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DISCUTIR A JUDICIÁRIA
A nova Lei Orgânica da Polícia judiciária está em fase de discussão no
Parlamento e a forma como tem sido ‘debatida’ é um extraordinário exemplo do
estado de sonambulismo democrático a que chegámos. Na semana passada o director
nacional da instituição, Alipio Ribeiro, esteve na Assembleia da República numa
sessão que vai passar à história pela rapidez. Só um deputado se interessou o
suficiente para fazer uma pergunta. Hoje o interlocutor dos senhores deputados
será o líder sindical da PJ, Carlos Anjos. Presume-se que assimilem as críticas
da ASFIC em relação ao diploma, mas seria útil que tivessem feito o trabalho de
casa para poderem questionar Alípio Ribeiro. Percebe-se que os deputados já
estejam a sonhar com as águas retemperadoras do mar algarvio, mas numa matéria
desta natureza convinha que fizessem, ao menos, um pequeno esforço... Sobretudo
os da oposição, para que mais tarde não passem a vergonha de ‘descobrir’ algum
detalhe menos consonante com o espírito de independência que a gestão de uma
instituição como a PJ deve ter face ao poder político e comecem a bradar contra
a governamentalização, a manipulação o controleirismo e por aí adiante. É que,
se for assim, apetece mesmo meter férias e ir a caminho de umas águas tépidas no
Algarve ou de outro paraíso tropical qualquer.
Eduardo Dâmaso | Correio da Manhã
BASE DE DADOS DO GOVERNO É POTENCIALMENTE PERIGOSA
Cruzar dados tão díspares como a nacionalidade, residência e
estado civil dos funcionários, os benefícios sociais a que têm direito, o
património que possuem ou a situação escolar dos seus filhos. Estas são algumas
das informações que o Governo quer passar a ter acesso. O ex-ministro Bagão
Félix considera a medida «incompreensível» e sublinha que se «notam tiques
autoritários cada vez mais à luz do dia na actuação deste Executivo»
MAIS uma polémica estalou e está a dar que falar. O Governo de
José Sócrates pretende agora criar uma gigantesca base de dados na função
pública que vai permitir cruzar informação sobre os funcionários públicos.
O
diploma já aprovado pelo Conselho de Ministros prevê a possibilidade de
interconexão de dados dos sistemas informáticos da Caixa Geral de Aposentações
com bases de dados de alguns ministérios. O Governo quer assim cruzar dados tão
díspares como a nacionalidade, residência e estado civil dos funcionários, os
benefícios sociais a que têm direito, os rendimentos declarados, o património
que possuem ou a situação escolar dos seus filhos. O ministro das Finanças,
Teixeira dos Santos, negou que a base de dados que vai permitir cruzar
informação sobre os funcionários públicos constitua uma violação da privacidade,
afastando assim a ideia que o diploma aprovado pelo Governo seja
inconstitucional. «Não tenho conhecimento de dados que extravasem a vida privada
dos portugueses», afirmou Teixeira dos Santos, acrescentando que o importante é
o parecer favorável emitido pela Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD)
que «achou que estava tudo bem».
O ministro prefere reforçar que a base de
dados em causa constitui uma «iniciativa de simplificação que vai aliviar muitas
das exigências de processamento de informação que são colocadas aos
funcionários», permitindo «uma maior eficiência à Administração Pública». Mas a
verdade é que o polémico decreto-lei está a dar que falar. Bagão Félix, antigo
ministro das Finanças, e Ana Avoila, da Frente Comum dos Sindicatos da
Administração Pública, criticam a O DIABO a medida e admitem que a mesma pode
ser «inconstitucional».
«Quadro medidas tendentes a controlar abusivamente a vida dos
cidadãos»
O economista e antigo governante, Bagão Félix, diz que a base de
dados que o Governo criou em que pretende cruzar dados como a nacionalidade,
residência e estado civil dos trabalhadores, os benefícios sociais a que têm
direito, os rendimentos declarados, o património que possuem ou a situação
escolar dos seus filhos «é incompreensível, injustificada e potencialmente
perigosa».
«Aliás, esta intenção não vem isolada. Ela insere-se num quadro
preocupante de medidas e propósitos tendentes a controlar abusivamente a vida
dos cidadãos, desde o aparentemente anódino cartão único até à criação e
centralização de autoridades de segurança e informação junto do
Primeiro-Ministro», critica.
Questionado sobre se existe alguma violação da
vida privada dos cidadãos, considera que, nesta matéria «é fundamental encontrar
o ponto certo na adopção do princípio da proporcionalidade» e defende que «as
medidas a tomar já mais deverão ser excessivas ou contraproducentes face aos
efeitos pretendidos e jamais poderão deixar na mão de fraccionários zelosos
elementos que possam por em perigo a vida privada dos cidadãos».
Tendo em
conta que a Constituição da República não permite o tratamento de dados pessoais
relativos à vida privada, tais como a nacionalidade, residência, estado civil,
benefícios sociais, vínculos laborais, rendimentos e património, na opinião de
Bagão Félix «corre-se esse risco» e por isso, «é importante saber a posição do
Tribunal Constitucional».
«Actuação estranha da ERC»
Por fim, interrogado sobre se
este Governo tem limitado as liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos, o
ex-ministro das Finanças, afirma que «não devemos exagerar quanto a essa ideia
que pode existirem algumas pessoas». No entanto, Bagão sublinha: «notam-se
tiques autoritários cada vez mais à luz do dia na actuação deste Governo, por
acção ou por omissão. É o caso do novo projecto de lei relativa aos jornalistas,
da actuação às vezes estranha da ERC, dos casos mediáticos que se estão passando
em particular na Saúde e Educação, da inusitada e serôdia acção posta pelo
Primeiro-Ministro contra um "blogger", etc.».
«Medo»
Ana Avoila, da Frente Comum dos Sindicatos da
Administração Pública, considera que a base de dados que o Governo pretende
criar é «mais um exemplo da invasão da privacidade das pessoas» e alerta para a
necessidade importante de o Tribunal Constitucional se pronunciar sobre o
assunto, já que tudo indica que «seja inconstitucional».
«Trata-se de uma
violação de um direito que está consagrado na Constituição há muito tempo e que
pode ter consequências graves na vida das pessoas», ataca, lembrando que «é uma
medida inadmissível».
Ana Avoila garante ainda que o que se está a passar na
Administração Pública «é muito grave» e argumenta: «Depois do 25 de Abril, fosse
com que Governo fosse - do PSD, do Bloco Central -nunca ninguém colocou questões
ao nível da liberdade de expressão nem ameaçou os trabalhadores. É a primeira
vez que se está a passar isto, ainda por cima com um Governo socialista».
Adianta que «o artigo 18 da CRP diz que a lei só pode restringir direitos,
liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição. Esta
da base de dados tem criado uma indignação e medo porque as pessoas lembram-se
bem da Prima vera Marcelista...».
Lei fundamental pode vir a ser violada
O artigo 18 (Força Jurídica) da Constituição é claro e garante
no seu artigo n.º 1 que «os preceitos constitucionais respeitantes aos direitos,
liberdades e garantias são directamente aplicáveis e vinculam as entidades
públicas e privadas». Além disso, «a lei só pode restringir os direitos,
liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição,
devendo as restrições limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos
ou interesses constitucionalmente protegidos». Por último, pode ler-se que «as
leis restritivas de direitos, liberdades e garantias têm de revestir carácter
geral e abstracto e não podem ter efeito retroactivo nem diminuir a extensão e o
alcance do conteúdo essencial dos preceitos constitucionais».
Ana Clara | O Diabo
PENHORAS ELECTRÓNICAS ACELERAM A ACÇÃO EXECUTIVA
As penhoras de quotas de sociedades comerciais, no âmbito de processos de
execução em tribunal com vista à recuperação de créditos vão ser agilizadas
através de uma nova funcionalidade electrónica que permitirá aos solicitadores
de execução realizar os respectivos registos "online".
O mecanismo, que será
hoje apresentado pelo Ministro da justiça, no âmbito da Mostra de tecnologias de
Informação "PorTI 2007", permitirá "agilizar a acção executiva, facilitando a
realização das execuções e permitindo que os créditos possam ser recuperados de
forma mais célere e rápida", explica o secretário de Estado Adjunto da justiça,
João Tiago Silveira.
Os solicitadores de Execução, que actualmente têm de se
dirigir aos balcões das conservatórias do Registo Predial para procederem às
penhoras, passam agora a poder realizá-las directamente através da internes. O
acesso faz-se pela página do Portal da Empresa e através do certificado digital,
fornecido aos profissionais pela Câmara dos Solicitadores. Desta forma, é-lhes
possível proceder ao envio de toda a documentação que legitima o acto e, de
seguida, proceder ao respectivo pagamento, também pela Internet.
Os preços
serão também reduzidos: os 100 euros que agora custa o registo presencial de uma
penhora passam para 85 euros, mas registarão depois uma redução para metade,
quando entrar em vigor a nova legislação já aprovada em Conselho de
Ministros.
Arbitragem na acção executiva em estudo
As penhoras electrónicas de quotas
de sociedades são mais um passo no sentido de acelerar a famigerada reforma da
acção executiva, já que o número de processos acumulados nas secretárias dos
solicitadores continua muito acima do desejável. Em estudo está, igualmente, a
utilização de estruturas de resolução alternativa de conflitos às quais será
conferida autonomia para resolver litígios e praticar actos materiais no âmbito
da execução. Esta medida que deverá entrar em vigor em 2007, pressupõe, por
exemplo, que litígios que hoje implicam a intervenção de um juiz, possam ser
resolvidos por estruturas alternativas, centros de arbitragem com árbitros que
não têm necessariamente de ser magistrados.
A arbitragem na acção executiva
insere-se num pacote mais vasto, negociado entre PS e PSD quando, em Setembro
passado, assinaram o pacto para a Justiça. Sob o signo da "desjudicialização do
processo ", soma-se a outras como a possibilidade de os licenciados em direito e
advogados poderem actuar como agentes de execução ou a reformulação do modelo
remuneratório dos agentes de execução - como meio de incentivar e conseguir "um
acréscimo de produtividade e de igualdade no tratamento das execuções", segundo
o referido Pacto.
Certidão da IES disponível na "net"
As empresas que procederem à entrega, pela Internet, da informação
Empresarial simplificada (IES), vão passar a ter também disponível on-line a
respectiva certidão de contas anuais. Trata-se de um "up-grade" ao sistema de
entrega da IES, em vigor pela primeira vez este ano e que reúne num único acto a
prestação anual de contas e as informações estatísticas para as Finanças, INE e
Banco de Portugal. A entrega, que deveria ocorrer em Julho, foi prorrogada para
Setembro, para que as empresas tivessem tempo para se adaptarem. Apesar disso,
até à última sexta-feira 100 mil tinham já entregue a IES, "mais do que o
registo de contas que tínhamos no passado", refere Tiago Silveira.
Registar "online" custa menos 50%
A partir do último trimestre deste ano, os preços dos actos da vida das
empresas s realizados através da Internet -via Portal da Empresa -vão custar
menos 50% do que os preços praticados normalmente aos balcões das
conservatórias. A medida, que pretende incentivar o recurso aos meios
electrónicos, foi já aprovada em Conselho de Ministros e está para promulgação
na Presidência da República. Em causa está, desde logo, a empresa "online", cuja
constituição vai custar 180 euros (actualmente são 360 euros, aos quais acresce
imposto do selo). Outros exemplos são a alteração de estatutos de uma sociedade,
a redução ou aumento do capital social, fusões e cisões, ou mudanças de sede.
Jornal de Negócios
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