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No ano em que as leis penais foram alteradas em 15 dias e os juízes
incluídos na lei de carreiras da Função Pública, os profissionais da
Justiça respondem ao ministro Alberto Costa e ao Executivo de José
Sócrates com duras críticas. Os juízes estão descontentes, o Ministério Público
também, a Polícia Judiciária protesta contra a falta de meios, os
advogados contestam a legislação e no caso dos funcionários judiciais
estamos cada vez pior.” A frase do presidente do Sindicato dos
Funcionários Judiciais (SFJ) sintetiza o clima de descontentamento das
profissões ligadas ao sector com a política de Justiça do Executivo de
José Sócrates.
A maior preocupação do Governo foi procurar
deslegitimar os juízes e o poder judicial, através de atitudes que os
tentam transformar no bode expiatório do mau funcionamento da Justiça”,
diz António Martins, que preside à Associação Sindical dos Juízes
Portugueses, lembrando a “tentativa” de integrar a magistratura na Lei
de Carreiras da Função Pública, chumbada pelo Tribunal Constitucional.
“Foi um ano em que se perdeu ou adiou a oportunidade para reformar um
sistema que precisava de uma mudança efectiva”, considera, por seu
lado, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público
(SMMP). Referindo-se às alterações às leis penais, diplomas criticados
pela maioria dos profissionais, António Cluny reitera que se “avançou
para uma reforma da investigação desadequada à criminalidade actual e
aos meios disponíveis”, esquecendo-se a “necessária e urgente” revisão
de “toda a fase do julgamento”.
“Tinha sido prudente que o poder
político tivesse tido em atenção os sinais por demais conhecidos antes
de ter efectuado a última reforma penal”, diz também Carlos Anjos, da
Associação dos Funcionários de Investigação Criminal (ASFIC) da Polícia
Judiciária, explicando que certas alterações “podem vir a pôr em causa
inúmeras investigações”.
Também o juiz Pedro Mourão, do Fórum
Justiça Independente, entende que “as normas penais podem e devem ser
aperfeiçoadas” e sublinha: “Há indicadores que nos levam a considerar
que em algumas questões se legislou em excesso e noutras por defeito”.
Quem não tem dúvidas em condenar as leis penais é Rui Rangel,
presidente da Associação de Juízes pela Cidadania: “Não deram a
resposta adequada e vieram complicar ainda mais. É preciso rever as
leis e adaptá-las à realidade da criminalidade económico-financeira.”
Já António Marinho, que assume o cargo de bastonário da Ordem dos
Advogados dentro de dias, classifica as medidas do Governo como
“pseudo-reformas cujo único objectivo é afastar os cidadãos dos
tribunais”. Quem já prometeu combater a desjudicialização da Justiça
diz que “o Estado está a demitir-se de administrar a Justiça” e que “o
Governo está em vias de falhar rotundamente”.
Mais optimista é o
ainda bastonário Rogério Alves, que, tal como António Cluny, lembra o
fracasso da acção executiva, mas diz ser “cedo” para avaliar o Governo:
Não sendo 2007 um ano de grande evolução, pode integrar-se no percurso
para uma Justiça mais moderna, se houver investimento em meios técnicos
e humanos.”
“O balanço no sector da Justiça é francamente negativo”,
conclui António Martins, mais preocupado ainda por “não vislumbrar”
mudanças no próximo ano. “Muito negativo”, reforça Rangel,
acrescentando que a “veia frenética do legislador só tem trazido
prejuízos para a Justiça”.
A revisão das novas leis penais surge,
assim, como uma das medidas necessárias. Os investigadores querem ver
também rapidamente aprovada a Lei Orgânica da PJ e a generalidade dos
profissionais defende a dotação de meios técnicos e humanos nos
tribunais.
Perguntas essenciais
- Que balanço faz do sector da Justiça no ano que
agora termina tendo em conta, nomeadamente, a entrada em vigor de novas
leis penais?
- A escalada de criminalidade violenta recomenda uma revisão urgente das novas normas penais?
- O Governo falhou na área da Justiça?
- Que medidas mais urgentes devem ser tomadas no próximo ano?
- Que apreciação faz do trabalho do procurador-geral
da República, Pinto Monteiro, e do director da Polícia Judiciária,
Alípio Ribeiro, tendo em conta as posições perante as críticas dos
operadores judiciários contra as medidas do Governo? Considera que
ambos foram isentos?
António Cluny - Pres. Sindicato Magist. Do Ministério Público
"Perdeu-se ou adiou-se a oportunidade de se reformar um sistema que precisa de uma mudança efectiva"
António Marinho Pinto - Bastonário eleito da Ordem dos Advogados
"O Estado está a demitir-se de administrar a Justiça e isso é um retrocesso civilizacional"
António Martins - Presidente da Associação Sindical dos Juízes
"A maior preocupação do Governo foi procurar deslegitimar os juízes e o poder judicial"
Rogério Alves - Bastonário da Ordem dos Advogados
"Não sendo 2007 um ano de grande evolução, integra-se no percurso para uma Justiça mais moderna"
Fernando Jorge - Pres. Sindicato dos Funcionários Judiciais
"O Governo deve assumir uma atitude de respeito pelos profissionais da área da Justiça"
Carlos anjos - Presidente da ASFIC (Polícia Judiciária)
"O balanço que fazemos do presente ano judicial não pode ser de forma nenhuma positivo"
Rui Rangel - Presidente Associação Juízes pela Cidadania
"O Governo vai sucumbindo e arrasta a Justiça para o abismo. É preciso dizer basta"
Pedro Mourão - Presidente do Fórum Justiça Independente
"Continua por resolver o problema mais sentido na Justiça: a sua morosidade"
Profissionais elogiam desempenho do PGR
O Procurador-geral da República (PGR) procurou, com
equilíbrio e oportunidade, intervir no debate propondo soluções viáveis
e necessárias à melhoria dos diplomas em causa”, diz António Cluny,
lembrando que em alguns casos a posição de Pinto Monteiro foi ouvida,
mas noutros “essenciais”, como a Lei Orgânica da PJ e a Lei do Centro
de Estudos Judiciários, isso não aconteceu.Pedro Mourão sublinha
que o PGR manifestou publicamente “incómodo” com alguns diplomas,
incluindo a reforma do Código de Processo Penal e a aplicação do regime
de carreiras da Função Pública aos magistrados, lembrando que aguarda
propostas de alterações.
Apesar de tudo, a maioria dos profissionais
faz uma apreciação positiva do desempenho do PGR, que admitiu ter
suspeitas de estar sob escuta, devido a “barulhos esquisitos” no seu
telemóvel. “A actuação tem sido francamente positiva. Sabe dançar com
mestria consoante a música.”, diz Rui Rangel, que, no caso do director
da PJ, encontra “erros e hesitações”.
Na opinião de António
Marinho, “com Pinto Monteiro a Procuradoria deixou de ser dirigida pelo
Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e este é um aspecto
muito positivo”. Também Fernando Jorge, do Sindicato dos Funcionários
Judiciais, aprova o desempenho do PGR e também do director da PJ: “O
ano teve alguns casos complicados, que ambos souberam gerir da forma
correcta, prestigiando os respectivos cargos e organismos.”
ASFC diz que a PJ teve um ano "horrível"
Se o balanço do ano de 2007 no sector da Justiça é
negativo, a ASFIC considera que quanto à PJ “é horrível”. “Não foi
resolvido nenhum dos graves problemas estruturais da instituição e
agravaram-se outros já existentes – problemas de meios, principalmente
de viaturas”, explica Carlos Anjos, que recusa comentar o trabalho de
Alípio Ribeiro: “Não fazemos considerações sobre pessoas em concreto.”
O líder sindical sublinha a espera pela Lei Orgânica e descreve o
ambiente na PJ: “Vive-se há dois anos apenas o dia-a-dia sem qualquer
perspectiva do que vai ser o futuro.”
Mapa gera expectativas
A grande expectativa para 2008 na área da Justiça é
a reorganização territorial judiciária que vai acabar com as 231
comarcas mas não fechará tribunais. António Martins admite que os
juízes estão “expectantes”, mas António Cluny já adivinha uma reforma
“orientada para uma visão privatizadora e empresarial da Justiça”:
“Parece difícil ter sucesso com uma reforma fundada numa perspectiva
política.”
CORREIO DA MANHÃ | 27.12.2007
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