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Contribuintes, vítimas de abuso de poder, recorrem à PGR: 180 Queixas-crime contra o Fisco e o ministro das Finanças. «Os contribuintes perderam completamente os seus direitos e garantias». A
acusação é de Augusto Morais, presidente da Associação Nacional das Pequenas e
Médias Empresas, que está a apoiar associados/contribuintes que se dizem vítimas
de «abuso de poder» por parte do Fisco e de penhoras fiscais indevidas. Na
Procuradoria-Geral da República já foram entregues três queixas-crime em Janeiro
e a caminho estão mais 180. O ministro das Finanças e o director-geral dos
Impostos são dois dos visados.
A juntar às três queixas-crime já entregues na Procuradoria Geral da
República (PGR) contra o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, o antigo
secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, João Amaral Tomaz, o director-geral
dos Impostos, Azevedo Pereira, e vários directores distritais de finanças e
funcionários da Direcção-Geral dos Impostos(DGCI) por abuso de poder por
parte de contribuintes, apoiados pela Associação Nacional das Pequenas e Médias
Empresas (ANPME), estão mais cerca de 180 processos em curso naquela associação,
prontas, se for caso disso, para entregar a Pinto Monteiro.
Quem o diz a «O
DIABO» é Augusto Morais, presidente da ANPME, que considera que «os
contribuintes perderam completamente os seus direitos e garantias».
Dos
processos que estão a ser analisados, a maior parte deles incidem sobre penhoras
fiscais indevidas, onde se incluem contas bancárias, remunerações e créditos,
havendo outras situações de abuso no domínio das inspecções fiscais.
«Se estivéssemos noutro tempo isto poderia já ter dado origem a uma guerra
civil»
«Estamos perante uma prática de cobrança de impostos inaceitável e de
uma atitude arrogante e abusiva da máquina fiscal», acusa Augusto Morais,
acrescentando que «os contribuintes perderam completamente os seus direitos e
garantias».
«Para o Estado fazer uma cobrança de um imposto, quer ele seja
devido ou indevido, há um procedimento estabelecido nos códigos fiscais. O que o
Estado está afazer é a passar por cima dos códigos, por cima da lei e não está a
dar os direitos e garantias aos cidadãos relativamente à parte processual
fiscal. Estão, por exemplo, a penhorar contas bancárias e bens», explica o líder
da ANPME.
Salienta, por isso, que «quando o próprio Estado não permite ao
cidadão utilizar os direitos e garantias previstos na lei, estamos perante abuso
de poder».
Ajuntar às três queixas já apresentadas, Augusto Morais refere que
os 180 processos em análise no gabinete da sua associação -através de queixas de
associados - devem «ter o mesmo destino: PGR».
Reitera que «se está a
infringir a regra elementar do Estado de Direito: o cidadão respeitar o Estado e
vice-versa. O que está acontecer neste momento é que o Estado não está a
respeitar o cidadão e, por consequência, o cidadão não respeita o Estado». E
ironiza: «se estivéssemos noutro tempo e noutra época, isto poderia já ter dado
origem a uma guerra civil».
Augusto Morais faz questão de explicar que muitos
destes abusos, que agora estão a ser cometidos por parte da Administração
Fiscal, resultam, em grande parte dos erros cometidos pelo Governo de José
Sócrates com o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC).
«Tivemos dois
PEC's, um em 1997-que era obrigatório a todos os Estados-membros o cumprimento
da meta do défice público, que não pode ser superior a 2,5. Para quê? Para
estabilizar todo o processo endógeno da economia europeia», lembra, sublinhando
que no PEC de1997 «as coisas eram mais simples porque podíamos desvalorizar a
moeda para equilibrar a balança, principalmente, no domínio das exportações».
«Só que há cerca de 10 anos que perdemos 15 por cento das nossas quotas de
mercado e para podermos exportar estamos a esmagar as nossas margens de lucro»,
salienta, dizendo que «se a nossa economia não tiver maior competitividade será
complicado».
«Só que António Guterres cometeu um erro, em 2000, quando
recebeu 50 mil milhões de euros da União Europeia. E o que fez? Em vez de fazer
uma reforma estrutural do País para o preparar justamente para este alargamento
e para o PEC resultante dos acordos de Maastrich, não o fez», lamenta, lembrando
que, em vez disso, «admitiu mais gente na Função Pública e com os conhecidos
‘jobs for the boys’, delapidou o quadro comunitário, não redimensionou o Estado
nem reduziu a despesa pública».
«Estado está a cometer o crime de abuso de poder»
Augusto Morais afirma
que, com a entrada na moeda única e com o PEC (mal) negociado em 2005, tal
«deixou de nos permitir mexer na moeda». Mas era possível ter negociado o PEC de
2005 com outras valências. «Por culpa deste Governo não o fizemos e entramos no
PEC de 2005 sem conhecer verdadeiramente as regras impostas por Bruxelas»,
critica, realçando que «haviam instrumentos que poderiam ser utilizados pelo
Governo e que agora já não podem ser».
«A verdade é que José Sócrates não
consegue descer os impostos face às regras impostas pelo PEC de 2005. Para mexer
nos impostos, a economia tem que crescer e a economia há dez anos que está
situada num patamar de crescimento médio anual de 0.7, muito pouco para as
nossas necessidades», explica Augusto Morais, acrescentando que, na sua opinião,
a taxa de desemprego vai crescer até aos 15 por cento.
Frisa que «o Estado
não tem dinheiro e tem que cumprir o PEC, para isso lança-se seriamente à
procura dele». Como? «Na obsessiva arrecadação de receita. E, no caso, o Estado
usa o poder que tem não apenas para devassar a vida dos cidadãos mas para cobrar
o que deve e o que não deve», acusa.
E denuncia: «está a cometer o crime de
abuso de poder e a cometer infracções aos direitos, liberdades e garantias
previstas na Constituição da República». «Além de existe ainda a infracção aos
direitos e garantias processuais fiscais e que o Estado não está a cumprir. E no
meio de tudo isto existe um abuso de poder, que é um crime previsto na lei penal
e que dá cadeia», conclui.
As queixas em causa
Segundo «O DIABO» apurou, as queixas-crime que estão na PGR, bem como os
processos em curso na Associação Nacional das Pequenas e Médias Empresas,
prendem-se com abusos cometidos por parte da Administração Fiscal e relativos a
penhoras quando as dívidas já estão prescritas.
Há outros casos, em que os
contribuintes já pagaram a dívida e que, por ineficiência do Fisco, voltam outra
vez a notificar os contribuintes a pagar.
Além disso, há ainda «manifestos»
erros de liquidação e, se as pessoas reclamam, a Administração Fiscal avança na
mesma com os processos no sentido de proceder à cobrança, sendo que em muitos
casos, o tribunal vem dar razão mais tarde ao contribuinte.
O DIABO | 19.02.2008
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