|
JUÍZES E MAGISTRADOS DO MINISTÉRIO PÚBLICO ATACAM ALBERTO COSTA
António Martins, presidente da ASJP
«Proposta é
inconstitucional e tornaria o juiz num mero elemento da AP»
Eurico Reis, juiz desembargador
«Equiparar juízes a
funcionários públicos revela falta de espírito democrático»
António Cluny, presidente do SMMP
«Estamos a partir a
espinha ao modelo constitucional de independência da Justiça»
Lei do Regime dos vínculos e carreiras da função pública, que
pela primeira vez inclui os magistrados no mesmo regime dos funcionários
públicos, está a ser alvo de duras críticas por parte de juízes e magistrados do
Ministério Público. O diploma ainda não chegou às mãos do Presidente da
República, Cavaco Silva, apesar de já ter sido aprovada pela Assembleia da
República há quase um mês. Contudo, em causa está a submissão dos magistrados
ao regime de vínculos e carreiras dos funcionários públicos. António Martins,
presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), Eurico Reis,
juiz e membro da Associação Juízes pela Cidadania (AJpC) e António Cluny,
presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) falam a «O
DIABO» sobre os problemas que esta lei pode levantar.
«Juízes lutarão até aos limites para preservarem a sua
independência»
António Martins, presidente da ASJP, diz que a questão que
esta lei coloca no que respeita aos juízes «é o facto de pela primeira vez, em
mais de 30 anos de democracia, o poder judicial, como um dos poderes soberanos
do Estado, separado dos outros, poder vir a ser assimilado no poder
executivo».
Com efeito, refere que «a partir do momento em que os juízes
forem qualificados como "trabalhadores da Administração Pública ", e integrados
no regime a estes aplicável, deixarão deter condições para exercer com
independência o poder judicial, radicado nos tribunais, constitucionalmente
consagrados como um dos órgãos de soberania do Estado».
Afirma que com esta
proposta de lei aos juízes ficariam submetidos ao regime dos vínculos e
carreiras dos funcionários públicos». «E está a pretender enganar-se os cidadãos
quando se diz que isto não tem consequências, o que é grave, vindo de pessoas
com responsabilidades de Estado», critica.
António Martins sublinha que o
problema não passa pelas consequências que «podem vir a resultar para os juízes
dessa submissão». «Os juízes portugueses, seguramente, lutarão até aos limites
para preservarem a sua independência, como aliás a generalidade deles o fez no
período da ditadura», assevera. E acrescenta: «o problema é as consequências que
resultarão para os cidadãos. Em termos simplistas, para mais fácil percepção,
poderia dizer-se que está afazer-se aquilo que nem no futebol se admite, ou
seja, que o árbitro seja de uma das equipas. Esta proposta tornaria o juiz um
mero elemento de equipa da administração pública».
O presidente da ASJP
sustenta, por isso, que «é óbvio que quando os cidadãos tivessem litígios com o
Estado (pense-se numa reclamação duma liquidação do IRS ou numa providência
cautelar sobre a co-incineração), se fossem resolvidos por um elemento da
Administração Pública, ainda que tivesse a designação formal de juiz, não teria
as condições para ser equidistante, imparcial, objectivo, isento, no fundo para
ser independente e julgar apenas segundo a Constituição e a lei».
Além disso,
frisa que esta lei pretende produzir efeitos sobre o Estatuto dos juízes
portugueses, «ao pretender integrá-los, desde já, no regime dos funcionários
públicos e, depois, ao prever a revisão daquele Estatuto moldando-o a este
regime». E insiste: «o mais grave são os efeitos que daqui resultariam para os
cidadãos e para a democracia».
António Martins realça, por todas estas
razões, que esta lei é «inconstitucional» já que «que evoca o seu estatuto de
órgão de soberania e consequente independência e autonomia». «Estamos convictos
que este diploma é inconstitucionalpor colocar em causa, precisamente, a
separação de poderes do Estado e a independência do poder judicial. Seria, a
nosso ver, um autêntico golpe de estado constitucional», avisa. Por fim,
garante: «além disso é contrário às recomendações da ONU e do Conselho da Europa
sobre o estatuto do juiz independente, o que deixaria Portugal muito mal visto
na UE, por passarmos a ter características de países do terceiro mundo, na
concepção político constitucional do Estado».
«Injusto, injustificado e imoral»
Eurico Reis, juiz
desembargador na Relação de Lisboa e membro da Associação Juízes pela Cidadania,
vê dois problemas neste diploma: «um de carácter simbólico e outro que tem
efeitos práticos sobre a situação remuneratória dos juízes e dos procuradores do
MP».
«Para o Ministério das Finanças, o estatuto dos juízes e dos
procuradores é "uma espinha cravada na sua garganta " porque nós saímos das
formatações deles, ou seja, não estamos dentro daquele nível em que eles gostam
de colocar toda a gente», começa por referir Eurico Reis, lembrando que «há mais
de 10 anos que fazem tudo para nos tirar aquilo que eles chamam os
privilégios».
E dá um exemplo: «a taxa de sucesso dos embargos solicitados
pelos contribuintes nos tribunais fiscais é imensa. O que significa que na maior
parte das vezes a administração fiscal não cumpre a legislação. Algo que lhe
deve desagradar».
Sustenta que «equiparar juízes a funcionários públicos
revela falta de espírito democrático» e tal facto só pode revelar que o Governo
«não compreendem qual é a função dos juízes». «Os juízes são aqueles que
verificam se as leis queestão em vigor foram ou não cumpridas e que velam pela
garantia dos direitos das pessoas», lembra, sublinhando que «como é o Estado que
lhes paga, através do Ministério da Justiça, passam a ser funcionários
públicos».
No entanto, admite que a culpa também é dos juízes: «nós, de certa
forma, gostamos desta situação. Se assumíssemos inteiramente que somos, de
facto, titulares de um poder de soberania, seria inaceitável que os nossos
vencimentos e tudo o que está relacionado com a nossa situação material,
remuneratória e até o funcionamento dos tribunais está na dependência do
Ministério da Justiça».
E garante: «se os juízes se assumissem como titulares
de um poder de soberania há anos que já andariam a gritar alto para que todo o
funcionamento do sistema de justiça estivesse dependente do Conselho Superior de
Magistratura e não do Ministério da Justiça, logo, do Governo».
Eurico Reis
diz que com este diploma vai «eternizar-se o congelamento das carreiras porque
nós juízes e procuradores - não temos um sistema de avaliação igual àquele que
vai ser implementado». «Logo, como são só aquelas regras de avaliação que
funcionam as promoções estão congeladas. E isso é algo terrível para os meus
colegas que estão agora a começar, que já completaram o número de anos para
passarem para o segundo escalão e já estão à espera», explica, lembrando que «é
no início da profissão que as despesas são maiores porque as pessoas são
deslocadas para fora das suas residências habituais, o que quer dizer que estão
a pagar duas casas. É injusto, injustificado e imoral».
O juiz desembargador
defende, por isso, dois tipos de inconstitucionalidade neste diploma. Uma
primeira, de natureza formal: «esta proposta já tinha sido enviada para ser
discutida ao nível do nosso estatuto e foi recusada pelo Ministério da Justiça.
E o Ministério das Finanças, dentro da tal senha persecutória, faz esta jogada
que é enviar para a Comissão de Trabalho sem ouvir o Conselho Superior da
Magistratura, o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais e o
Conselho Superior do Ministério Público».
De recordar que a AJpC face à
aprovação pela Assembleia da República deste diploma, solicitou uma reunião com
o Presidente da República no sentido de explicar a Cavaco Silva as preocupações
sentidas pelos membros desta associação relativamente a esta matéria. Além disso
pedem ao Chefe de Estado a não promulgação desta lei.
Magistrados do MP «apreensivos»
Presidente do Sindicato dos
Magistrados do Ministério Público (SMMP), diz que a questão central «situa-se
numa inversão de sentido legislativo que contraria os desígnios
constitucionais». «Até agora e de acordo coma Constituição, os magistrados
gozavam no estatuto próprio, que a Constituição para eles prevê, de um sistema
retributivo especifico», explica, sublinhando que «esse regime remuneratório
particular resultava, necessariamente, do reconhecimento, pelo legislador, das
implicações que aparte material do Estatuto sempre importa para a independência
e autonomia das magistraturas. Aliás, a causa directa da consagração
constitucional desse mesmo estatuto próprio».
Afirma que «ficam abertas
portas que permitirão no futuro ditar mudanças no sentido da submissão dos
juízes e magistrados ao regime de vínculos e carreiras dos funcionários
públicos». E frisa que «a consequência directa e imediata é a revisão ilegal e
inesperada do seu próprio Estatuto. Isto sem que nem o Conselho Superior do
Ministério Público pudesse ter emitido parecer, como legalmente lhe compete e
sem que o SMMP tivesse sido, como a Constituição obriga, convocado para um
processo negocia!».
Cluny sublinha ainda que o propósito desta lei «é igualar
o que pela sua natureza constitucional não é igual e fazer, assim, tábua rasada
Constituição». «Noutras palavras -pronunciadas em tempos por alguns dos actuais
responsáveis do Governo - significa partir a espinha ao modelo constitucional de
independência da Justiça portuguesa que, entre outros aspectos, assenta - como
antes de se dedicar apenas ao apologética política do Governo, dizia o jurista e
Prof. Vital Moreira - no facto de os magistrados não serem considerados
funcionários dependentes do Governo», esclarece.
O presidente do SMMP
considera que este diploma «afecta a ideia constitucional de que os magistrados
devem gozar de um Estatuto próprio e integral que deve regular,
obrigatoriamente, também, esta componente remuneratória». E sustenta que «pelo
modo como foi aprovado, sem consulta dos órgãos que sobre ele deviam emitir
parecer e sem negociação com as entidades sindicais dos magistrados, está também
afectado de uma inconstitucionalidade formal».
«Numa primeira fase o SMMP
pretende, tão só, esgotar todos os meios institucionais e sensibilizar todos os
que de algum modo têm poder para intervir no processo legislativo para as graves
consequências e intenções subversivas contidas neste diploma», finaliza António
Cluny.
O DIABO
PSD TENTA SALVAR PACTO DA JUSTIÇA
O líder parlamentar do PSD, Santana Lopes, reuniu-se ontem com o presidente da
bancada socialista, Alberto Martins, para discutirem matérias de justiça, depois
de na semana passada o líder do partido "laranja" ter ameaçado quebrar o acordo
de regime com os socialistas nesta área. "Estamos a trabalhar no bom sentido.
Vamos continuar a trabalhar", limitou-se a dizer Santana Lopes, à saída do
encontro de uma hora que já estava agendado há uma semana, mas que ganha relevo
depois do apelo do Presidente da República para que os dois partidos resolvessem
as divergências. Durante o encontro foram discutidas a lei orgânica da PJ, a lei
da segurança interna e a da investigação criminal, diplomas, que apesar de não
estarem incluídos no pacto da justiça entre os dois partidos, são estruturantes
do sector e levaram o líder do PSD a questionar a manutenção do acordo.
O
ministro da Administração Interna negou ontem ter apelado a um pacto de regime
para a segurança interna, à semelhança do que já existe para a área da justiça.
Rui Pereira apelou a "um consenso tão alargado quanto possível"
PÚBLICO
ALBERTO COSTA SATISFAZ APELO DOS MAGISTRADOS
O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP)
recebeu ontem a garantia do ministro da Justiça de que serão feitas alterações
ao diploma de vínculos e carreiras da função pública, respondendo a
"preocupações" do SMMP sobre a autonomia da magistratura. Face ao novo regime de
vínculos e carreiras da função pública e à alegada "funcionalização" das
magistraturas, o Sindicato dos Magistrados do MP havia prometido desencadear
todas as iniciativas "necessárias à salvaguarda da autonomia do Ministério
Público e da independência do poder judicial".
PÚBLICO
CARREIRAS DA FUNÇÃO PÚBLICA
O ministro da justiça garantiu ontem ao Sindicato dos Magistrados do Ministério
Público que as dúvidas sobre a aplicação da lei das carreiras, vínculos e
remunerações aos magistrados vão ficar resolvidas com uma alteração introduzida
pelo PS ao Orçamento do Estado para o próximo ano. Alberto Costa terá precisado
que a emenda ao artigo 15° do Orçamento tem como objectivo garantir que nenhum
aspecto da lei das carreiras poderá aplicar-se aos magistrados sem que haja uma
alteração dos respectivos estatutos. O sindicato aplaude, mas espera que o
Presidente da República trave o diploma em Belém para que as dúvidas de
interpretação sejam definitivamente solucionadas.
António Cluny, presidente
do SMMP, admite que a solução agora encontrada pelo Governo "pode ajudar a
clarificar a interpretação", mas alerta que o problema apenas fica resolvido no
curto prazo. "Se o Ministério entende que é necessário clarificar a Lei é porque
aceita que ela dá lugar a interpretações contraditórias. Consideramos que a
questão tem de ser clarificada totalmente", sustentou.
Sindicato, Ministério
da justiça e Finanças têm interpretações diversas quanto à aplicação do diploma,
que ainda não chegou a Belém. O SMMP insurge-se contra a integração dos
magistrados numa Lei que se dirige à generalidade dos funcionários públicos, o
que "põe em causa autonomia do poder judicial" prevista na Constituição da
República e defende que ela "não devia sequer incluir qualquer referência às
magistraturas".
A Justiça, por seu turno, garantia, num comunicado de final
de Outubro, que da lei "não decorrem efeitos sobre o regime dos juízes e
magistrados do Ministério Público" e que a revisão do estatuto das magistraturas
em curso não integra as medidas previstas no diploma.
Já as Finanças, através
do secretário de Estado da Administração Pública garantiu, recentemente, que a
lei é aplicável aos juízes e magistrados do Ministério Público, "sem prejuízo no
disposto na Constituição e em leis especiais".
Os magistrados do Ministério
Público consideram que o normativo em causa tem ainda inconstitucionalidades
formais que poderão suscitar dúvidas a Cavaco Silva, uma vez que o sindicato não
foi previamente consultado durante o processo legislativo.
Também a
Associação Sindical dos Juízes se insurge contra o diploma e alerta para as suas
contradições (ver caixa ao lado). "Há artigos contraditórios, as leis especiais
prevalecem sobre a lei geral e não o contrário", sustenta António Martins,
presidente da Associação Sindical de juízes, que espera o veto de Cavaco.
O artigo 20 da Lei das carreiras, diz, no número três, que, sem prejuízo do
disposto na Constituição da República e em leis especiais, o presente diploma é
aplicável, com as necessárias adaptações, aos juízes de qualquer jurisdição e
aos magistrados do Ministério Público. No artigo 86.E diz-se que o disposto no presente diploma
prevalece sobre quaisquer leis especiais (que é o caso do Estatuto dos
magistrados).
JORNAL DE NEGÓCIOS
EXECUTIVO EMENDA CARREIRA DOS MAGISTRADOS
O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP)
recebeu ontem a garantia do ministro da Justiça que serão feitas alterações ao
diploma de vínculos e carreiras da função pública, respondendo a "preocupações"
daquele organismo sobre a autonomia da magistratura.
Face ao novo regime de
vínculos e carreiras da função pública e à alegada "funcionalização" das
magistraturas, o SMMP havia prometido desencadear todas as iniciativas
"necessárias à salvaguarda da autonomia do Ministério Público e da independência
do poder judicial", designadamente suscitando a questão de eventuais
inconstitucionalidades da nova legislação.Ontem, no final de um encontro com
Alberto Costa, o presidente do SMMP, António Cluny, disse à Lusa que o Governo
vai alterar o diploma, devendo ficar expresso que "as alterações aos Estatutos
(da magistratura) só podem resultar da revisão dos próprios Estatutos", e não do
novo regime da função pública.Segundo Cluny, trata-se de uma solução que
tenta "remediar" a situação. "Neste momento, é a solução legal possível que o
Ministério da Justiça e o Governo acabaram por conseguir", referiu.
Após as
garantias dadas pelo ministro, o SMMP está "menos preocupado", mas "não afasta
completamente as preocupações" e apreensões antes manifestadas. Contudo, admite
que "houve um esforço" do Ministério da Justiça para "contornar os efeitos mais
nocivos" do diploma, devolvendo alguma "tranquilidade" às instituições.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS
Comentarios () |
|
|
|
|
|