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Corrida às reformas na função pública criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
27-Mar-2008
Desde que as novas regras de aposentação entraram em vigor, chegaram 1.500 pedidos de reforma aos balcões da Caixa Geral de Aposentações (CGA). O Diário Económico teve acesso aos dados do Ministério das Finanças e estes mostram que houve um aumento de cerca de 40% face à média anual - uma corrida às reformas que poderá ajudar o Governo a aproximar-se da meta de redução de 75 mil funcionários até 2009.

"À falta de melhor explicação, o acréscimo de pedidos parece representar uma reacção contra as incertezas que existem quanto às reformas no futuro", explica um especialista em administração pública ao Diário Económico. 'Apesar das penalizações, as pessoas poderão pensar que compensa sair do activo agora e libertar-se das incertezas’, concretiza. O efeito psicológico da insegurança quanto ao valor da pensão no futuro parece estar a abater-se sobre o sector público - aquele que tradicionalmente sempre foi considerado como o que dá mais garantias aos trabalhadores. Desde 21 de Fevereiro deste ano, e com retroactivos a Janeiro, as reformas do Estado ficaram facilitadas. Agora já não é preciso ter 37 anos de serviço para pedir a reforma antecipada: bastam 33 anos. No entanto, como a sustentabilidade do sistema tem de ser assegurada, existem penalizações para quem quer deixar de trabalhar antes de ter alcançado a idade legal (que em 2008 é de 61,5 anos mas que aumenta à razão de seis meses por cada ano, até 2015). Por cada ano a menos na idade, o valor da pensão é reduzido em 4,5%.

Pedidos de reformas devem continuar a aumentar durante este ano
"É normal que os pedidos aumentem até ao final do ano", refere João Bilhim, professor especializado em gestão e administração pública do Instituto Superior de Ciências Sociais e
Políticas. A nova lei das reformas (lei 11/2008 de 20 de Fevereiro) permite que até 31 de Dezembro deste ano quem tenha 33 anos de serviço possa antecipar a reforma sem ter de recorrer à junta médica, com uma penalização mínima", defende o professor catedrático. "É uma janela de oportunidade para a saída, é pegar ou largar", acrescenta.
O objectivo das novas regras é, por um lado, aproximar as condições do sector público ao sector privado - uma convergência que deverá estar concluída em 2015, altura em que será necessário completar 65 anos para ir para a reforma.

A estratégia seguida pelo Executivo de José Sócrates para emagrecer a função pública
"O que está por trás disto é que o Governo não conseguiu a redução de efectivos que estava à espera com a mobilidade especial", sublinha João Bilhim, que foi responsável pela comissão técnica do PRACE, o programa operacional da reforma do Estado. "Esta é uma medida que satisfaz vários objectivos de uma só vez", reforça, explicando que a nova lei "fomenta as saídas, permite renovar os quadros de pessoal e alimenta a regra de uma entrada por cada duas saídas", sublinha. As duas vias possíveis para a diminuição do número de funcionários públicos são a mobilidade especial e a aposentação. De facto, tanto num caso como no outro o Executivo criou sistemas de incentivo. Para as reformas, para além de ter baixado o número mínimo necessário de anos de serviço, abriu uma excepção para os mais velhos. Agora, para quem tem 65 anos de idade, bastam 15 anos de serviço para poder pedir a reforma normal - embora haja alguma penalização já que o cálculo é feito com base num período mais curto de contribuições. No caso da mobilidade especial, quem optar por integrar esta bolsa voluntariamente vê o valor da sua licença aumentado em 5%. As despesas com pessoal são uma das parcelas mais pesadas das despesas totais do Estado, cuja subida o Executivo tem conseguido conter. Mesmo assim, a estimativa para este ano é que as despesas com pessoal das administrações públicas representem 12,8% das despesas totais, um valor ainda elevado. Para Bagão Félix, ex-ministro do Trabalho do Governo de Durão Barroso, o slogan de "uma entrada por duas saídas está a ter pouco efeito [nas despesas] porque o Estado acaba por pagar três: há dois que saem para a aposentação". Assim, "os encargos para o Estado não diminuem", acrescenta.
O Governo ainda não revelou as poupanças conseguidas com a redução de funcionários, mas grande parte da diminuição do défice das contas públicas (cujo valor de 2007 deverá ser reportado hoje) depende do sucesso destas reformas. Para já estes 40% a mais são apenas pedidos de reforma. Resta saber quantas serão concedidas pelo Governo. E com quantos funcionários ficará a estrutura do Estado depois destas saídas.

Teixeira Dos Santos, Ministro das Finanças
Segundo o ministério de Teixeira dos Santos, entre 25 de Fevereiro e 24 de Março chegaram 1.500 pedidos de reforma à CGA, o que significou um aumento de cerca de 40% face à média. Os números avançados pelo ministério incluem todos os pedidos: funcionários e agentes da administração central, regional e local.

João Bilhim, Responsável pelo PRACE
"O segredo está na redução da penalização para quem se reforma este ano, face ao que será no futuro", defende o professor catedrático do ISCSP. O especialista em administração pública explica ainda que o regime de mobilidade especial "não teve o efeito de redução que era esperado pelo Governo".

Bagão Félix, Ex-ministro do Trabalho
"É uma consequência da legislação que permite antecipar a saída dos funcionários públicos, e é uma medida positiva porque confere uma aproximação às condições de que usufruem os trabalhadores privados. Mas penso que muitas destas saídas resultam do mal-estar que se vive hoje entre os professores".

Reformas:

Dois casos diferentes pensão normal
• Funcionário público
• 61 Anos
• 33 De serviço

Pela lei actual:
Não pode reformar-se porque não tem 36 anos de serviço.

Com as alterações:
A reforma passa a ser possível.
(O tempo de serviço obrigatório para a reforma reduz-se para 33 anos em 2008).
Não sofre penalização por antecipação.
(O valor da reforma será, contudo, um pouco mais baixo, tendo em conta que o tempo de serviço é inferior aos 37,5 anos para obter a reforma por inteiro).
Em 2015 pode reformar-se apenas com 15 anos de serviço, mas só terá a pensão por inteiro com 40 anos de carreira e 65 de idade.

Pensão antecipada
• Funcionário público
• 60 anos
• 36 de serviço em 2009

Sofre penalização de 9% (4,5% x 2 anos) no valor da pensão (faltam dois anos para a idade da reforma exigida por lei - em 2009, será de 62 anos).

O que está por trás dos números

Menos anos de trabalho
Com a entrada em vigor das novas regras de aposentação para a função pública, é possível pedir a reforma mais cedo, mas há cortes nas pensões. Desde 21 de Fevereiro, mas com retroactivos a Janeiro deste ano, os trabalhadores do Estado podem pedir a reforma antecipada com apenas 33 anos de serviço (e não 37). A partir de 2009, bastarão 30 anos de contribuições.
A contrapartida são, no entanto, penalizações de 4,5% por cada ano em falta até à idade legal em vigor.

Pressão para a saída
A possibilidade de colocação de funcionários públicos em regime de mobilidade especial pode estar a funcionar como uma pressão para a saída do Estado, já que muitos dos trabalhadores não vêem a mobilidade como uma vantagem. Para estimular a adesão à mobilidade, o Governo criou mesmo benefícios para quem decida sair pelo seu pé: o valor da licença é 5% mais elevado para estes trabalhadores, que podem também pedir quase de imediato a licença extraordinária e acumulá-la com um emprego no sector privado.

O que o futuro reserva
A partir do momento em que as regras de aposentação foram alteradas, as incertezas sobre os valores futuros das pensões do Estado instalaram-se. A tendência é para uma aproximação progressiva ao sector privado. Para já, sabe-se que em 2015 - o ano da convergência - a idade legal de aposentação será a mesma. Mas os trabalhadores do Estado poderão temer, por exemplo, alterações nos valores de penalização por saídas antecipadas.

As consequências
Não foram só os pedidos de reforma que aumentaram. Duas semanas depois das regras terem mudado, os pedidos de simulação das pensões entupiram os balcões da Caixa Geral de Aposentações, que se viu forçada a terminar com as informações presenciais e a remetê-las para o simulador on-line. É que pedir a reforma hoje pode ser uma forma de os trabalhadores se escaparem à mobilidade especial e de se libertarem da incerteza do futuro.

DIÁRIO ECONÓMICO | 26.03.2008 

 

Comentarios (1)add
... : isabel
Nunca pensei de ver este País assim. Todas as leis e decisões são pensadas para beneficiar os GRANDES SENHORES. E que tal outro 25 de Abril? Será que não estamos como antes? A unica coisa que não temos é a guerra mas a miséria é a mesma. Onde andam os sacrificios que nos pedem? Nas boas habitações dos senhores, nos bons carros, nas boas férias. Porque não damos este minusculo rectangulo aos Espanhóis a troco de ao um nível de vida melhor?
17.Maio.2008
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