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Portugal à beira de crise social criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
22-Fev-2008

Portugal à beira de crise social de contornos difíceis de prever, considera Sedes. A Associação alerta para falta de confiança nos políticos e presença asfixiante do Estado na sociedade. "O [Estado] demite-se do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados que deixam um perigoso rasto de desconfiança". Sente-se em Portugal "um mal-estar difuso" que "alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional". Este mal-estar e a "degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento". E, se essa espiral descendente continuar, "emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever". Este é um dos muitos alertas lançados pela Sedes - uma das mais antigas e conceituadas associações cívicas portuguesas -, num documento ontem concluído e dirigido ao país. Esse documento centra-se na análise da degradação da confiança no sistema político, nos sinais de crise nos valores, na comunicação social e justiça, na criminalidade, insegurança e os exageros cometidos pelo Estado.

 

Associação cívica fala em mal-estar difuso que alastra e ameaça a confiança.
Sedes alerta para crise social de contornos difíceis de prever
É um documento preocupante. Uma alerta ao país para evitar uma crise maior.
O Estado e os políticos são os principais visados

Sente-se em Portugal "um mal-estar difuso", que "alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional". Este mal-estar e a "degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento". E se essa espiral descendente continuar, "emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever".
Este é um dos muitos alertas lançados pela Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (Sedes) - uma das mais antigas e conceituadas associações cívicas portuguesas -, num documento ontem concluído e dirigido ao país.
Esta tomada de posição é uma reflexão sobre o momento que Portugal vive, com a associação a manifestar o seu dever de ética e responsabilidade para intervir e chamar a atenção "para os sinais de degradação da qualidade de vida cívica". Principais visados: o Estado, em geral, e os partidos políticos, em particular.
E para este "difuso mal-estar", frase que é o pilar de todo o documento, a Sedes centra-se em algumas questões: degradação da confiança no sistema político; sinais de crise nos valores, comunicação social e justiça; criminalidade, insegurança e os exageros cometidos pelo Estado.

Acirrar de emoções
O acentuar da "degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários" de todo o espectro político é o primeiro alerta da associação. E, aqui, os relatores do documento não têm dúvidas sobre a crise que surgirá caso não seja evitado o eventual fracasso da democracia representativa: "criará um vácuo propício ao acirrar das emoções mais primárias em detrimento da razão e à consequente emergência de derivas populistas, caciquistas, personalistas".
. E para que a democracia representativa seja preservada, a Sedes aponta três metas aos partidos: "Têm de ser capazes de mobilizar os talentos da sociedade para uma elite de serviço; a sua presença não pode ser dominadora a ponto de asfixiar a sociedade; e não devem ser um objectivo em si mesmos".
A associação considera ainda preocupante "assistir à tentacular expansão da influência partidária" - quer "na ocupação do Estado", quer "na articulação com interesses da economia privada".
Outro factor que a Sedes diz contribuir para a "degradação da qualidade da vida política" é o resultado "da combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma justiça ineficaz", que por vezes deixa a sensação de que "também funciona subordinada a agendas políticas".
Essa combinação "alimenta um estado de suspeição generalizada" sobre a classe política. "É o pior dos mundos", acrescentam. "Sendo fácil e impune lançar suspeitas infundadas, muitas pessoas sérias e competentes afastam-se da política, empobrecendo-a."
Neste capítulo, o Estado, que "tem uma presença asfixiante sobre toda a sociedade", também não é poupado: "Demite-se do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados, que deixam em muitos casos um perigoso rasto de desconfiança".
E nesta sequência de constatações sobre o comportamento dos agentes do Estado, surge pela primeira vez a palavra "corrupção". "É precisamente na penumbra do que a lei não prevê explicitamente que proliferam comportamentos contrários ao interesse da sociedade e ao bem comum.
E é justamente nessa penumbra sem valores que medra a corrupção, um cancro que corrói a sociedade e que a justiça não alcança."

Criminalidade e exageros
E depois vêm a criminalidade e os recados aos exageros do Estado directamente dirigidos à ASAE, embora esta autoridade nunca seja explicitamente citada. A Sedes não tem dúvidas em afirmar que a criminalidade violenta "progride"; que a "crescente ousadia dos criminosos transmite o sentimento de que a impune experimentação vai consolidando saber e experiência na escala da violência"; e que, enquanto "subsiste uma cultura predominantemente laxista no cumprimento da lei, em áreas menos relevantes para as necessidades do bom funcionamento da sociedade emerge, por vezes, uma espécie de fundamentalismo ultrazeloso, sem sentido de proporcionalidade ou bom senso".
"Calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas-de-berlim, colheres de pau ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária e confronte-se com o zelo que o Estado visivelmente lhes dedicou."
Por tudo isto, e para evitar que se chegue à já referida "crise social de contornos difíceis de prever", a Sedes apela depois à sociedade civil para intervir e participar "no desbloqueamento da eficácia do regime".
Mas, para que isso aconteça, será necessário que o Estado se "abra mais do que tem feito até aqui".

Prestar contas
E aqui, as principais críticas vão para os partidos. Para a Sedes, a dissociação entre os eleitores e os partidos "deve preocupar todos aqueles que se empenham verdadeiramente na coisa pública e que não podem continuar indiferentes perante a crescente dissociação entre o conceito de república e o de intervenção política".
Partidos que, de acordo com a Sedes, "têm a obrigação de prestar contas de forma permanente sobre o modo como o exercem". "Em geral, o Estado tem de abrir urgentemente canais para escutar a sociedade civil e os cidadãos. Deve fazê-lo de forma clara, transparente e, sobretudo, escrutinável. Os portugueses têm de poder entender as razões que presidem à formação das políticas públicas que lhes dizem respeito", conclui o documento.

A Sedes e os autores
A Sedes é uma das mais antigas associações cívicas portuguesas. Foi constituída em 1970 e os seus fundadores eram, como hoje, oriundos de diferentes formações académicas, estratos sociais, actividades profissionais e opções políticas.A Sedes considera que foi e continua a ser uma escola de cidadania e, ao longo da sua vida, tem tido uma forte intervenção cívica, reflectindo aos mais variados níveis o país e o mundo.O documento que o PUBLICO hoje divulga é assinado por vários economistas - alguns deles com passagens por funções governativas -, empresários e gestores de importantes empresas. São eles: Vítor Bento, M. Alves Monteiro, Luís Barata, Luís Campos e Cunha, João Ferreira do Amaral, Henrique Neto, F. Ribeiro Mendes, Paulo Sande e Amílcar Theias.

PÚBLICO | 22.02.2008 

Comentarios (10)add
... : BD
Quanto a isto, era bom que se levasse em suprema consideração as avisadas palavras do General Garcia Leandro quando ele se refere ao capitalismo extremo a que se chegou em conexão com os actos facultativos do Governo e à possibilidade de revolta iminente por parte do Povo. Recomenda-se muita atenção a isto. O Poder tem de esquecer mais o défice e olhar mais para as gentes antes que seja tarde.
22.Fevereiro.2008
... : Alberto Ruço

Os valores são poderosas forças invisíveis de coesão social porque existem como ideais de acção prática no espírito dos cidadãos.
A vida quotidiana desses cidadãos reflecte esses valores.

Quando era rapaz ensinavam-nos a respeitar a palavra dada, a cumprir os compromissos; hoje não cumprir é esperteza negocial ou modo de vida.
Ensinavam-nos a ser verdadeiros, a não mentir; hoje a mentira é algo natural que se usa como outra coisa qualquer desde que sirva os fins tidos em vista, podendo ser até habilidade ou boa prática política.
Ensinavam-nos a respeitar os mais velhos, especialmente os idosos; hoje, não raro, ouvimos dizer que os filhos e netos batem nos pais e avós .
Ensinavam-nos a reconhecer os erros e a tomar emenda para o futuro; hoje desculpabiliza-se e converte-se o transgressor em «coitadinho», vítima não se sabe bem de quê.
Ensinavam-nos a ser solidários com os outros; hoje burla-se o vizinho, pois está mais à mão.
Não nos ensinavam a respeitar os professores, porque o desrespeito pelos professores não passava pela cabeça de ninguém; hoje há pais e alunos que injuriam, ameaçam e até batem nos professores.

Não era só a família que ensinava assim. Eram também os amigos, os vizinhos, a escola, os livros, a sociedade.
O que é que hoje a família ensina; os amigo e vizinhos ensinam; a escola ensina; os livros ensinam e a sociedade nos ensina?

Quais são os valores comunicados por aqueles que se dirigem aos outros, especialmente os nossos governantes; os que aparecem na televisão, escrevem nas revistas e jornais, fazem a publicidade, etc. ?

22.Fevereiro.2008
... : Barracuda
Se não fosse a nossa covardia cívica há muito que terámos moscas por cordas. Assim, o charlatanismo e o sebastianismo acabam sempre por levar a melhor.
22.Fevereiro.2008
... : Um cidadão
Penso que notícias como essas:

"Prison term in VW corruption case
Klaus Volkert, the former head of Volkswagen's employee council, has been sent to jail for two years nine months for his role in a corruption scandal."

ou

"'NatWest Three' head for prison
Three British bankers have been sentenced to 37 months in prison each for their role in a multi-million pound fraud linked to US energy firm Enron." in http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/default.stm

escritas e veículadas nos jornais portugueses, talvez possam apaziguar os ânimos do povo.
22.Fevereiro.2008
... : Obserador
Creio também que "degradação" instigada pelos actuais governantes pode desencadear forças negativas devastadoras. Não basta ser determinado. A deteriminação sem "reflexão" e sem bases consensuais racionais ... é um grav´ssimo defeito que nos últios anos em Portugal tem passado por virtude. O "Cosmos" não para e os erros dos Governantes pagam-se muito caro... elos mais pobres. Mesmo que seja em nome destes e com o eu apoio que que a ingorância determinada se imponha...
24.Fevereiro.2008
... : Socrália
Inicia-se o período da colheita dos frutos da politica que foi feita no sentido de descrebilizar funções essenciais como ensino, justiça e outras.
Isto de governar semeando a inveja, ou seja, dividir para reinar pode tornar-se explosivo.
É bom que os cidadãos percebam que há uma relação de causa e efeito em tudo isto e que os politicos " ousados e corajosos" quando se forem embora, nós, os cidadãos, cá ficamos para continuar a pagar a factura com sacrificios. Aliás, até o nosso Presidente da República nos manda trabalhar mais. De facto, nós os cidadãos devemos trabalhar mais, à imagem do exemplo (claro) dos politicos, pois, a causa da encruzilhada a que chegamos não se deve aos politicos e politicas, antes, aos pobres malandros dos cidadaõs !!
25.Fevereiro.2008
... : Lopes-da-Silva-in-Alcogulhe
-ismo é o que dá. Pois por vezes, até interssantes conversas, e prontos (!) lá se foi...o que raio o -ismo faz não sei...aliás -mente que assim certas coisas acabam por acontecer.
Lembram-se do "eles falam, falam, falam...e n dizem nada"?
25.Fevereiro.2008
... : Maurras-en-Marrazes
Num país de homens pequenos, há crises.
*
Quando o Pensamento é grande, grande é a história. o Cronos ensina mais sobre a Aesthesis.
Crises têm os fracos.
Crises têm os sem-referentes. Os que vão ao dicionário...
Numa Nação, em que o contrato é com o tempo e a Memória, é com o neto e o avô, a crise é uma ligeira gripe.
Portugal vive sob o paralelo da mediocridade das elites. É uma consequência da maioria...
Portugal sofre de complexo de édipo, precisa de um paizinho...é um facto: Afonsos, Joões, Salazares, Cavacos..., o actual primeiro-ministro é só um pequeno porto.Aguentem-se porque o quiseram.
26.Fevereiro.2008
... : sempre na mesma
Mudanças pacificas são utópicas.. Somos de brandos costumes mas tudo tem um limite..Toca a andar para a frente! Só me vem à memória as portagens da 25 de Abril.. Só falamos mal de tudo e todos e não agimos. Laissez faire Laissez passé. Ainda andamos no Iluminismo??? Será o que? Neo despotismo, Neo Oligarquia, Monopólios ... temos 2 opções: pela força ou pela omissão (veja-se o significado do voto em branco). Queremos ver os políticos incompetentes no Banco dos Réus!! E não as suas pseudodespromoções para reformas principescas ou para altos cargos na administração de empresas Públicas! Isto vai acabar mal.. Vai vai... Pelo menos no Brasil rolam cabeças... Serão eles que estão no 3º mundo??
27.Fevereiro.2008
... : Aguia
Pois bem, sempre se dirá que tudo o que foi dito e todas as criticas são de veras construtivas... mas construtivas de quê? Falamostodos que isto está mau... Mas será que alguém se lembrou se iniciar algo pareceido com uma revolta popular... pois é do povo que se trata...

08.Março.2008
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