqui comentários politicamente correctos a mais, e outros que nada dizem, e isto é um facto indubitável, por vezes é só paninhos quentes para aqui paninhos quentes para ali, também não podemos atacar a honra das pessoas a nosso bel-prazer. Contudo discorde, amigo do Príncipe da Dinamarca, discorde, sobretudo quando há comentadores como eu que dizem que o grande (ou um dos grandes, vá lá) problema da Justiça são os expedientes dilatórios usados pelos senhores advogados sob o olhar complacente do legislador. Discorde, defenda a posição contrária, não fique é melindrado que não vale a pena. Agora, perdoar-me-á mas fica-lhe mal falar em lápis azul.
07.Junho.2008
... : Susana Monteiro
Fico sempre com a sensação de que quando tenho de recorrer ao tribunal para resolver alguma questão, parece que, tanto juíz, como MP e até funcionários, parecem estar a fazer um grande favor em me atenderem, como se os fosse importunar no seu sossego...como se lá estivessem e fossem pagos para fazer outra coisa qualquer que não o seu trabalho, bem feito e sem qualquer ar de enfado.

Acho bem, portanto, as pessoas passarem a usar as alternativas que têm surgido para "aliviar" os tribunais. Pode ser que fiquem tão aliviados, que já não sejam precisos para nada e possam finalmente gozar do seu sossego lazarento.
11.Junho.2008
Escreva o seu Comentario
quote
bold
italicize
underline
strike
url
image
quote
quote
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley
Smiley

busy
 
< Item anterior   Item seguinte >
Sondagem
Concorda que os gabinetes do MP sejam fora dos edifícios dos Tribunais ?
 
Fim da sondagem: 03.09.2008