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O Diário de Notícias traz na edição de hoje uma entrevista a Luc Ferry, filósofo francês, que no Porto, falou da crise da democracia e apontou a globalização como responsável pelo esvaziamento do poder dos políticos.
Para este filósofo, "os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem, fazem comunicação. O essencial da guerra do poder político é ter uma boa imagem".
Tem reflectido muito sobre o futuro da democracia. Quais são as ameaças ao sistema democrático?
A principal ameaça à democracia é ela própria. Hoje, as autoridades políticas não têm poder suficiente para fazer as mudanças, as pessoas não sabem, mas a verdade é que a globalização veio transformar muita coisa. Muitas das prerrogativas que pertenciam aos políticos são hoje exteriores à sua competência de políticos.
Quais?
A Internet, os mercados financeiros, as deslocalizações. Tudo isso enfraquece o poder político a nível nacional.
Os políticos perderam o poder?
A globalização não é um problema Norte/Sul, de os mais ricos ficarem mais ricos e os mais pobres mais pobres. O verdadeiro problema é que ela retira poder aos homens políticos de cada nação. Os mercados financeiros vieram retirar poder ao ministro da Economia português e ao francês também. A democracia prometeu-nos que iríamos fazer a nossa própria história, mas muito do que se decide é exterior à esfera nacional.
O poder dos políticos não é real?
O que lhes confere algum poder é a mediatização. Os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem, fazem comunicação. O essencial da guerra do poder político é ter uma boa imagem.
Apenas imagem?
A verdade é que os políticos passam 99 % do tempo nos ministérios a bater-se pela imagem e só 1% a mudar a realidade. A mundialização retirou poder e a mediatização extrema transformou os ministérios em agências de publicidade.
Como já disse várias vezes, os políticos têm de ser populares para ser eleitos e depois não conseguem ser impopulares para fazer as reformas...
Sim , são como as pessoas que vão tomar banho no mar. Vão entrando devagarinho. Se a água está fria, recuam e voltam a entrar. Começam a fazer reformas na saúde, na educação... Quando as manifestações começam, fazem um recuo.
As pessoas percebem. Isso afasta- as da política?
Não gostam. Se compararmos o que se passa agora com a década de 30, na Europa, dizia-se que os políticos são uns mentirosos, não cumprem o que prometem, metem dinheiro ao bolso...
Voltamos a esse estado de espírito?
Não, não é a mesma coisa. Mesmo quando os políticos são boas pessoas, honestos, não têm poder para agir.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 16.01.2007 | TEXTO INTEGRAL
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