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23-Nov-2007

 

OPOSIÇÃO APELA AO VETO
A oposição em bloco apelou ontem ao Presidente da República, Cavaco Silva, para vetar a lei de vínculos, carreiras e remunerações na Função Pública. Em causa está a alegada equiparação dos magistrados aos funcionários públicos naquele diploma, que, segundo o próprio procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, significa o “fim da independência do Ministério Público”.
Todavia, o ministro da Justiça garantiu ontem, em Bruxelas, que a autonomia do Ministério Público não está em causa e que o Governo respeita a Constituição e não tem qualquer plano para revê-la. E, a propósito, Alberto Costa afirmou: “Não há equiparação a funcionários públicos. Isso é um equívoco e se [o PGR] diz isso ou resulta de desconhecimento, ou resulta de atrevimento”. Em resposta, o PGR afirmou: “Não comento as declarações do ministro.”
Apesar destas explicações e perante as críticas dos magistrados e de toda a oposição, o PS foi obrigado a aprovar ontem uma alteração no Orçamento do Estado para 2008 que exclui a progressão na carreira dos juízes das regras aplicadas à Função Pública.
O presidente da Associação Sindical de Juízes (ASJ), António Martins, considerou ontem, no final de uma reunião com o líder do PSD, Luís Filipe Menezes, a propósito desta alteração no OE, que “a independência dos juízes não tem prazo, não tem preço”. “Era bom que não se confundisse as coisas e não se reduzisse o problema ao Orçamento do Estado”, acrescentou. Mas Pinto Monteiro já fez saber ontem que estava satisfeito com as alterações.
O diploma em causa, no entanto, seguiu anteontem para o Palácio de Belém sem qualquer emenda. O Presidente está a analisá-lo e tem oito dias para enviar o diploma ao Tribunal Constitucional e 20 dias para promulgar ou vetar. Por isso, o líder do CDS, Paulo Portas, deixou um apelo a Cavaco Silva: “Para grandes males, grandes remédios. Solicitámos ao Presidente da República a fiscalização da constitucionalidade da lei ou, no limite, o veto.” O PSD mostrou-se confiante na decisão de Cavaco Silva. “Temos a certeza de que o Presidente levará em conta e analisará todos os argumentos, (...) virá com certeza uma decisão fundamentada”, afirmou Fernando Negrão, para quem o diploma “tem graves problemas e põe em causa a independência dos juízes e a autonomia dos procuradores”.
Opinião compartilhada pelo PCP. “Não tem qualquer cabimento que na Constituição se consagre a independência do poder judicial e a autonomia do Ministério Público e venha uma lei do Governo equiparar os juízes e magistrados a funcionários públicos”, afirmou o deputado António Filipe. Também o BE apelou a Cavaco para devolver o diploma ao Parlamento. “O Presidente da República deverá devolver o diploma ao Parlamento, para que sejam expurgadas as inconstitucionalidades”, defendeu a deputada Mariana Aiveca.
Correio da Manhã


EX-GOVERNANTE DE CAVACO SILVA INSURGE-SE CONTRA LEI DE CARREIRAS
A definição dos salários dos funcionários públicos não deve estar nas mãos dos dirigentes. As habilitações têm de ser tidas em conta no recrutamento dos novos funcionários. A generalização do contrato de trabalho não resolve o problema da despesa pública nem está devidamente justificada. Estas foram algumas das críticas que a ex-secretária de Estado da Administração Pública de Cavaco Silva fez ontem à lei dos vínculos, carreiras e remunerações, uma das reformas mais polémicas do actual Governo e que chegou esta semana a Belém para o Presidente da República se pronunciar.
As observações de Isabel Côrte-Real vêm juntar-se às críticas dos partidos da oposição, que ontem apelaram a Cavaco Silva para que envie o diploma para o Tribunal Constitucional ou opte pelo veto político.
Durante a 3a Conferência Anual da Ordem dos Economistas, a antiga secretária de Estado da Administração Pública insurgiu-se contra a negociação de salários no recrutamento dos novos funcionários a contrato. "Parece-me errado, quando a tradição nos diz que as flexibilidades foram usadas para admitir mais pessoal e para elevar as remunerações", sustentou Isabel Côrte-Real. Além disso, realçou, o facto de os dirigentes serem nomeados politicamente "não dá garantias de isenção".
Na sua intervenção, a ex-governante de Cavaco Silva considerou ainda que a Lei dos vínculos tem uma visão "muito restrita do Estado, que se circunscreve a um Estado policial". Além das áreas de soberania, polícias, diplomacia e inspecção, Côrte-Real defende que os funcionários que desempenham funções de apoio às políticas deviam manter também o vínculo de nomeação.
Jornal de Negócios
 

ATOLADO EM QUEIXAS
O Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) está atolado em queixas. A revelação foi ontem por Francisca Van Dunem, procuradora-geral adjunta distrital de Lisboa. De acordo com a responsável, que ontem participou num colóquio intitulado "Reforma penal em debate - breves reflexões", a decorrer na Universidade Autónoma de Lisboa, dão entrada naquele organismo meio milhão de denúncias por ano, a maioria relacionada com pequena criminalidade, como furtos e roubos.
No colóquio estão a participar magistrados judiciais e do Ministério Público, advogados e professores universitários. Um dos oradores de ontem foi Rogério Alves, bastonário da Ordem dos Advogados (e defensor do casal McCann, no caso do desaparecimento de Maddie), que não poupou críticas aos novos Código de Processo Penal e Código Penal: "Os processos devem nascer públicos. Dos mais de 500 mil processos que estão no DIAP tenho a certeza de que a maioria não precisa de estar em segredo de justiça. Os direitos dos arguidos e das vítimas devem ser preservados. O Ministério Público tem seis meses para terminar um inquérito com arguidos presos preventivamente. Em muitos casos esse tempo não chega. É preciso rever e clarificar bem algumas situações dúbias resultantes da nova legislação, nomeadamente em relação ao tempo que os inquéritos podem levar e quando e como é que se deve aplicar o segredo de justiça".
Para o secretário de Estado adjunto do ministro da Justiça, Conde Rodrigues, as leis foram feitas depois de consultados todos os operadores judiciários, mas admitiu que existem ajustamentos a fazer e que os próprios magistrados irão encarregar-se de corrigir as falhas existentes.
24 Horas
 

PGR PODE PEDIR FISCALIZAÇÃO DA CONSTITUCIONALIDADE
No caso de o Presidente da República promulgar a lei dos vínculos, carreiras e remunerações, que integra os juízes na Função Pública, o PGR, Pinto Monteiro, poderá pedir a fiscalização da constitucionalidade do diploma, obrigando o Tribunal Constitucional a pronunciar-se. Ontem, o PGR mostrou-se escandalizado com a lei dos vínculos mas rejeitou a possibilidade de se demitir, caso o diploma entrasse em vigor.
No caso de o Presidente da República promulgar a lei dos vínculos, carreiras e remunerações, que integra os juízes na Função Pública, o PGR, Pinto Monteiro, poderá pedir a fiscalização da constitucionalidade do diploma, obrigando o Tribunal Constitucional a pronunciar-se, no âmbito dos poderes que a Constituição lhe confere em sede de fiscalização abstracta.Ontem, em entrevista à revista "Visão", o PGR mostrou-se escandalizado com a lei dos vínculos, considerando que a mesma põe em causa a independência dos juízes e dos tribunais, bem como dos delegados do Ministério Público, ao estender o regime da Função Pública às magistraturas mas rejeitou qualquer interpretação jornalística de que se poderia demitir caso o diploma entrasse em vigor. Recorde-se que, nos últimos meses, o PGR tem estado em sintonia.O diploma dos vínculos e carreiras chegou na quarta-feira ao Palácio de Belém. Cavaco Silva tem agora oito dias para requerer a fiscalização preventiva da constitucionalidade da lei e vinte dias para promulgar ou vetar o diploma. Na quarta-feira, questionado sobre a matéria, Cavaco manteve a reserva sobre o assunto. No entanto, esta semana foi muito comentado um alegado descontentamento de Belém com as ondas de choque que a lei provocou nas magistraturas, unindo juízes e delegados do Ministério Público como há muito tempo não se via.A possibilidade de Belém ter estado já na origem do recuo parcial do governo em relação à lei dos vínculos, no que respeita à extensão aos juízes, não é de excluir. A ser assim, é muito pouco provável que Cavaco opte pela não promulgação da lei, consultando o Tribunal Constitucional ou devolvendo a lei à Assembleia da República, a exemplo do que aconteceu em Agosto com o veto à proposta de lei orgânica da GNR, diploma que gerou uma guerra com algumas semelhanças de carácter político com a polémica actual sobre a lei dos vínculos, com os militares a sentirem-se prejudicados nos seus direitos face à estrutura criada para a GNR. Recorde-se que em relação à lei orgânica da GNR o governo alterou o diploma, em consonância com as reservas feitas por Belém em mensagem fundamentada.
No entanto, não deixa de ser preciso colocar todas as hipóteses. Há quem leia, também, as declarações de Pinto Monteiro à "Visão" como recados enviados a Belém, o que seriam sinais de que nem o PGR, que depende politicamente do Presidente da República, sabe quais as tendências que existem na Presidência da República em relação à lei dos vínculos.
O certo é que o PS aprovou ontem, na Assembleia da República, uma alteração ao Orçamento do Estado para 2008 que exclui a progressão na carreira dos magistrados judiciais e do Ministério Público das regras aplicadas à Função Pública. Nesta norma, que corresponde ao artigo 15º do Orçamento de Estado para 2008 pode ler-se que "A partir de 1 de Janeiro de 2008, as progressões dos juízes de qualquer jurisdição e dos magistrados do Ministério Público operam-se segundo as regras fixadas nos respectivos estatutos", lê-se na proposta do PS. Esta alteração foi aprovada foi aprovada apenas pelo PS, com a abstenção de toda a oposição, durante o debate orçamental na especialidade.
No início desta semana, o ministro da Justiça, Alberto Costa, em reunião tida com o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público já tinha garantido esta alteração, por via do Orçamento do Estado, o que acalmou os receios das magistraturas mas não os extinguiu, na medida em que a norma do OE, para além de interpretativa é temporária.
Para justificar esta alteração, o deputado do PS, Ricardo Rodrigues, que tem assumido grande protagonismo na bancada em matérias ligadas à justiça, considerou que a inclusão no Orçamento de um ponto que remete para os estatutos das magistraturas foi feita "para que não restem dúvidas" de que o governo respeita aqueles diplomas e a própria Constituição, na defesa da independência do poder judicial e da autonomia do Ministério Público.
Interpretação autêntica de uma lei que não existe
O imbróglio jurídico que foi criado espelha-se nesta norma do Orçamento, que faz interpretação autêntica, também chamada legislativa, na medida em que é o próprio legislador que interpreta e dá sentido à norma que criou. Para além de a interpretação autêntica ser desaconselhada na técnica jurídica, na medida em que o legislador deve fazer normas claras e precisas, a confusão ainda é maior na medida em que o PS fez ainda uma segunda interpretação autêntica a propósito desta matéria.
Na verdade, ontem o PS fez outra alteração ao mesmo artigo 15° da lei do Orçamento, preceituando que a lei dos vínculos, carreiras e remunerações dos trabalhadores da Função Pública seja aplicada logo desde o início de 2008. Faz-se, assim, uma interpretação autêntica de uma lei que ainda não existe, não tendo sido promulgada pelo Presidente da República, o que parece denotar o desnorte jurídico dos socialistas.
Em termos de técnica jurídica, nunca se tinha visto um diploma deste quilate colocar como intróito à matéria a seguinte expressão: "sem prejuízo da Constituição". Como foi feito na ressalva à aplicação do regime da Função Pública às magistraturas. Por outro lado, em termos de conteúdo, qualquer jurista avalia que a lei dos vínculos se presta a sentidos dúbios. Como manter a independência de um juiz e integrá-lo no regime da Função Pública, mesmo que o Governo jure a pés juntos que uma coisa não colide com a outra?
Porém, na base desta trapalhada jurídica, parece estar uma grande confusão política no governo. Hoje não há dúvidas de que o ministro da Justiça, Alberto Costa, esteve contra a redacção e o conteúdo da lei, que pode ter tido a marca essencial do Ministério das Finanças e, muito provavelmente, a concordância política do gabinete do primeiro-ministro.
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