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Meios alternativos só tiraram dos tribunais 26 mil processos. São vistos como um contributo para descongestionar
os tribunais, mas num mar de centenas de milhar de processos pendentes,
os casos resolvidos em sistemas alternativos ainda são uma gota de água.
São
uma das apostas do Governo na área da justiça, mas os meios de
resolução alternativa de litígios estão ainda longe de dar o contributo
desejado para libertar os tribunais das centenas de milhar de processos
que todos os anos ficam pendentes. No conjunto, desde que os vários
sistemas foram criados, permitiram resolver cerca de 26 mil casos. Uma
gota de água, comparando, por exemplo, com o mar de 470 mil processos
cíveis que, segundo as últimas estatísticas do Ministério da justiça,
estavam por resolver em todo o País no final de 2006.A relativa
juventude de alguns dos sistemas de resolução alternativa de litígios,
a sua pouca expressão numérica, mas também a ainda reduzida abrangência
geográfica justificam, em parte, estes números. Estes, correspondem ao
somatório dos casos solucionados nos 19 Julgados de Paz e nos oito
centros de arbitragem de conflitos apoiados pelo Ministério da justiça,
ou resolvidos nos sistemas de Mediação Familiar e Laboral, que
funcionam, para já, em apenas algumas regiões do País.
O mais antigo
dos meios de resolução de litígios, os julgados de Paz, contribuiu com
a principal fatia de casos retirados aos tribunais. Desde 2002, data da
criação das primeiras instituições deste sistema, o número total de
processos entrados acendeu a cerca de 19 mil.
Nos centros de
arbitragem apoiados pela tutela entraram, em 2006, 6.600 processos. Por
seu turno, desde que começou a funcionar, o sistema de Mediação Laboral
contou com cerca de 200 de pedidos de intervenção, enquanto que à
Mediação Familiar chegaram 247.
Muitas reticências
Entre os operadores judiciais,
a bondade deste tipo de sistemas alternativos não é consensual. António
Gomes da Cunha, presidente da Câmara dos Solicitadores, considera
genericamente positiva a existência destes meios de mediação e
conciliação, embora encare com pouco entusiasmo a prometida criação de
centros de arbitragem no campo da acção executiva.
Já o presidente
do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Cluny,
considera que estes sistemas pouco têm ajudado a descongestionar os
tribunais. Por outro lado, sublinha que o Governo acabou por perder a
oportunidade de colocar esta rede de acesso à justiça no renovado mapa
judicial. No mesmo sentido, António Martins, presidente da Associação
Sindical de Juízes, sustenta que a estratégia criada pelo Executivo não
foi a mais correcta. Como defende, em vez de vias alternativas, que
pouco terão ajudado a reduzir as pendências, deveria ter sido criado
uma rede complementar ao actual sistema judicial.
São conhecidas as
muitas reticências com que o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho
e Pinto, condena o que designa por desjudicialização da justiça. O
jurista está contra a retirada de diferendos dos tribunais e elegeu a
contestação a esta bandeira do Governo entre as prioridades do seu
mandato.
Apesar das reticências dos operadores judiciais, no
Ministério da Justiça a palavra de ordem é dar continuidade "à política
apresentada e aprovada na Assembleia da República". A opinião da equipa
de Alberto Costa é de que os mecanismos alternativos aos tribunais
"contribuem para o descongestionamento dos sistema judicial, permitindo
que os litígios possam ser resolvidos noutras instâncias, de forma mais
simples e mais barata".
Operadores criticam arbitragem na acção executiva
A proposta de lei que abre as portas à criação de
centros de arbitragem na área da acção executiva já foi promulgada e
entregue para publicação em Diário da República. Segundo fonte do
Ministério da justiça, as alterações ao regime que foram propostas pelo
Governo deverão entrar em vigor ainda em 2008 ou, o mais tardar, no
início do próximo ano.
A lei de autorização legislativa já aprovada
pela Assembleia da República e enviada para promulgação estabelece que
os actos do processo de execução possam ser da competência do próprio
centro de arbitragem ou de agentes de execução.
"A regulamentação da
matéria referente aos Centros de Arbitragem definirá os requisitos
mínimos para a contratação dos recursos humanos pelos centros, a qual
implicará sempre uma formação exigente, referiu ao Jornal de Negócios
uma fonte oficial do Ministério tutelado por Alberto Costa.
"Só
lendo, porque ouvindo ninguém acredita." Para António Cluny, a criação
de centros de arbitragem na área da acção executiva é algo que não faz
sentido. "Se já tenho uma decisão, depois vou arbitrar essa mesma
decisão?", questiona o presidente do Sindicato dos Magistrados do
Ministério Público.
Opinião idêntica é a de António Martins,
presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, de que esta
nova medida não "tem sentido rigorosamente nenhum", uma vez que isto
significará que ainda existe uma situação de litígio.
António Gomes
da Cunha, presidente da Câmara dos Solicitadores, é particularmente
crítico em relação a esta matéria. Nomeadamente por não compreender que
outros operadores judiciais, que não os solicitadores de execução ou os
advogados, possam intervir na área da acção executiva. Contudo, a
principal reserva deste dirigente vai para a possível abertura da área
de intervenção em causa a entidades privadas, tal como está previsto
pela proposta de lei que já foi aprovada.
De acordo com a mesma
fonte do Ministério da justiça, a matéria respeitante aos Centros de
Arbitragem "é uma das importantes" do futuro decreto-lei relativo à
acção executiva. Esse mesmo diploma preverá o tempo adequado para a
elaboração da regulamentação, para a criação dos centros e para a
formação dos recursos humanos.
Os sistemas mais recentes
• Até final do ano a mediação Laboral deverá estender-se a todo o País.
• O Sistema de mediação Penal está em Aveiro, oliveira do Bairro, Porto e Seixal.
• As regras para a arbitragem na área da Acção Executiva vão ser definidas até ao início de 2009.
Opinião dos actores judiciais
Complemento, não alternativa
António
Martins, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses
considera que o sistema de resolução alternativa de litígios poucos
reflexos terá produzido no que diz respeito à redução da carga
processual que afecta os tribunais portugueses. Na sua opinião, a
arbitragem, a conciliação e a mediação deveriam funcionar não como um
meio alternativo aos sistema judicial, mas sim como um sistema
complementar.
Crítico da mediação laboral
António Cluny,
presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, critica
o sistema de Mediação Laboral, nomeadamente no que diz respeito ao que
está legislado relativamente a situações de sinistralidade. No caso de
mediação de um eventual acidente de trabalho, considera que serão dadas
armas desiguais a um trabalhador que se sente, sem acompanhamento
jurídico, frente aos representantes de uma empresa seguradora.
Contra a 'desjudicialização’
António
Marinho e Pinto é um conhecido adversário do que designa por
'desjudicialização’ da Justiça. Após a sua tomada de posse como
bastonário da Ordem dos Advogados, os juristas de Coimbra assumiu mesmo
como uma bandeira prioritária a contestação aos sistemas alternativos
aos tribunais. É particularmente crítico da abertura de áreas judiciais
a privados, área em que contesta sobretudo a existência de centros de
arbitragem.
Entrada de privados arriscada
António Gomes da
Cunha, o presidente da Câmara dos Solicitadores, considera positiva a
existência de meios alternativos de resolução de litígios, embora
admita que pouco terão contribuído para a redução da carga processual
nos tribunais. Contudo, no que diz respeito à acção executiva, diz que
a criação de centros de arbitragem para esta área não agrada aos
solicitadores. Mais ainda, não vê com bons olhos a abertura deste tipo
de centros a entidades privadas com interesse directo nas áreas que
arbitram.
JORNAL DE NEGÓCIOS | 14.04.2008
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