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Apesar de 20
autocarros terem sido retidos pela polícia nas portagens de Aveiras, na A1,
alegadamente para inspecções à presença de cintos de segurança nas
viaturas, culminando
semanas de protestos, entre 80 a 100 mil professores manifestaram-se
este sábado em Lisboa, numa iniciativa a que deram o nome de Marcha da
Indignação. No final do desfile, o amplo espaço do Terreiro do Paço
encheu-se de negro, a cor da roupa dos docentes em luto, e do branco
das bandeiras dos sindicatos
Os
sindicatos garantem que se trata da maior manifestação de sempre na
Educação e um dos maiores protestos dos últimos anos em Lisboa. Segundo
a PSP, a Marcha da Indignação juntou 80 mil professores, mas os
organizadores garantem que mais de cem mil docentes participaram na
iniciativa, que tingiu de negro as ruas do centro de Lisboa.
No
discurso que proferiu no final do desfile que ligou o Marquês de Pombal
ao Terreiro do Paço, Mário Nogueira, dirigente da Fenprof e porta-voz
da plataforma sindical, garantiu que "mais de um terço" da classe
profissional participou no protesto de hoje - um anúncio que foi
recebido com um forte aplauso pelos manifestantes.
Por seu lado,
a PSP de Lisboa admite que o protesto juntou 80 mil professores, um
número que ainda assim supera as expectativas iniciais dos sindicatos,
que apontavam para 60 a 70 mil participantes.
A cabeça do
desfile chegou ao Terreiro do Paço cerca das 16h30, mas mais de duas
horas horas depois eram ainda milhares os manifestantes que chegavam ao
local, onde decorrem os discursos finais. Cerca das 18h50, o Terreiro
do Paço encontrava-se praticamente cheio, enquanto uma densa mole
humana preenchia ainda os últimos dois quarteirões da Rua do Ouro.
O
longo cortejo que durante toda a tarde vestiu de negro o centro de
Lisboa começou a desenhar-se à hora de almoço, na rotunda do Marquês e
no Parque Eduardo VII, local onde muitos professores aproveitaram para
almoçar, depois de horas de viagem. A grande maioria dos manifestantes
viajou nos mais de 600 autocarros fretados pela organização para
transportar os docentes, oriundos do Norte ao Sul do país.
A
longa marcha, antecedida por um minuto de silêncio, partiu cerca das
15h00 mas, meia hora depois, apenas o sector de Lisboa e Vale do Tejo
tinha entrado na Avenida da Liberdade, enquanto os docentes do Sul e
Ilhas e da região Norte se acotovelavam ainda na rotunda e na vizinha
Avenida Fontes Pereira de Melo.
Na frente do protesto,
caminhavam os dirigentes das dez estruturas que integram a plataforma
sindical, encabeçados por uma faixa onde podia ler-se: “Pela dignidade
da carreira docente, contra a precariedade”. Atrás, acotovelavam-se
milhares de professores, na sua maioria mulheres, empunhando bandeiras
e cartazes, muitos com referências às escolas onde leccionam. (...)
A presença policial ao
longo de toda a manifestação foi reduzida, mas no final da
concentração, Mário Nogueira disse ter recebido informações de que 20
autocarros foram retidos pela polícia nas portagens de Aveiras, na A1,
alegadamente para inspecções à presença de cintos de segurança nas
viaturas.
Entretanto, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, que foi alvo
dos protestos dos professores à entrada para uma reunião sobre os 3
anos de Governo, ontem à noite em Chaves, respondeu com
acusações aos manifestantes de estarem a levar a cabo uma intimidação
antidemocrática, reivindicando ao mesmo tempo o estatuto de lutador
pela liberdade. Augusto Santos Silva
atribuiu o combate pela liberdade apenas a "históricos" do PS. O
ministro acusou ainda os manifestantes de "nem sequer saberem
distinguir entre Salazar e os democratas" e de nem terem "lutado contra
o fascismo". Reagindo às afirmações, Luís Filipe Menezes (PSD) afirmou que Santos Silva tem um percurso político «vindo de uma área que no passado também queria impôr ditaduras».
Texto PÚBLICO e RTP | FOTO: Público | 08.03.2008
Avaliação
«Não é possível apoiar a ministra por inteiro, nem criticá-la por
atacado. O seu legado de medidas, ideias e objectivos tem de tudo, do muito bom
(a consolidação do cargo de director de escola, os contratos de três anos a
favor de um princípio de estabilidade dos professores), ao muito mau (o
sistema de avaliação, o regime de faltas dos alunos).
Boas ideias, simples e necessárias, como fechar as escolas mais tarde e criar
aulas de substituição, coexistem com propostas absurdas, como a de fazer
intervir os pais na avaliação dos docentes ou de contar as notas dos alunos
para a folha de serviços do professor. Como há também omissões dignas de
recordação, em particular a aparente recusa de proceder, dentro da legislatura,
à entrega das escolas às comunidades locais, às autarquias e às comunidades
educativas (professores, pais e autarcas).
A persistência de um modelo de educação integrada, unificada e centralizada é
não só a génese de inúmeras deficiências actuais, como também a razão de ser da
dificuldade ou da impossibilidade de levar a cabo as reformas úteis e
necessárias. É também a causa da transformação dos problemas de educação em
guerra social nacional.
O elemento essencial das reformas de Maria de Lurdes Rodrigues consistiu, até
hoje, na alteração da relação de forças dentro da educação. Em termos simples,
retirou aos sindicatos uma parcela importante do poder que, sob várias formas,
detinham até agora. Esta é a sua força. Nada seria possível fazer sem a remoção
prévia da tenaz sindical que, sob múltiplas formas, mantinha a educação e o
ministério como reféns.
Mas essa reforma, mais propriamente política, seria ineficaz e apenas adjectiva
se não fosse completada por alterações importantes e razoáveis nas questões
substantivas: a gestão do sistema, o modelo de organização, a definição de
novos conteúdos curriculares e dos manuais, entre outras. Esta a sua fraqueza.
O que se passa nas ruas do país tem, evidentemente, conotações políticas. Não
podia deixar de ser. A educação é um tema político de primeira importância.
Aqueles que, no Governo e alhures, denunciam a ingerência de
"políticos" e "partidos" avançam um argumento gasto e
míope. Mas também é verdade que a contestação ultrapassou largamente as
fronteiras da política pura e do sindicalismo, para se tornar também profissional
e social. O Governo já percebeu isso, mas persiste em negar a evidência, na
esperança de comover os pais, em particular, e a "maioria
silenciosa", em geral.
Daí o ter transformado os professores, todos os professores, em vilões. A atitude não é
inédita e não merece que com ela se perca tempo.
O movimento dos professores tem muitos objectivos: o director da escola, o
conceito de autonomia, o estatuto da carreira docente e outros. Além da parcela
de poder sindical. Acontece que os professores têm algumas razões. E a ministra
também. O facto de se ter declarado guerra entre aqueles e esta é infeliz, pois
impede detectar as razões que assistem uns e outra. Infelizmente, é assim a
luta das classes e das instituições. É frequente perder-se a semente no meio do
joio.
A este propósito, sublinhe-se um erro decisivo na estratégia do Governo, não se
sabe se da autoria da ministra, mulher tranquila, se da responsabilidade do
primeiro-ministro, homem crispado. A ausência de vontade experimental, ou de
estratégia empírica, esteve evidente desde o início. O Governo queria organizar
uma cruzada, fazer tudo ou nada, agir por enxurrada e realizar tudo ao mesmo
tempo, em todo o sítio e para toda a gente. Com este método, os erros tomam uma
dimensão colossal e torna-se impossível corrigir o que quer que seja.
O sistema de avaliação que a ministra pretende impor e que os sindicatos
recusam é apenas um dos temas de contestação. Mas é o que tem surgido com mais
evidência. A coberto de uma virtude indiscutível, a ideia de avaliação não é
recusada por ninguém. É de bom-tom dizer que se é "a favor da avaliação,
mas contra esta avaliação". Para todos, ou quase, é uma espécie de
santo-e-senha de honorabilidade. Acontece que não é. A palavra, o conceito, o
mito e o tique nasceram há vinte ou trinta anos. Em Portugal e na Europa.
Criado por burocratas e tecnocratas, os defensores da avaliação acreditam que
um sistema destes promove a boa educação, melhora o ensino, castiga os maus
profissionais, detecta os talentos, permite corrigir erros e combate o
desperdício. Na verdade, o sistema e a sua ideologia, que infestaram o
Ministério da Educação, são próprios de uma educação centralizada, integrada e
uniforme. Na impossibilidade humana de "gerir" milhares de escolas e
centenas de milhares de professores, os esclarecidos especialistas construíram
uma teoria "científica" e um método "objectivo" com a
finalidade de medir desempenhos e apurar a qualidade dos profissionais. Daí os
patéticos esquemas, gráficos e grelhas com os quais se pretende humilhar,
controlar, medir, poupar recursos, ocupar os professores e tornar a vida de
toda a gente num inferno. O que na verdade se passa é que este sistema implica
a abdicação de princípios fundamentais, como sejam os da autoridade da
direcção, a responsabilidade do director e dos dirigentes e a autonomia da
escola. O sistema de avaliação é a dissolução da autoridade e da hierarquia,
assim como um obstáculo ao trabalho em equipa e ao diálogo entre profissionais.
É um programa de desumanização da escola e da profissão docente. Este sistema
burocrático é incapaz de avaliar a qualidade das pessoas e de perceber o que os
professores realmente fazem. É uma cortina de fumo atrás da qual se escondem
burocratas e covardes, incapazes de criticar e elogiar cara a cara um
profissional. Este sistema, copiado de outros países e recriado nas alfurjas do
ministério, é mais um sinal de crise da educação. Mais do que dos sindicatos ou
dos professores, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues é vítima da 5 de Outubro».
ANTÓNIO BARRETO | PÚBLICO | 09.03.2008
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