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OS BUFOS E O APARELHO DOS PARTIDOS
Ao contrário de Guterres, que, no primeiro dia, pôs os boys no
seu devido lugar, Sócrates e os seus ministros nada fizeram para convencer os
militantes de que não é assumindo o papel de agentes infiltrados que melhor
servem o partido e o país.
Fernando Charrua, funcionário da DREN, ou Maria Celeste
Cardoso, a directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho que o ministro de
Saúde exonerou, não são vítimas de um qualquer fenómeno que chegou de surpresa
para criar um clima de delação nas repartições públicas do país. Nada indica que
os seus casos tivessem chegado ao Governo em consequência de qualquer acto
político deliberadamente aprovado para apertar a censura, verificar os delitos
de opinião e exercer coacção sobre a liberdade de pensamento e de expressão dos
cidadãos. É também improvável que viessem a ser alvo de processos disciplinares
ou de exoneração se, por acaso, fizessem parte da rede de cumplicidades e
interesses que se agregam em torno do partido no poder. Se a democracia está
suficientemente consolidada para travar a bufaria institucionalizada, não é
ainda madura ao ponto de evitar que o espírito bafiento e persecutório que os
aparelhos partidários cultivaram nos últimos anos contamine o espaço
público.
Quando Manuel Alegre diz que há pouco PS no Governo, ilumina-o esse
velho espírito republicano que emula o debate livre, o empenho nas coisas
públicas ou a necessidade de encarar a governação como uma responsabilidade de
todos. O problema é que os partidos que em tempos cultivaram essas vocações
estão moribundos e as parcas energias que lhes restam não estão orientadas para
a discussão da polis. O PS, o PSD e os demais partidos deixaram há muito de
angariar inteligência, de mobilizar ideias, de participar na discussão livre dos
temas da agenda nacional. Pelo contrário, transformaram-se em simples máquinas
facciosas que, quando chegam ao poder, se transformam em eficientes redes de
disputa de cargos para os seus. O PS actual não é diferente. Com a elite do
partido a governar ou a apoiar a governação no Parlamento, o aglomerado de
aparatchiks que estão na base dedica-se a zelar pela obediência aos chefes, a
acumular pequenos poderes, a espreitar a oportunidade de ocupar cargos e,
obviamente, a remover do funcionalismo todos os que lhes possam travar a
ambição. Ideias, propostas, debate? Essa é função para intelectuais. Alguém se
lembra de uma intervenção relevante sobre o país de um presidente de uma
federação distrital do PS?
Treinados a combater dissidências e a não criticar as
hierarquias, muitos desses militantes encontraram na era Sócrates o lugar e o
tempo ideais para transportar para a esfera do Estado a prática controleira e
intolerante que foram aperfeiçoando-nos corredores da vida partidária. São eles
quem denuncia ao chefe a crítica (ou o insulto) que um estranho ao grupo faz no
recato de um gabinete.
São eles quem informa sobre toda e qualquer
manifestação de desagrado ao poder. São eles que, pela sua simples existência,
vão criando uma rede vigilante e intimidatória que institui o silêncio, fomenta
a subserviência e premeia a delação. Um pouco por todo o lado, mas
principalmente longe das grandes cidades, este ambiente de vigilância e de medo
está a ameaçar dois dos bens que mais nos faltam: o da responsabilidade
individual e o da autonomia.
Este risco, que o velho PS critica, não está a
ser devidamente avaliado pelo Governo. Ao acolher e ao validar as denúncias,
Sócrates e os seus ministros não estão a zelar pela autoridade do Estado ou a
fazer cumprir os procedimentos disciplinares: estão, em primeiro lugar, a dizer
aos militantes do PS que podem ser donos de um poder de censura legitimado pelo
Governo. Ao contrário de Guterres, que, no primeiro dia, pôs os boys no seu
devido lugar, Sócrates e os seus ministros nada fizeram para convencer os
militantes de que não é assumindo o papel de agentes infiltrados que melhor
servem o partido e o país. Se a peste da bufaria continuar a grassar, grande
parte da responsabilidade pelos seus efeitos terá um destinatário óbvio: o
Governo.
Manuel Carvalho, Público, p.45
HÁ MÁ VONTADE POR PARTE DO GOVERNO - CRITICAM OS NOTÁRIOS
O provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues, ouviu esta semana os protestos dos
notários face às medidas tomadas pelo Governo em nome da simplificação e
desburocratização dos procedimentos na administração pública. "Estamos de acordo
com a simplificação, mas não com o facto de os notários serem afastados das
formalidades", explicou ao PÚBLICO o bastonário dos notários, Joaquim Barata
Lopes.
A audiência com Nascimento Rodrigues realizou-se no âmbito de vários
outros encontros com diversas entidades que os representantes da Ordem dos
Notários têm vindo a promover, de modo a expressar o seu descontentamento. Já
foram recebidos pelo presidente da Assembleia da República e, na próxima
terça-feira, têm uma outra audiência marcada com o presidente do Supremo
Tribunal de justiça.
Entre as medidas que preocupam os notários contam-se a
Empresa na Hora, Casa Pronta ou o Balcão Sucessões e Heranças, anunciadas
recentemente como exemplos de novos modelos que irão simplificar a vida dos
cidadãos mas que dispensam a intervenção dos notários.
Para Barata Lopes, as
conservatórias "não têm as mesmas capacidades dos notários", que são "mais
céleres e eficientes", e o "melhor caminho" seria simplificar mas sem afastar os
notários, visto que são estes quem confere confiança jurídica aos actos. "Há má
vontade por parte do Governo", considera Barata Lopes, que diz estranhar a forma
como o executivo lida com os notários, considerando-os "quase como
adversários".
Em Fevereiro do ano passado, Portugal deixou de ser o único
país da Europa onde não havia ainda notários privados a exercer. Um dos
objectivos da privatização consistia em criar uma "tabela de actos notariais
flexível com redução dos custos da actividade notarial".
Os desentendimentos
com o Governo subiram então de tom. Para os governantes, o processo de transição
do notariado público para o privado decorria sem definição dos poderes de
fiscalização do Estado sobre a actividade privada. Na perspectiva dos notários,
porém, as mudanças decorrentes da privatização são vantajosas, já que tornam os
notários profissionais liberais e possibilitam uma acção muito mais rápida e
eficaz.
E, contrariando as informações do Ministério da justiça, Barata Lopes
nota que as receitas do IVA e do IRS dos actos realizados em 2005 foram
superiores à receita que o ministério deixou de receber com a privatização do
notariado.
Público, p. 10
INOCÊNCIAS PRESUMIDAS
Algumas investigações a políticos têm evidenciado leituras curiosas da presunção
de inocência. Este princípio do Direito Penal comporta uma grande exigência aos
magistrados na apreciação das provas de um processo. Trata-se da eventual
privação da liberdade de alguém ou outra pena e, por isso, todo o cuidado é
pouco que está em causa no direito não é o mesmo que se joga no campo da
política. Assistimos hoje a uma manipulação deste princípio para efeitos de
consumo político. Sem minimizar os efeitos nefastos que uma falsidade projectada
na vida mediática pode ter na vida de uma pessoa, a verdade é que a banalização
da exigência de presunção de inocência tem vindo a obedecer a uma lógica de mera
táctica politiqueira. Como se viu esta semana no caso dos prémios da EPUL. A
deslocação da exigência de presunção de inocência para terrenos em que deve
prevalecer uma lógica de ética política visa apenas condicionar todos os que
possam contribuir para criar uma cultura de prestação de contas a quem tem
funções públicas. Até parece que nada está por cima de conceitos como
‘autonomia’, no caso das empresas públicas, ou da ‘legitimidade’ de uma eleição
por sufrágio universal, no caso dos políticos. Nem a gestores públicos nem a
eleitos se pode pedir que cumpram a lei. Aliás, não se pode sequer dizer que
temos umas dúvidas sobre a clareza, a transparência, a legalidade de alguns
actos administrativos. A cidadania está reduzida a um exercício de investigação
criminal e esta é um chicote exclusivo para flagelar as classes baixas na voz
dessas inocências presumidas.
Eduardo Dâmaso, Correio da Manhã, p. 2
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