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20-Nov-2007

 

JUÍZES E MAGISTRADOS DO MINISTÉRIO PÚBLICO ATACAM ALBERTO COSTA

António Martins, presidente da ASJP
«Proposta é inconstitucional e tornaria o juiz num mero elemento da AP»

Eurico Reis, juiz desembargador
«Equiparar juízes a funcionários públicos revela falta de espírito democrático»

António Cluny, presidente do SMMP
«Estamos a partir a espinha ao modelo constitucional de independência da Justiça»

Lei do Regime dos vínculos e carreiras da função pública, que pela primeira vez inclui os magistrados no mesmo regime dos funcionários públicos, está a ser alvo de duras críticas por parte de juízes e magistrados do Ministério Público. O diploma ainda não chegou às mãos do Presidente da República, Cavaco Silva, apesar de já ter sido aprovada pela Assembleia da República há quase um mês. Contudo, em causa está a submissão dos magistrados ao regime de vínculos e carreiras dos funcionários públicos. António Martins, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), Eurico Reis, juiz e membro da Associação Juízes pela Cidadania (AJpC) e António Cluny, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) falam a «O DIABO» sobre os problemas que esta lei pode levantar.

«Juízes lutarão até aos limites para preservarem a sua independência»
António Martins, presidente da ASJP, diz que a questão que esta lei coloca no que respeita aos juízes «é o facto de pela primeira vez, em mais de 30 anos de democracia, o poder judicial, como um dos poderes soberanos do Estado, separado dos outros, poder vir a ser assimilado no poder executivo».
Com efeito, refere que «a partir do momento em que os juízes forem qualificados como "trabalhadores da Administração Pública ", e integrados no regime a estes aplicável, deixarão deter condições para exercer com independência o poder judicial, radicado nos tribunais, constitucionalmente consagrados como um dos órgãos de soberania do Estado».
Afirma que com esta proposta de lei aos juízes ficariam submetidos ao regime dos vínculos e carreiras dos funcionários públicos». «E está a pretender enganar-se os cidadãos quando se diz que isto não tem consequências, o que é grave, vindo de pessoas com responsabilidades de Estado», critica.
António Martins sublinha que o problema não passa pelas consequências que «podem vir a resultar para os juízes dessa submissão». «Os juízes portugueses, seguramente, lutarão até aos limites para preservarem a sua independência, como aliás a generalidade deles o fez no período da ditadura», assevera. E acrescenta: «o problema é as consequências que resultarão para os cidadãos. Em termos simplistas, para mais fácil percepção, poderia dizer-se que está afazer-se aquilo que nem no futebol se admite, ou seja, que o árbitro seja de uma das equipas. Esta proposta tornaria o juiz um mero elemento de equipa da administração pública».
O presidente da ASJP sustenta, por isso, que «é óbvio que quando os cidadãos tivessem litígios com o Estado (pense-se numa reclamação duma liquidação do IRS ou numa providência cautelar sobre a co-incineração), se fossem resolvidos por um elemento da Administração Pública, ainda que tivesse a designação formal de juiz, não teria as condições para ser equidistante, imparcial, objectivo, isento, no fundo para ser independente e julgar apenas segundo a Constituição e a lei».
Além disso, frisa que esta lei pretende produzir efeitos sobre o Estatuto dos juízes portugueses, «ao pretender integrá-los, desde já, no regime dos funcionários públicos e, depois, ao prever a revisão daquele Estatuto moldando-o a este regime». E insiste: «o mais grave são os efeitos que daqui resultariam para os cidadãos e para a democracia».
António Martins realça, por todas estas razões, que esta lei é «inconstitucional» já que «que evoca o seu estatuto de órgão de soberania e consequente independência e autonomia». «Estamos convictos que este diploma é inconstitucionalpor colocar em causa, precisamente, a separação de poderes do Estado e a independência do poder judicial. Seria, a nosso ver, um autêntico golpe de estado constitucional», avisa. Por fim, garante: «além disso é contrário às recomendações da ONU e do Conselho da Europa sobre o estatuto do juiz independente, o que deixaria Portugal muito mal visto na UE, por passarmos a ter características de países do terceiro mundo, na concepção político constitucional do Estado».

«Injusto, injustificado e imoral»
Eurico Reis, juiz desembargador na Relação de Lisboa e membro da Associação Juízes pela Cidadania, vê dois problemas neste diploma: «um de carácter simbólico e outro que tem efeitos práticos sobre a situação remuneratória dos juízes e dos procuradores do MP».
«Para o Ministério das Finanças, o estatuto dos juízes e dos procuradores é "uma espinha cravada na sua garganta " porque nós saímos das formatações deles, ou seja, não estamos dentro daquele nível em que eles gostam de colocar toda a gente», começa por referir Eurico Reis, lembrando que «há mais de 10 anos que fazem tudo para nos tirar aquilo que eles chamam os privilégios».
E dá um exemplo: «a taxa de sucesso dos embargos solicitados pelos contribuintes nos tribunais fiscais é imensa. O que significa que na maior parte das vezes a administração fiscal não cumpre a legislação. Algo que lhe deve desagradar».
Sustenta que «equiparar juízes a funcionários públicos revela falta de espírito democrático» e tal facto só pode revelar que o Governo «não compreendem qual é a função dos juízes». «Os juízes são aqueles que verificam se as leis queestão em vigor foram ou não cumpridas e que velam pela garantia dos direitos das pessoas», lembra, sublinhando que «como é o Estado que lhes paga, através do Ministério da Justiça, passam a ser funcionários públicos».
No entanto, admite que a culpa também é dos juízes: «nós, de certa forma, gostamos desta situação. Se assumíssemos inteiramente que somos, de facto, titulares de um poder de soberania, seria inaceitável que os nossos vencimentos e tudo o que está relacionado com a nossa situação material, remuneratória e até o funcionamento dos tribunais está na dependência do Ministério da Justiça».
E garante: «se os juízes se assumissem como titulares de um poder de soberania há anos que já andariam a gritar alto para que todo o funcionamento do sistema de justiça estivesse dependente do Conselho Superior de Magistratura e não do Ministério da Justiça, logo, do Governo».
Eurico Reis diz que com este diploma vai «eternizar-se o congelamento das carreiras porque nós juízes e procuradores - não temos um sistema de avaliação igual àquele que vai ser implementado». «Logo, como são só aquelas regras de avaliação que funcionam as promoções estão congeladas. E isso é algo terrível para os meus colegas que estão agora a começar, que já completaram o número de anos para passarem para o segundo escalão e já estão à espera», explica, lembrando que «é no início da profissão que as despesas são maiores porque as pessoas são deslocadas para fora das suas residências habituais, o que quer dizer que estão a pagar duas casas. É injusto, injustificado e imoral».
O juiz desembargador defende, por isso, dois tipos de inconstitucionalidade neste diploma. Uma primeira, de natureza formal: «esta proposta já tinha sido enviada para ser discutida ao nível do nosso estatuto e foi recusada pelo Ministério da Justiça. E o Ministério das Finanças, dentro da tal senha persecutória, faz esta jogada que é enviar para a Comissão de Trabalho sem ouvir o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais e o Conselho Superior do Ministério Público».
De recordar que a AJpC face à aprovação pela Assembleia da República deste diploma, solicitou uma reunião com o Presidente da República no sentido de explicar a Cavaco Silva as preocupações sentidas pelos membros desta associação relativamente a esta matéria. Além disso pedem ao Chefe de Estado a não promulgação desta lei.

Magistrados do MP «apreensivos»
Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), diz que a questão central «situa-se numa inversão de sentido legislativo que contraria os desígnios constitucionais». «Até agora e de acordo coma Constituição, os magistrados gozavam no estatuto próprio, que a Constituição para eles prevê, de um sistema retributivo especifico», explica, sublinhando que «esse regime remuneratório particular resultava, necessariamente, do reconhecimento, pelo legislador, das implicações que aparte material do Estatuto sempre importa para a independência e autonomia das magistraturas. Aliás, a causa directa da consagração constitucional desse mesmo estatuto próprio».
Afirma que «ficam abertas portas que permitirão no futuro ditar mudanças no sentido da submissão dos juízes e magistrados ao regime de vínculos e carreiras dos funcionários públicos». E frisa que «a consequência directa e imediata é a revisão ilegal e inesperada do seu próprio Estatuto. Isto sem que nem o Conselho Superior do Ministério Público pudesse ter emitido parecer, como legalmente lhe compete e sem que o SMMP tivesse sido, como a Constituição obriga, convocado para um processo negocia!».
Cluny sublinha ainda que o propósito desta lei «é igualar o que pela sua natureza constitucional não é igual e fazer, assim, tábua rasada Constituição». «Noutras palavras -pronunciadas em tempos por alguns dos actuais responsáveis do Governo - significa partir a espinha ao modelo constitucional de independência da Justiça portuguesa que, entre outros aspectos, assenta - como antes de se dedicar apenas ao apologética política do Governo, dizia o jurista e Prof. Vital Moreira - no facto de os magistrados não serem considerados funcionários dependentes do Governo», esclarece.
O presidente do SMMP considera que este diploma «afecta a ideia constitucional de que os magistrados devem gozar de um Estatuto próprio e integral que deve regular, obrigatoriamente, também, esta componente remuneratória». E sustenta que «pelo modo como foi aprovado, sem consulta dos órgãos que sobre ele deviam emitir parecer e sem negociação com as entidades sindicais dos magistrados, está também afectado de uma inconstitucionalidade formal».
«Numa primeira fase o SMMP pretende, tão só, esgotar todos os meios institucionais e sensibilizar todos os que de algum modo têm poder para intervir no processo legislativo para as graves consequências e intenções subversivas contidas neste diploma», finaliza António Cluny.
O DIABO

 

PSD TENTA SALVAR PACTO DA JUSTIÇA
O líder parlamentar do PSD, Santana Lopes, reuniu-se ontem com o presidente da bancada socialista, Alberto Martins, para discutirem matérias de justiça, depois de na semana passada o líder do partido "laranja" ter ameaçado quebrar o acordo de regime com os socialistas nesta área. "Estamos a trabalhar no bom sentido. Vamos continuar a trabalhar", limitou-se a dizer Santana Lopes, à saída do encontro de uma hora que já estava agendado há uma semana, mas que ganha relevo depois do apelo do Presidente da República para que os dois partidos resolvessem as divergências. Durante o encontro foram discutidas a lei orgânica da PJ, a lei da segurança interna e a da investigação criminal, diplomas, que apesar de não estarem incluídos no pacto da justiça entre os dois partidos, são estruturantes do sector e levaram o líder do PSD a questionar a manutenção do acordo.
O ministro da Administração Interna negou ontem ter apelado a um pacto de regime para a segurança interna, à semelhança do que já existe para a área da justiça. Rui Pereira apelou a "um consenso tão alargado quanto possível"
PÚBLICO
 

ALBERTO COSTA SATISFAZ APELO DOS MAGISTRADOS
O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) recebeu ontem a garantia do ministro da Justiça de que serão feitas alterações ao diploma de vínculos e carreiras da função pública, respondendo a "preocupações" do SMMP sobre a autonomia da magistratura. Face ao novo regime de vínculos e carreiras da função pública e à alegada "funcionalização" das magistraturas, o Sindicato dos Magistrados do MP havia prometido desencadear todas as iniciativas "necessárias à salvaguarda da autonomia do Ministério Público e da independência do poder judicial".
PÚBLICO


CARREIRAS DA FUNÇÃO PÚBLICA

O ministro da justiça garantiu ontem ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público que as dúvidas sobre a aplicação da lei das carreiras, vínculos e remunerações aos magistrados vão ficar resolvidas com uma alteração introduzida pelo PS ao Orçamento do Estado para o próximo ano. Alberto Costa terá precisado que a emenda ao artigo 15° do Orçamento tem como objectivo garantir que nenhum aspecto da lei das carreiras poderá aplicar-se aos magistrados sem que haja uma alteração dos respectivos estatutos. O sindicato aplaude, mas espera que o Presidente da República trave o diploma em Belém para que as dúvidas de interpretação sejam definitivamente solucionadas.
António Cluny, presidente do SMMP, admite que a solução agora encontrada pelo Governo "pode ajudar a clarificar a interpretação", mas alerta que o problema apenas fica resolvido no curto prazo. "Se o Ministério entende que é necessário clarificar a Lei é porque aceita que ela dá lugar a interpretações contraditórias. Consideramos que a questão tem de ser clarificada totalmente", sustentou.
Sindicato, Ministério da justiça e Finanças têm interpretações diversas quanto à aplicação do diploma, que ainda não chegou a Belém. O SMMP insurge-se contra a integração dos magistrados numa Lei que se dirige à generalidade dos funcionários públicos, o que "põe em causa autonomia do poder judicial" prevista na Constituição da República e defende que ela "não devia sequer incluir qualquer referência às magistraturas".
A Justiça, por seu turno, garantia, num comunicado de final de Outubro, que da lei "não decorrem efeitos sobre o regime dos juízes e magistrados do Ministério Público" e que a revisão do estatuto das magistraturas em curso não integra as medidas previstas no diploma.
Já as Finanças, através do secretário de Estado da Administração Pública garantiu, recentemente, que a lei é aplicável aos juízes e magistrados do Ministério Público, "sem prejuízo no disposto na Constituição e em leis especiais".
Os magistrados do Ministério Público consideram que o normativo em causa tem ainda inconstitucionalidades formais que poderão suscitar dúvidas a Cavaco Silva, uma vez que o sindicato não foi previamente consultado durante o processo legislativo.
Também a Associação Sindical dos Juízes se insurge contra o diploma e alerta para as suas contradições (ver caixa ao lado). "Há artigos contraditórios, as leis especiais prevalecem sobre a lei geral e não o contrário", sustenta António Martins, presidente da Associação Sindical de juízes, que espera o veto de Cavaco.
O artigo 20 da Lei das carreiras, diz, no número três, que, sem prejuízo do disposto na Constituição da República e em leis especiais, o presente diploma é aplicável, com as necessárias adaptações, aos juízes de qualquer jurisdição e aos magistrados do Ministério Público. No artigo 86.E diz-se que o disposto no presente diploma prevalece sobre quaisquer leis especiais (que é o caso do Estatuto dos magistrados).
JORNAL DE NEGÓCIOS


EXECUTIVO EMENDA CARREIRA DOS MAGISTRADOS
O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) recebeu ontem a garantia do ministro da Justiça que serão feitas alterações ao diploma de vínculos e carreiras da função pública, respondendo a "preocupações" daquele organismo sobre a autonomia da magistratura.
Face ao novo regime de vínculos e carreiras da função pública e à alegada "funcionalização" das magistraturas, o SMMP havia prometido desencadear todas as iniciativas "necessárias à salvaguarda da autonomia do Ministério Público e da independência do poder judicial", designadamente suscitando a questão de eventuais inconstitucionalidades da nova legislação.Ontem, no final de um encontro com Alberto Costa, o presidente do SMMP, António Cluny, disse à Lusa que o Governo vai alterar o diploma, devendo ficar expresso que "as alterações aos Estatutos (da magistratura) só podem resultar da revisão dos próprios Estatutos", e não do novo regime da função pública.Segundo Cluny, trata-se de uma solução que tenta "remediar" a situação. "Neste momento, é a solução legal possível que o Ministério da Justiça e o Governo acabaram por conseguir", referiu.
Após as garantias dadas pelo ministro, o SMMP está "menos preocupado", mas "não afasta completamente as preocupações" e apreensões antes manifestadas. Contudo, admite que "houve um esforço" do Ministério da Justiça para "contornar os efeitos mais nocivos" do diploma, devolvendo alguma "tranquilidade" às instituições.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Comentarios (1)add
... : descontente
Eurico Reis, juiz desembargador
«Equiparar juízes a funcionários públicos revela falta de espírito democrático»

Mas...eles alguma vez o tiveram??
22.Novembro.2007
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