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O fisco não está a fazer, nem vai fazer, cruzamentos de IRS entre os
rendimentos dos senhorios e as rendas pagas pelos inquilinos. Por
outras palavras: os proprietários de andares de habitação ou de lojas
comerciais só declaram - no modelo 3 do imposto - os rendimentos
provenientes das rendas se assim o entenderem. Está aberta a porta para
a fuga e fraude fiscal, isto porque o fisco não possui aplicações
informáticas que detectem desfasamentos nas declarações anuais entre
senhorios e inquilinos. Nas Finanças, às questões colocadas pelo DN, a
resposta foi o silêncio.
Por lei, os senhorios têm de preencher a declaração F do modelo 3 do
IRS , relatando os rendimentos recebidos durante o exercício anual.
Também os arrendatários têm de indicar o número de contribuinte do
senhorio ao preencher os campos referentes às deduções das rendas à
colecta.
Apesar destas imposições de preenchimento dos formulários, o cruzamento
informático não é processado. De acordo com fontes da administração
fiscal, com a ausência de cruzamentos informáticos, estima-se que
milhares de senhorios não declaram os rendimentos provenientes dos
alugueres de habitações ou lojas. "Um hábito que já vem de longe", como
afirmam vários funcionários do fisco.
O Estado acaba por perder dinheiro por duas vias. É que, para além da
fuga de rendimentos ao imposto, os contribuintes que pagam rendas
habitacionais (inquilinos) usufruem de uma dedução à colecta do imposto
- (ver fac-símile).
Ou seja, como a máquina fiscal não controla os rendimentos, o princípio
da redistribuição social é penalizado pela falta de controlo no
imposto, acabando os cofres do Estado por saírem defraudados "em
milhões de euros", com os senhorios a serem alvo de taxas de IRS mais
baixas e a beneficiarem nos reembolsos de imposto.
A probabilidade de os senhorios em falta serem apanhados pelo fisco é
"muito baixa", de acordo com funcionários da administração fiscal. Isto
porque sem cruzamentos informáticos os serviços do fisco não conseguem
lidar manualmente com milhares de matrizes do IRS. E se o senhorio não
preencher os campos respeitantes aos rendimentos prediais, então o
sistema de controlo permanece "cego" durante alguns anos.
As Finanças também se recusaram a comentar a ausência de controlo da
máquina fiscal aos senhorios. O Executivo também não possui estimativas
exactas sobre os montantes de fuga e fraude fiscal no IRS.
Mas entre os fiscalistas contactados pelo DN é consensual que se trata
de um dos impostos mais difíceis de administrar, já que as fugas ao IRS
podem ter várias origens. Acresce que nos últimos anos o fisco
concentrou a informatização na "administração do imposto", em vez "de
tapar vias de fuga e fraude fiscal".
Para este ano, graças aos salários e rendimentos (juros, de acções)
auferidos no ano passado, as Finanças tencionam recolher mais de 9,2
mil milhões de euros, após uma devolução de 1,8 mil milhões de euros em
reembolsos. É um crescimento de 5,5% face à captação de 2007, explicado
pela actualização dos abatimentos à colecta ao nível da inflação e por
um aumento da carga fiscal de algumas classes de pensionistas. Este
montante de IRS - quase 25% dos impostos arrecadados - é o suficiente
para liquidar 44,3% dos salários dos funcionários públicos ou então
fazer face a cerca de 30% das reformas, pensões, subsídio de desemprego
e outras prestações sociais.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 14.03.2008
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