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16-Jan-2007

ImageO Diário de Notícias traz na edição de hoje uma entrevista a Luc Ferry, filósofo francês, que no Porto, falou da crise da democracia e apontou a globalização como responsável pelo esvaziamento do poder dos políticos.
Para este filósofo, "os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem, fazem comunicação. O essencial da guerra do poder político é ter uma boa imagem".


Tem reflectido muito sobre o futuro da democracia. Quais são as ameaças ao sistema democrático?
A principal ameaça à democracia é ela própria. Hoje, as autoridades políticas não têm poder suficiente para fazer as mudanças, as pessoas não sabem, mas a verdade é que a globalização veio transformar muita coisa. Muitas das prerrogativas que pertenciam aos políticos são hoje exteriores à sua competência de políticos.

Quais?
A Internet, os mercados financeiros, as deslocalizações. Tudo isso enfraquece o poder político a nível nacional.

Os políticos perderam o poder?
A globalização não é um problema Norte/Sul, de os mais ricos ficarem mais ricos e os mais pobres mais pobres. O verdadeiro problema é que ela retira poder aos homens políticos de cada nação. Os mercados financeiros vieram retirar poder ao ministro da Economia português e ao francês também. A democracia prometeu-nos que iríamos fazer a nossa própria história, mas muito do que se decide é exterior à esfera nacional.

O poder dos políticos não é real?
O que lhes confere algum poder é a mediatização. Os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem, fazem comunicação. O essencial da guerra do poder político é ter uma boa imagem.

Apenas imagem?
A verdade é que os políticos passam 99 % do tempo nos ministérios a bater-se pela imagem e só 1% a mudar a realidade. A mundialização retirou poder e a mediatização extrema transformou os ministérios em agências de publicidade.

Como já disse várias vezes, os políticos têm de ser populares para ser eleitos e depois não conseguem ser impopulares para fazer as reformas...
Sim , são como as pessoas que vão tomar banho no mar. Vão entrando devagarinho. Se a água está fria, recuam e voltam a entrar. Começam a fazer reformas na saúde, na educação... Quando as manifestações começam, fazem um recuo.

As pessoas percebem. Isso afasta- as da política?
Não gostam. Se compararmos o que se passa agora com a década de 30, na Europa, dizia-se que os políticos são uns mentirosos, não cumprem o que prometem, metem dinheiro ao bolso...

Voltamos a esse estado de espírito?
Não, não é a mesma coisa. Mesmo quando os políticos são boas pessoas, honestos, não têm poder para agir.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 16.01.2007 | TEXTO INTEGRAL

Comentarios (1)add
... : LSM.
Recordo-me do que li em Outubro no blogue do verbo jurídico

Políticos são mentirosos profissionais. Mentem habilmente e têm consciência disso. Não estão preocupados em cumprir promessas. Mentem para se dar bem. Quando acreditam na própria mentira, seu poder de persuasão se torna infinitamente maior."

(Entrevista ao filósofo David Livingstone Smith, à revista Veja (Brasil), n.º 1978, de 18.10.2006)
16.Janeiro.2007
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